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Noir chinês

Num lugar como Macau, onde a palavra tríade ainda tem tanto peso, “Shanghai Triad” é uma obra quase obrigatória. O filme de época de Zhang Yimou, que situa a acção na década de 1930, é o equivalente chinês àquilo que italianos e especialmente norte-americanos fizeram com as histórias da máfia; e que os japoneses foram fazendo com os yakusa.

Zhang Yimou quis olhar o crime organizado na China, esse crime organizado que remonta pelo menos ao começo do século XIX, quando o império estava em mãos manchus, e que foi uma das formas de combate encontrada pelos han. Terão sido as autoridades britânicas de Hong Kong a forjar o termo ‘triad’, para fazerem referência a uma organização do género que utilizava um triângulo como símbolo. Claro que Zhang Yimou não nos dá estes detalhes, mas isso é também o bom do cinema: oferece-nos pontas e, em querendo, a gente pode puxar e puxar se quiser saber mais.

Mas o filme. Os ingredientes são de melodrama, com em tantos outros títulos do género. Um chefe mafioso, uma mulher muito bonita, traições, mortes e uma testemunha inocente que acaba por jogar um papel decisivo em toda a trama. Essa testemunha é Shuiseng (Wang Xiaoxiao), um rapazito do campo que chega a Xangai para trabalhar com o tio Liu.

O filme abre com um plano longo do rosto sujo do rapaz perdido na azáfama da cidade. Como em “Memórias de Uma Gueixa”, de Rob Marshall, Shuiseng é uma criança prestes a entrar num território desconhecido, cheio de rituais iniciáticos e de códigos de conduta específicos. O moço está ali para servir a amante de Tang (Li Baotian), chefe de uma das tríades xangainenses. É aqui que o filme assenta, no desenvolvimento da relação entre o rapaz que serve e a musa que é servida.

 

Shuiseng serve-nos de condutor narrativa fora. Ao mesmo tempo que ele, somos introduzidos ao crime a grupos de homens que usam fatos escuros e toda uma indumentária que, à excepção dos detalhes asiáticos, poderia ter saídos de algum filme de Francis Ford Coppola ou Martins Scorsese. Seguimos depois para os cabarets – nem a propósito, há um novo espaço em Macau inspirado nesta época e nestes lugares, o China Rouge – e vamos lembrar-nos muitas vezes de “Cotton Club” e de outros títulos que juntam pistolas e plumas. Aqui, a amante Bijou Jingbao (Gong Li) personifica aquilo que não falta em quase nenhum filme de Zhang Yimou: a ode à beleza da mulher chinesa. A Xangai do começo do século passado, hoje recordada pela luxúria e por um certo cosmopolitismo precoce, está toda aqui.

Zhang Yimou é poupadíssimo na violência, explorando mais as relações amorosas e o comportamento de todos os que compõem a teia que controla a cidade. Cineasta apaixonado pelo belo, filma o corpo feminino como poucos e cruza-o, como em “The Road Home” e “Hero”, com os elementos. “Shanghai Triad” também faz essa migração da cidade para o campo, mimando-nos com paisagens oníricas que contrastam com a desolação interior das personagens.

O desenlace há-de acontecer no meio da natureza. Shuiseng, o rapazito, continua lá, a caminhar para o futuro que lhe escolheram. “Um bom cão tem de ser treinado. É o que estou a fazer com ele”, diz o chefe da tríade quase no final.

Zhang Yimou não precisa de sangue e tiros para nos agarrar à tela. “Shangai Triad” não é “O Padrinho” mas é um bom film noir. E é, como tantas coisas que aqui nos rodeiam e com as quais podemos traçar paralelos a ocidente, um exemplo de contenção.

 

Hélder Beja

“Shanghai Triad”

Zhang Yimou, 1995

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