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“O Irmão Manuel da Pêra Branca”

Um religioso ortodoxo com o qual não era possível discutir dogmas da Igreja, mas também um professor invulgar, seguido por dezenas de adolescentes em longas caminhadas pela Taipa. Manuel Teixeira é uma recordação forte para Luís Machado, antigo aluno do Liceu.

Maria Caetano

“É uma imagem icónica. Com as suas grandes barbas brancas ao vento, a atravessar a ponte”. A travessia diária de Manuel Teixeira foi imortalizada assim, até pela imprensa internacional, e é dela que quase sempre primeiro nos falam quando nos falam dele. “Era um trajecto que fazia diariamente, suponho que entre as seis e as oito da noite. Isto nos anos 1980”, lembra Luís Machado, aluno do Monsenhor no antigo Liceu Nacional Infante D. Henrique.

A Ponte Nobre de Carvalho, inaugurada em 1974, foi a primeira travessia para a Taipa que podia ser feita a pé, mandada erguer pelo empresário e comendador Ho Yin. Era o percurso solitário de reflexão de Manuel Teixeira, absorto no seu breviário e indiferente às buzinadelas dos carros dos seus conhecidos.

“Depois, nos anos 1990, sofreu uma trombose, algo que o paralisou, e passou a não andar”. Mas ficou a imagem de um homem que muito caminhava: “Sempre foi um indivíduo que não gostava de estar parado no mesmo sítio, isso é verdade. Talvez isso venha dos tempos em que ele era miúdo em Trás-os-Montes”.

Luís Machado conheceu Manuel Teixeira quando frequentava o antigo 3º ano do Liceu. O religioso era professor da disciplina de Religião e Moral, então obrigatória, que era ministrada uma vez por semana aos alunos.

“Nas aulas, tentava aliciar-nos com jogos, com perguntas. A princípio – nos primeiros anitos, éramos miúdos com 12 e 13 anos –, ainda encarávamos as brincadeiras com uma certa piada e brincávamos com ele. Depois, quando começámos a crescer e a amadurecer, as brincadeiras já eram insuportáveis e não podíamos com o padre. Não tínhamos grande amor ao padre”, confessa o antigo aluno, cuja relação com o religioso se sedimentou também pela longa amizade entre este e a sua família.

“Muito transmontano, muito directo”

Com os colegas de escola, no entanto, as recompensas pela participação nas brincadeiras – “era um santinho, ou era um rebuçado” – deixavam de convencer aos poucos, quando chegavam mais perto da maioridade. “Em termos de camaradagem, até aos 12, 15 anos ainda o ‘suportávamos’. Depois começava já a não ter conversa para nós. Quando lhe púnhamos alguma questão dogmática, daquelas da Igreja, ele começava logo a insultar-nos e não tentava dar resposta”, recorda.

“Dávamos-lhe a alcunha do Irmão Manuel da Pêra Branca, porque ele tinha de facto uma pêra enorme”, diz. Teixeira era, porém, um religioso diferente, que sem margem para dúvidas deixou uma marca nos jovens que frequentavam o Liceu e o tinham como professor.

“Marcou toda a nossa geração por nos levar a passear. A Hong Kong, uma vez por ano – na Páscoa, aliás, por esta altura –, íamos em excursão, os mais velhinhos, em grupos de trinta, quarenta. Rapazes e raparigas, ficávamos instalados em colégios de padres em Hong Kong e as meninas ficavam também em colégios de freiras”. Os jovens passavam por lá duas ou três noites, visitavam “fábricas, sítios interessantes nessa época”.

Por aquela altura, estava por construir a Ponte Nobre de Carvalho, mas já então Manuel Teixeira seguia em direcção à Taipa de barco, para longas caminhadas conjuntas com os seus alunos. “Levava-nos ao sábado de manhã, com uma lancheira – ou então comíamos por lá –, e íamos, por exemplo, a pé desde a ponte-cais da Taipa até à Ponta da Cabrita, atravessando os montes da Taipa Grande e da Taipa Pequena. Eram trilhos interessantes, ainda me lembro que havia por lá casas de mata, guaritas”, conta Machado.

Os estudantes eram também aliciados para o trabalho social, para aderirem aos movimentos de caridade. “Fazíamos colectas para ajudar os mais necessitados, e fazíamos algo de que me lembro de ter feito mais na vida, que era visitar cadeias”, lembra o ex-aluno.

Luís Machado guarda sobretudo uma recordação, “daquelas fortes mesmo”, de uma ida a Hong Kong para assistir a uma missa campal dada pelo Papa Paulo VI, na última expedição pastoral do então chefe da igreja católica, em 1970, que o levou ao Extremo Oriente .

“Fomos à missa, que decorreu num campo de futebol, e depois no regresso viemos num barco, que era o SS Macau, onde havia um espectáculo das francesas Folies Bergère. Nessa altura, ainda não havia em Macau o Crazy Paris Show, nem o Can-can, nem nada. Eles podiam fazer esse show nas águas internacionais”, descreve.

O grupo de Machado andava já pelos 17 anos e levava o itinerário bem preparado, mas esperava-o no final uma surpresa. “Houve alguém que lhe foi pôr nos ouvidos que o grupo dos alunos mais velhos ia ver ‘aquela depravação das meninas nuas a dançarem no barco – uma vergonha, uma vergonha!’. E o padre, matreiro, ficou na porta à espera de nos ver sair e de tomar nota de quem lá tinha estado”, relata a anedota que lhes valeu uma repreensão benevolente do então reitor do Liceu, António Conceição – “que para não deixar ficar mal o padre, lá resolveu dar-nos uma repreensão oral sem registo”.

Além do professor de passeios e com pouca tolerância para espectáculos de bailarinas, Luís Machado guarda a imagem de um homem “muito transmontano, muito directo”, um “ortodoxo” a quem “o “25 de Abril nunca entrou em casa” e que nem sempre angariava simpatia, mas que ao mesmo tempo “foi acarinhado como património”. “Fez muito por Macau, deixou uma obra incomensurável, não digo de criação, mas de pesquisa. Foi extremamente dedicado”, afirma.

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