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Nos passos de Manuel Teixeira

A freguesia de São Lourenço foi a primeira a tê-lo como pároco, depois de muitos anos no seminário. Com o livro “Toponímia de Macau” debaixo do braço, seguimos-lhe as passadas até ao coração da cidade.

Hélder Beja

Foi o padre Manuel Teixeira que deixou o convite. “Leitor amigo: se tens algum interesse, ‘me duce, carpe diem’, vem comigo passear por essas ruas que eu te contarei a sua história como amável guia turístico”. O convite está no texto que abre o primeiro dos dois volumes da sua “Toponímia de Macau”. Aceitamo-lo.

Estamos nas costas da Igreja de São Lourenço. Não foi aqui que o padre Teixeira deu a primeira missa, a 1 de Novembro de 1934 – essa haveria de ser na Igreja de São Domingos –, mas foi esta freguesia a tê-lo como pároco até 1946. Connosco temos as páginas em que Teixeira sistematizou as histórias das placas bilingues que nomeiam as artérias da cidade – mas igualmente dos lugares, dos edifícios, das pontes, das ilhas. A Igreja de São Lourenço também lá está.

“Fr. José de Jesus Maria diz que a Igreja de São Lourenço foi erecta entre 1558 e 1560, i. é, logo após a fundação de Macau”, escreve o pároco. Foi sucessivamente reconstruída e renovada, a última vez já na segunda metade do século XX. Hoje as paredes amarelas estão praticamente imaculadas e o edifício bem tratado, apesar dos prédios que o rodeiam e do corrupio de trânsito à volta da igreja que já foi prisão eclesiástica.

A rua na retaguarda é a da Imprensa Nacional, instituição fundada em Macau no ano de 1900. A 16 de Novembro desse ano, conta Manuel Teixeira, a  Imprensa Nacional abriu portas e a artéria perdeu o nome que carregava (Rua dos Prazeres), para passar a designar-se como agora a conhecemos, para perder graça mas ganhar peso.

Foi também aqui, bem perto da Igreja de São Lourenço, que Manuel Teixeira viveu muitos anos, no Seminário de São José. Já velho, e sem novos discípulos para a vida eclesiástica, teve-o por sua conta, com 16 quartos vazios. “Tenho mais quartos que o Governador”, costumava brincar.

Contornamos a igreja e olhamos à direita a Rua da Casa Forte – que deve o nome a uma esquadra de polícia ali instalada no primeiro quartel do século XVIII. Um McDonald’s aqui, um 7eleven ali, muitas tascas de comida até chegarmos a Rua de São Lourenço. “Os chineses chamam-lhe Fong Song T’ong Kai (Rua da Igreja do Vento Favorável).” É bonito.

 

Para o centro

 

Manuel Teixeira caminhava muito, ficaram famosos os passeios que fazia. Hoje a nossa caminhada não daria sequer para o padre suar as longas barbas, mas é uma amostra. Se virássemos à direita pela Rua do Padre António, rumo ao Lilau, muita história haveria para contar. A escolha é porém tornar à esquerda e seguir pela Rua Central ou, em chinês, Leong Sang Cheng Kai (Rua Direita do Cume do Dragão).

“Antes da construção da Avenida de Almeida Ribeiro em 1915, era a Rua Central o centro da vida comercial de Macau”, escreve o padre Teixeira. “Hoje acha-se ali instalada a Polícia Judiciária”, acrescenta, mas isso nós já sabíamos. É aliás encostado ao edifício da Polícia Judiciária que fica o Pátio Central, um lugar com pouca história e menos vida.

Lá atrás já passámos a Travessa do Paiva, que desce para a Praia Grande. Mas que Paiva? “Quando em 1846, Ferreira do Amaral organizou o Batalhão Provisório, [Francisco José de] Paiva foi o seu primeiro comandante com o posto de major; foi ainda o primeiro cônsul de Portugal em Hong Kong.” Esclarecidos, pensamos que este homem podia ser protagonista de um qualquer drama, mas isto talvez seja por estarmos já a encarar a placa da Calçada do Teatro, que serve de acesso ao Dom Pedro V.

A Rua Central, de sentido único e passeios estreitos, há-de desaguar na Almeida Ribeiro muitas motas e carros depois. A famosa San Ma Lou (Avenida Nova), hoje o coração da cidade, “foi rasgada em 1915 pelo eng. director das Obras Públicas, António Pinto de Miranda Guedes”. A artéria deveria ter-se chamado A-Mei-Ta Lei-Pei-Lou Tai-Ma-Lou mas não admira que o nome não tenha pegado junto da comunidade chinesa.

Monsenhor Teixeira lembra-nos que Almeida Ribeiro, natural dos Juncais, distrito da Guarda, foi jurista, esteve muitos anos nas colónias portuguesas em África, foi ministro das Colónias e do Interior e foi expulso do Partido Republicano por em 1928 ter aceitado o cargo de vogal do Conselho Superior das Colónias no Governo de Salazar.

O padre Teixeira fascinou-se e fascinou-nos por estes e outros nomes dos lugares por onde andamos, mesmo os que “as botas ferradas dos vândalos modernos partiram” e fizeram desaparecer. E foram muitos. Das calçadas do Marfim, do Poço e da Fundição às travessas do Verme, do Chá e do Ópio; e aos pátios da Manga, do Cúli e da Tancareira.

Mesmo assim Macau continua a ser o lugar da Rua da Felicidade e do Pátio da Eterna Felicidade, da Travessa de D. Quixote e da outra do seu comparsa Sancho Pança. Continua a ser bom chamar a cidade pelos nomes.

 

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