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Flamenco islandês

Hylnur não é bem o nome de galã a que estamos habituados. Mas de qualquer forma, a Islândia também não é a Califórnia – há que baixar, então, as expectativas.

Temos a certeza que Hylnur não vai arrebatar corações quando o vemos submerso em água, sentado na banheira que ocupa grande parte da cozinha. A coisa fica ainda pior quando entra a mãe, Berglind: “Bom dia, chegou mais uma carta do centro de emprego”.

É este o cenário de “101 Reykjavík”, um miúdo com idade para ser gente, mas que aos 28 anos continua a arrastar-se pela casa da mãe, fazendo, como ele próprio descreve, “o nada tipo de nada”. A cidade desta vez tem muito menos encanto do que é costume. Por aqui só nos mostram gelo, muita neve, dias angustiantemente curtos e um grupo de gente que parece apenas encontrar satisfação na saída nocturna para o bar rasco e atafulhado lá do sítio.

A rotina de mãe e filho é quebrada pela chegada de uma espanhola de inglês adocicado. Lola, como manda a regra, é professora de flamenco e dona de um salero pouco habitual nos círculos islandeses.

Como é época natalícia, Lola é convidada a ficar lá por casa, enquanto Berglind visita uns familiares. É aqui que “101 Reykjavík” vira uma comédia ao estilo de Almodóvar, repleta de bizarrias, de absurdos e de humor trágico. E o triângulo amoroso, claro, não podia faltar.

A vida de Hylnur é de um aborrecimento atroz. Vive de subsídios e ocasionalmente dorme com Hófí – brincadeira que lhe vai custar dores de cabeça, mas é melhor não revelarmos tudo. Era previsível que a chegada de Lola fosse agitar as águas mas a coisa foge definitivamente de controlo quando nesta equação são incluídas umas belas litradas de vodka.

Ao regresso de Berglind, mais uma reviravolta: Hylnur descobre que a mãe é lésbica e está apaixonada por Lola. As duas querem viver juntas. A espanhola está grávida. Vão criar o filho como casal. “Vais ter um irmãozinho”. A informação só pode vir intercalada de pontos finais, ou Hylnur teria uma síncope. Almodóvar estaria tão orgulhoso.

No meio disto tudo, inglês, islandês e o sotaque de Lola ao explicar “I don’t ishspeak icelandic”. Uma salganhada indescritível.

Não é fácil catalogar “101 Reykjavík”. Comédia? É sem dúvida divertido, a roçar o hilariante. Mas é mais do que isso. Fazendo uso do cenário gélido, escuro e propício à depressão – mas onde, atenção, não falta festa da rija – o filme de Baltasar Kormakur dá-nos conta do drama humano mais comum do mundo: o insuportável peso da banalidade dos dias. Para fugir dele tudo serve, até a namorada lésbica da mãe. Tanto aqui como na Islândia.

“101 Reykjavík”

Baltasar Kormakur, 2000

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

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