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“Queria morrer em Macau e ficar sepultado em Macau”

Ana Maria Amaro conheceu Monsenhor ao longo de pelo menos 50 anos. Foram contemporâneos em Macau na década de 1960 e estiveram juntos várias vezes em Chaves. Uma opinião fundamental para um melhor retrato de Manuel Teixeira.

João Paulo Meneses

– Apesar da distância, manteve diversos contactos com Monsenhor depois da vinda para Portugal. Pareceu-lhe um homem muito diferente daquele que conheceu em Macau? Já agora, tanto quanto julgo saber, mesmo após o regresso da professora Ana Maria Amaro a Portugal nunca perderam o contacto. Com que regularidade se escreviam?

Ana Maria Amaro – Mantive contactos com o Monsenhor Manuel Teixeira depois da vinda para Portugal. Mandava-me periodicamente recortes de jornal com notícias que considerava que pudessem interessar e pequenas crónicas que ia escrevendo. Depois da morte do meu marido, Monsenhor Manuel Teixeira fez os possíveis para me ajudar, enviando-me postais, oferecendo-me uma trintena e o seu apoio espiritual. Só depois do seu internamento e alojamento na Pousada de Mong Há pareceu um pouco amargo, por um lado, e feliz quando era visitado por pessoas que o procuravam, principalmente japoneses. É natural que a doença tivesse afectado o seu humor e principalmente quando veio para Portugal, para Chaves, pareceu-me inconformado. Penso que se sentia injustiçado. Sempre me tinha dito que queria morrer em Macau e ficar sepultado em Macau, terra a que dedicara toda a sua vida, não só como missionário, mas também como historiador.

– Vistos agora, como descreveria os quase dois anos e meio que passou em Chaves?

A.M.A. – Tanto quanto pude avaliar das quatro ou cinco vezes que fui a Chaves, e algumas delas por amabilidade sua, penso que foram anos de penitência. Aliás, eu escrevi isso num artigo que foi publicado na Revista de Cultura, transcrevendo as cartas que Monsenhor Manuel Teixeira me enviava quase semanalmente. Monsenhor sentia-se inútil. Queria escrever, não teve apoio. Queria fazer pequenas palestras, não encontrou audiência, nem resposta dentro da instituição onde estava, ou melhor, sentia-se enclausurado. Aquele Monsenhor Manuel Teixeira que em Macau, com a sua batina branca, atravessava a ponte a pé e que se orgulhava disso, estava fechado numa instituição de apoio a idosos, quase todos do meio rural. As freiras eram quase todas espanholas e minimamente interessadas no que era Macau ou no interesse da sua história. Monsenhor Manuel Teixeira estava vivo, mas tinha saudades de viver. Acabei por sugerir-lhe que escrevesse as suas memórias desde criança. Dei-lhe um guião. Monsenhor respondeu-me que só eu conseguiria que o fizesse, e que iria fazê-lo. Pareceu-me que tinha recuperado em parte a sua vida e se sentia por isso algo feliz. Contudo, passadas poucas semanas morreu. Fiquei duplamente triste, perdeu-se o homem e a sua última obra.

– Será possível dizer que em Macau Monsenhor teria vivido mais feliz e durante mais tempo?

A.M.A. – Estou absolutamente convencida de que se o Monsenhor Manuel Teixeira tivesse ficado em Macau teria vivido mais feliz e durante mais tempo.

– Conheceu Monsenhor em Macau. Recorda-se do primeiro contacto?

A.M.A. – Conheci Monsenhor Manuel Teixeira em Macau, embora tivesse sido o Padre Benjamim Videira Pires o primeiro eclesiástico a visitar-nos em nossa casa. A Monsenhor conheci-o no Liceu onde dava aulas de Religião e Moral, e depois trabalhou comigo na Escola do Magistério Primário, quando fui obrigada superiormente a assumir a direcção, por conveniência de serviço. Eu era a única professora que tinha o curso de Ciências Pedagógicas. Monsenhor Manuel Teixeira dava também aulas de Religião e Moral, fazendo parte do currículo.

– Nesses tempos de Macau, que relacionamento tinham?

A.M.A. – Monsenhor era nosso amigo e frequentava a nossa casa. Nos últimos anos, nós morávamos no nº 6 da Praça Lobo de Ávila, no Chunambeiro. Nos seus passeios de regresso ao seminário, Monsenhor passava pela nossa casa, entrava, bebia uma chávena de chá ou umas gotinhas de whisky. Conversávamos sobretudo sobre a história e cultura de Macau, principalmente sobre História, pela qual o meu marido muito se interessava.

– Será das pessoas que mais tempo o conheceu. Ele mudou muito em 50 anos?

A.M.A. – A questão que me põe é de resposta difícil. Os nossos amigos, as pessoas que nos querem bem e a quem nós admiramos, não mudam por envelhecimento nem por comportamento. São para nós aquelas pessoas boas, que nos estimam e a quem nós estimamos. Podemos senti-los tristes, alegres, deprimidos ou um pouco psiquicamente perturbados, mas é muito difícil notar-se. A minha mãe morreu com 96 anos. Lembro-me dela jovem, uma boa pianista, muito bonita, muito bem vestida. É impossível dizer que não mudou, mas a verdade é que para mim não mudou mesmo. Era a mesma mãe, a mesma mulher bonita, a mesma pianista, a mesma mãe-coragem. Era assim que eu a via. Bem sei que a ligação entre mim e a minha mãe era bem mais forte do que entre mim e o Monsenhor Manuel Teixeira, mas também a conhecia melhor e há muito mais tempo. Esta comparação porém só serve para explicar a minha ideia de mudança.

– Alguma vez Monsenhor lhe disse alguma coisa sobre a forma como gostaria de ser lembrado depois da morte? Sentia nele alguma amargura?

A.M.A. – Monsenhor gostava de ser lembrado pelo seu amor a Macau. Ele próprio sentia-se feliz quando se auto-intitulava ‘the last ghost’ do seminário.

– Quase dez anos depois de Monsenhor ter morrido, de que sente mais saudade?

A.M.A. – Da sua alegria de viver. Da ideia de ser amigo de toda a gente, ideia que nos transmitia e nos levava a meditar sobre alguns valores morais.

– Na sua opinião, Portugal foi/está a ser justo com (a memória de) Monsenhor?

A.M.A. – Eu acho que Portugal não conhece muito bem, ou apressa-se a esquecer, as pessoas de valor que não sejam futebolistas, cantores pop, ou outras figuras públicas que aparecem muitas vezes na televisão a tentar fazer rir, mas sem terem graça nenhuma. Até hoje, apenas ouvi o PONTO FINAL falar numa homenagem a Monsenhor Manuel Teixeira, celebrando o seu centenário no dia 15 de Abril. Alertei algumas instituições para o facto e disponibilizei-me para colaborar no que estivesse ao meu alcance, e o que fiz até hoje foi responder às suas questões nesta pequena entrevista. Na minha opinião, Monsenhor Manuel Teixeira merece muito mais, apesar de eu também ser da opinião que vale mais uma homenagem de verdadeiros amigos do que grandes homenagens oficiais.

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