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“Fora do Corvo estou perdido”

Era assim que Gonçalo Tocha se sentia de cada vez que deixava a ilha açoriana durante a rodagem de “É na Terra Não é Na Lua”. O filme vencedor do DocLisboa estreou ontem nos cinemas portugueses. É uma declaração de amor ao quotidiano.

 

Hélder Beja

 

A ilha mais pequena do arquipélago açoriano, o Corvo, com uma população bem pequena, recebeu a equipa de filmagem mais pequena que alguma vez terá ganho o DocLisboa. Gonçalo Tocha na imagem, Dílio Pestana no som. E mais ninguém. Estávamos em 2007. Anos depois, o resultado é “É na Terra Não é na Lua”.

O documentário, que é também um filme-ensaio ou um diário filmado ou o que quisermos chamar-lhe, estreou ontem nos cinemas de Portugal. Gonçalo Tocha filmou 180 horas para compor um filme de três. Apaixonou-se pelo Corvo, foi adoptado e adoptou a gente da ilha, e acabou a fazer um filme em que toda a população e a equipa de filmagem são uma grande personagem colectiva.

– Há uma senhora que no fim do filme diz ‘agora já é um corvino’. Já se sente um corvino?

Gonçalo Tocha – Sim, não há maneira de não me sentir. Este filme foi uma fusão tão grande entre a equipa de rodagem, que era só duas pessoas, e uma população tão pequena, de 400 pessoas, que teve de ser o tempo e a união entre as coisas a combinar. Não podia ser uma equipa de rodagem a tentar fazer um filme distante, porque isso não iria funcionar ali. Então tive de fundir-me no meio do Corvo, tentar ser corvino. E esse tentar ser corvino era ser habitante, começar a viver ali, e estar cada vez mais dentro. O gorro [que uma das habitantes costura para Gonçalo Tocha] pode ser o símbolo do corvino. Um símbolo do passado, que já ninguém usa, mas que ao mesmo tempo fica e que ela, a senhora Inês, vai fazendo para mim.

– O gorro que a senhora Inês faz para si simboliza também a passagem lenta do tempo, de um filme que é contemplativo, que não é apressado. Imagina-se a separar-se desse gorro?

G.T. – Obviamente que quando visto o gorro estou a levar o Corvo comigo, estou a levar o Corvo na cabeça. No fundo nós quando fazemos um filme estamos sempre a representar. É isso que também me agrada e que o filme também tem. Com este filme não se diz ‘isto é o Corvo tal qual como ele é’, não. Este é o Corvo vivido por nós. E vivido na aceitação deles da nossa presença. Este gorro também é feito para mim, tem o meu nome, tem a data, tem as medidas exactas. Não é só um gorro corvino, é também um gorro que representa o filme.

– Há momentos em que os habitantes estão mesmo dentro do filme, em que falam convosco, em que fazem parte do processo. Quis assumir isso desde o começo, essa relação, ou acabou por acontecer?

G.T. – É também a minha maneira de filmar, de assumir um bocado tudo o que se está a passar. Tanto o dispositivo da câmara e do som, como a nossa presença. E ali não havia grande hipótese, não nos podíamos esconder atrás de uma câmara. Essa é também a grande lição de como é que podemos filmar pessoas. À partida, eles não me pediram para ir filmar, foi o meu desejo que me fez filmar. Ali nada pode ser escondido, tem de ser tudo às claras. Não pensei muito sobre se isso ia aparecer no filme, foi uma coisa que a rodagem foi determinando e por isso também foi fazendo sentido. Cada vez que eu colocava a câmara numa certa posição, de repente via a minha sombra na imagem, olhava e pensava, ‘bem, isto bate certo, isto é justo com o que eu estou a filmar’. É uma forma de assumir que algo estava a ser feito por alguém, e acho que isso era importante no Corvo.

– Logo a abrir dizem-nos ‘os Açores são loucos, mas o Corvo é mais louco ainda’. O que é que há de verdade nesta frase?

G.T. – É uma frase de que eu gosto muito, independente de tudo. Esse marinheiro, o Jean-Claude, ficou um bocado receoso que a frase pudesse ser mal interpretada. Mas é uma frase bonita e não é mal intencionada. É uma frase de amor dele pelo Corvo. Acho que é comum a muitas pessoas que passam pelo Corvo pouco tempo e que ficam completamente fascinadas. O primeiro impulso é dizer ‘isto é louco, isto é incrível’. Esse impulso é aquele impulso inicial de quem vai fazer o filme. A primeira vez que chego ao Corvo vou nesta voragem de tentar descobrir um sítio único, e isso pode ser louco, pode ser maravilhoso, mitológico, fantástico. Quem passa pelo Corvo nunca tem um sentimento neutro.

– Referiu agora a mitologia da ilha. Esse território mitológico mantém-se para si depois de terminado o filme?

G.T. – Cada vez mais. O Corvo, como tem pouca História escrita, está cheio de coisas que ninguém sabe se aconteceram ou não. Como a questão da santa padroeira da ilha, que veio parar ao Corvo no século XVI numa caixa vinda pelo mar, e de que essa santa depois protegeu a população dos piratas. Tudo isso vai passando de geração em geração e torna-se quase o símbolo da história do Corvo. Se tentarmos saber se há verdade nisto, para já nunca terminamos, porque é difícil comprovar. E depois também é um bocado inglório, porque no fundo essas são as pequenas maravilhas de um sítio, convém preservar esse pequeno tesouro. A vida está cheia de ficções e um sítio como o Corvo merece ter as suas mitologias.

– No caso da vossa história, como surgiu a ideia de ir narrando o filme com conversas muito informais entre si e o Dídio Pestana, que tratou do som?

G.T. – Isso foi voltar um bocado à origem da rodagem. Nós estávamos sempre os dois a filmar. Filmámos todos os dias, a toda a hora. Muitas vezes filmávamos planos contínuos, nuvens, paisagens, e depois íamos falando sobre as coisas que tínhamos vivido e ouvido, coisas que às vezes não tínhamos sequer gravado. De repente, na montagem, voltámos a esse tipo de diálogos como pessoas que contam uma viagem pelo Corvo. Isso fazia sentido, até porque as histórias eram tantas que tinha de haver ali um fio, que era a equipa da rodagem que vai revelando coisas ao espectador. É quase um fio narrativo inspirado um bocado na literatura de viagens.

– Vocês voltaram três vezes à ilha. Foi difícil parar de filmar?

G.T. – Sempre difícil. Parávamos apenas por questões logísticas, porque precisávamos de descansar. E sempre que parávamos ficávamos com o coração preso na garganta e a pensar ‘porque é que estamos a parar, há tanta coisa que ainda vai acontecer’.

– E parar definitivamente? Quando é que perceberam ‘ok, temos de parar, já temos imenso material’?

G.T. – Não percebemos, ficámos no esgotamento. Já tínhamos 180 horas de imagens. Ou parávamos naquela altura ou continuávamos interminavelmente a rodar. Podia ser um filme que se prolongasse por dez anos. Há um ciclo de vida nestas coisas. No fundo é um bocado a tragédia do Óscar Nunes, do cabo do mar no filme, o homem que vai acumulando arquivo e nunca o organiza. E, se nunca se organiza, o arquivo acaba por desaparecer.

– O filme ficou com três horas. Como foi seleccionar o que entrava e o que não entrava de entre essas 180 horas?

G.T. – O filme tinha de ser organizado como uma experiência de vida no Corvo, quem visse o filme tinha de ter essa progressão. A entrada na ilha, o começar a conhecer algumas pessoas melhor, a mudança da ilha com a questão do progresso, dos novos edifícios que eram construídos. O material foi organizado segundo essa experiência, não propriamente porque era mais ou menos importante. Aquela experiência vivida no Corvo é que tinha de ser dada.

– Num mundo que corre tão depressa, ainda há espaço para um filme-ensaio com estes minutos todos? Ainda há espectadores para este tipo de cinema?

G.T. – Acho até que há cada vez mais. O filme já circulou por vários países e continuo a receber reacções. O que sinto é que quem se entusiasma, quem quer ver um filme de viagem e de permanência num sítio, está à procura de ter uma experiência de estar no local, de dentro. Estamos a ser bombardeados com demasiadas imagens e também senti isso no Corvo. Nos últimos anos a ilha foi muito filmada por reportagens de televisão, que são o que são. Ficam pouco tempo no Corvo, dão uma imagem muito unívoca da ilha. Demorar mais tempo, ter uma experiência do sítio, penso que tem muitos espectadores, porque no fundo quando nos sentamos numa sala de cinema estamos à procura de viver qualquer coisa.

– Este é um filme entre o passado e a modernidade, para si e talvez também para os habitantes do Corvo que já tiveram oportunidade de vê-lo. Como foi a reacção das pessoas?

G.T. – Ao início ainda estava toda a gente um bocado desconfiada. Mas isso é que acho maravilhoso, porque o filme nunca foi facilmente rodado, foi sempre numa tensão muito grande mas muito produtiva. As coisas não eram dadas, era sempre passo a passo. Esse receio da imagem que é passada do Corvo é muito forte e até ao fim, antes da exibição do filme, havia um certo receio sobre o que é que estava lá dentro. Iam-me perguntando ‘tu não falas mal da ilha, pois não?’. Depois, a reacção foi muito emocionante, a sala estava cheia, desde crianças até pessoas de 80 anos. Foi emocionante eles virem ter connosco e dizerem ‘isto é a vossa experiência do Corvo, é muito pessoal, mas ao mesmo tempo isto é a nossa ilha’. Nós, quando fizemos este filme, fizemo-lo com uma dedicação muito grande. Apaixonei-me e queria que isto também fosse um acto de amor pela ilha e pelas pessoas. Há até aspectos no filme potencialmente polémicos, como a lixeira a céu aberto, que é uma coisa um bocado escandalosa; ou, durante as eleições, alguns discursos duvidosos. Mas não foram polémicos porque foram mostrados numa vivência do Corvo, onde é natural que as coisas aconteçam assim. Foi por isso que as coisas não foram mal entendidas e eles riram-se das mesmas coisas de que as pessoas em Lisboa ou no Canadá se riram. Ninguém goza com ninguém, aquilo é simplesmente a vida.

– De um ponto de vista quase etnológico, como foi passar uma temporada grande numa ilha tão pequena?

G.T. – A experiência de viver no Corvo através de um filme é inesquecível. Os dois anos de rodagem foram muito especiais, o Corvo nunca será o mesmo para mim. No fundo é aquela aventura que nunca sabemos quando é que termina, através da imagem estamos a viver as coisas a quadruplicar. O Corvo é um sítio tão reduzido… A ilha é pequena, tem 17 quilómetros quadrados. Mas a vila é muito mais pequena do que a ilha, é um lugar onde encontramos as mesmas pessoas quatro ou cinco vezes ao dia. De repente elas tornam-se a nossa família. E nós tanto fomos adoptados como adoptámos o Corvo como uma segunda casa. Quando saía do Corvo tinha aquele sentimento de estar perdido. Pensava ‘fora do Corvo estou perdido, o mundo é demasiado vasto para eu perceber. O Corvo é que é o meu universo, o resto é perdição’.

– E, ao contrário, como é que as pessoas do Corvo olham para Portugal Continental?

G.T. – Não consigo bem descrever. Há uma distância, a distância geográfica marca muito. O Corvo ali é o centro. O centro não é Lisboa. O Corvo sempre viveu de decisões impostas por fora, que a própria população não aceitava porque a vida no Corvo é muito específica, não se coaduna com regras estandardizadas. O poder de Lisboa sempre foi muito opressivo nesse sentido. Agora menos, porque o dinheiro está a entrar, há investimento e a relação é diferente. Mas há essa distância. Lisboa está muito longe. Até São Miguel está muito longe, quanto mais Lisboa.

– Deve ter partido para esta aventura à espera de tudo e de nada ao mesmo tempo. Houve alguma coisa que o tenha surpreendido mesmo no Corvo?

G.T. – Sabia que ia encontrar muita coisa e era disso que estava à procura, de filmar quase tudo. Mas as surpresas foram todas, porque como também não estava à espera de nada específico, mas estava à espera de tudo, a surpresa foi constante.

– O filme acaba de estrear em sala, ao contrário da sua primeira obra, “Balaou”. Foi difícil?

G.T. – Foi uma questão de querer e de fazer por isso. No primeiro filme também não fiz nada por isso, não senti que seria o momento. Para este filme, achei que fazia sentido estrear e foi um trabalho desde Outubro até agora, trabalho de pôr o filme em sala, que não foi assim tão fácil quanto isso. Mas é importante. O filme está ali, as pessoas vão vê-lo quando quiserem. É importante marcar essa presença no quotidiano das pessoas.

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