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Para meninos adultos

Há muito tempo que a animação deixou de ser – se é que alguma vez foi – território exclusivo da criançada, e isso tem-se acentuado nos últimos anos. Estamos a falar de duas vertentes: primeiro, a da animação que é densa, que trata temas ditos sérios, que é tudo menos para ver ao domingo de manhã com a pequenada. São coisas como “Persepolis”, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud; o inesquecível “Waltz with Bashir”, de Ari Folman; “A Scanner Darkly”, de Richard Linklater; e mesmo de “The Nightmare Before Christmas”, de Henry Selick.

Depois, há a outra fatia não menos interessante mas bem mais ordinária, cheia de humor brejeiro e sexo. É o campeonato de “Fritz the Cat”, que nos anos 1970 Ralph Bakshi transportou dos livros marotos de Robert Crumb para o grande ecrã. E também de “Heavy Metal”, uma mistura 80’s de ficção científica e erotismo. E ainda do grande Harvey Pekar, imortalizado no cinema por Paul Giamatti, em “American Splendor”.

Podíamos ainda falar das leituras mais ou menos enviesadas que alguns propõem para os clássicos da Disney. E de “South Park” e todo aquele manancial de mau comportamento. Mas de certeza que já perceberam onde queremos chegar.

“George the Hedgeghog” é um filme polaco que mistura ingredientes de todos estes títulos e de muitos outros que nem sabemos nomear, para criar uma animação demente. Temos um ouriço antropomorfizado e mulherengo numa Polónia em depressão, onde florescem os políticos corruptos, as estrelas de TV vazias e movimentos neonazis. E temos um cientista louco que, fechado numa cave, acredita poder criar através do processo de clonagem um ícone mundial que o torne famoso e que lhe valha, no final das contas, o Prémio Nobel. George, o ouriço que anda sempre de boné e skate, é o escolhido para a clonagem e, enquanto anda enrolado com uma loira jeitosa e mal casada, vê-se perseguido por dois skinheads que fazem tudo para lhe arrancar o couro.

Se o leitor voltar atrás no texto, é bem possível que o parágrafo anterior não faça qualquer sentido. É assim mesmo: o guião de “George the Hedgeghog” é tão incoerente e desgarrado que custa a acreditar que o filme sobreviva. Mas a verdade é que sobrevive.

Assente em elevadas doses de sexo, adultério, prostituição, violência e ambição, é no entanto o humor que vem direitinho dos comics de Tomasz Lesniak que cola todos estes elementos. Não estamos a falar de humor inteligente e subtil, mas da piada bruta e malcriada que vai destapando uma série de concepções dos nossos dias não muito agradáveis de admitir. Como a menina que trai mas que diz que não pode divorciar-se porque é católica; ou como o ouriço-clone que vomita e faz ainda pior para rapidamente ascender a fenómeno da Internet.

Se há um certo pessimismo europeu que atravessa todo o filme – bem visível nas personagens tristes que defendem a supremacia da raça –, os filmes e a cultura pop norte-americanos espreitam por todo o lado. Há uma cena com bonecas insufláveis a fazer lembrar “Os Pássaros”, de Hitchcok, e outra de pancadaria em que, mais uma vez, se replicam os movimentos de “Matrix”. E há uma pop-star inspirada em Michael Jackson que, como não podia deixar de ser, é muito bem dotada.

Tomasz Lesniak juntou-se a Wojtek Wawszczyk e Jakub Tarkowski para adaptar esta personagem de culto ao cinema e o resultado é satisfatório. Tecnicamente está tudo muito bem feito, mas às vezes a javardice narrativa é tanta que cansa.

George the Hedgeghog

Wojtek Wawszczyk, Jakub Tarkowski e Tomasz Lesniak, 2011

Hélder Beja

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One thought on “Para meninos adultos

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