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Malditas casadoiras

Tenho para mim que toda a gente passa, pelo menos uma vez na vida, pelo momento dramático que é aperceber-se que a sua vida é um falhanço total: um emprego miserável, finanças desgraçadas, romances que só desfazem a auto-estima, amigos raros, distantes e casados e uma clara noção de que socialmente está aquém das expectativas.

Conhecemos Annie, a protagonista do hilariante filme de Paul Feig “Bridesmaids”, a atravessar exactamente essa fase. Comecemos pela vida amorosa. Boas notícias primeiro: Annie tem uma relação casual com Ted, interpretado por Jon Hamm (Mad Men). As más são que ele é um cretino, que não tenta sequer disfarçar a falta de apreço que tem por ela. Numa dessas noites em que, excepcionalmente, Annie dorme na casa de Ted, ele diz-lhe ao acordar: “This is so awkward. I really want you to leave, but I don’t know how to say it without sounding like a dick”. Tentando não parecer incomodada – “I’m not looking for a relationship right now either. I like simple. I’m not like other girls, like, ‘be my boyfriend!’ Unless you were like, ‘yeah!’. Then I’d be like, ‘maybe’” –, Annie escapa-se da casa, humilhada.

O trabalho também não lhe traz muitas alegrias. Depois de ter perdido todo o seu dinheiro num investimento falhado, uma pastelaria de bairro que não resiste à crise, Annie consegue um emprego, por especial favor de um amigo da mãe, numa ourivesaria. Obrigada a vender anéis de noivado a casais apaixonados, não consegue resistir em alertá-los para a efemeridade do amor. Recomendação que não cai muito bem aos pombinhos e, consequentemente, ao patrão.

A sanidade mental é mantida graças à amiga de infância Lillian, companheira de gargalhadas e comiserações. Até ao momento em que esta lhe conta que se vai casar. A partir daí, Annie é sugada por uma espiral de vestidos de folhos, festas de casamento e mulheres perfeitas. É a competição feminina elevada ao expoente máximo, mas, mais do que isso, é uma luta pela afirmação de que a norma não é obrigatoriamente o melhor.

Annie já devia saber que não vale a pena tentar ser o que não é. Que as barbies, magras, altas, lindas, bem casadas (conceito dúbio) e com conhecimentos que abrem portas de ouro não são necessariamente as melhores. Mas claro, isto é fácil de dizer quando não somos nós a ver o amor da nossa melhor amiga comprado por champanhe, viagens em primeira classe, cachorrinhos e fontes de chocolate.

À partida “Bridesmaids” pode parecer apenas mais uma comédia romântica. Mas garantimos, não é. Profundamente engraçado, acutilante, inteligente, o filme funciona como um exercício de reavaliação das prioridades numa sociedade em que o aspecto e principalmente a conta bancária são o cartão-de-visita preferido.

Bridesmaids

Paul Feig, 2011

Inês Santinhos Gonçalves

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