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“Sempre se interessou pela única irmã que tinha”

Benvinda de Jesus Teixeira vive em Braga e continua ligada à congregação das religiosas do Sagrado Coração de Maria. Foi missionária e recorda cada gesto do “padre Manuel” em relação a si.

João Paulo Meneses

A irmã de Monsenhor, freira, com 86 anos mas com saúde, tem pena que o Padre Teixeira não esteja sepultado em Freixo de Espada à Cinta, mas reconhece que a opção por Chaves respeitou aquilo que ele próprio manifestara. Em declarações ao PONTO FINAL, recolhidas através de troca de cartas, a Irmã Benvinda lembra que “a sua vontade, expressa num pequeno artigo dum jornal que eu possuo e onde dizia que queria ficar sepultado onde morresse, realizou-se. Ficou muito longe, o que também a mim me custou, porque nem sequer ficou na nossa terra natal”.

Em Chaves ou no Freixo, a verdade é que mesmo em Portugal foram raros os contactos entre os dois, quer pela distância quer pela avançada idade de ambos. Mas, também por isso, Benvinda de Jesus Teixeira recorda com detalhe esses encontros.

Embora não tivesse nascido quando o pequeno Manuel partiu para Macau, “sempre se interessou pela única irmã que tinha”. “Quando acabei a instrução primária, ele próprio se encarregou de saber qual era o melhor colégio que havia em Portugal para educação de meninas. Indicaram-lhe um colégio de Braga, dirigido pelas irmãs do Sagrado Coração de Maria, onde fiz o curso dos liceus. Quis ser ele a pagar as despesas do colégio. Ainda, hoje, estou imensamente grata, por isso”.

Embora trocassem correspondência regularmente, o primeiro contacto directo aconteceu, tinha Benvinda 21 anos, quando o padre veio a Portugal. “Ficou feliz, quando soube que eu queria ser Irmã da mesma congregação onde estudei e, mais feliz ficou, quando no fim do magistério soube que eu ia partir para Moçambique, como missionária. Depois de vários anos a trabalhar nas missões, regressei a Portugal e proporcionou-se a minha primeira ida a Macau, viagem paga pelo seu grande amigo Stanley Ho”.

A Irmã Benvinda recorda: “estive lá um mês, hospedada no Colégio de Santa Rosa de Lima, onde o meu irmão foi capelão, durante muitos anos. Nessa altura, víamo-nos todos os dias e oferecia-me vários passeios”. Lembra-se também de ir “à China, a um lugar pobre”, que a fez “lembrar das missões de Moçambique”.

Voltou a Macau pela segunda vez, “fazendo parte do grupo de padres transmontanos e pessoas amigas do Algarve que lhe quiseram prestar uma homenagem”. E uma terceira vez: “fui a Macau foi para trazer o meu irmão para Chaves, já bastante debilitado, como devia notar quando o visitou».

O pai duvidou da vocação repentina

Sobre a vontade que o pequeno Manuel manifestou de querer ser padre e estudar fora de Portugal, Benvinda de Jesus Teixeira lembra-se de “ouvir dizer que, depois de fazer a 4ª classe, foi aprender o ofício de sapateiro”. “Um dia, passou, junto da loja, um missionário que lhe perguntou se ele queria ir para Macau, para ser padre. O padre Manuel, como o tratávamos, abandonou o banquinho, onde estava sentado, e correu para casa dizendo ao pai que queria ir para Macau para ser padre. O pai duvidou daquela vocação tão repentina. Passado algum tempo, deixou a família e a pátria e foi viver para terras do Oriente, onde passou a maior parte da sua vida”. Apenas regressou quando sentiu que já não tinha condições para continuar em Macau.

A irmã, que foi a Macau buscá-lo, não tem dúvidas de que “custou-lhe muito deixar Macau, onde queria morrer e ficar sepultado”. Mas reconhece que “o padre Manuel dedicou-se muito a Chaves, para onde mandou as suas reformas, porque imaginava ir para lá, quando a saúde faltasse, e foi o que aconteceu”.

Uma das questões que o PONTO FINAL pôs à Irmã Benvinda prende-se com o facto de em Freixo de Espada à Cinta não ter sido possível encontrar qualquer referência a Monsenhor, nomeadamente à casa onde nasceu e viveu os primeiros anos. Na resposta, disse-nos “não saber dizer a casa” onde o irmão nasceu e indicou que “nenhum dos familiares estão vivos para dar essa notícia” (apurámos posteriormente que existirão uma sobrinha e um primo, que serão os familiares mais próximos).

“Depois da morte do meu irmão, a câmara do Freixo enviou-me uma lembrança, que mandei para Lisboa, para juntarem ao espólio que lá se encontra”, diz. A este respeito, o PONTO FINAL, além de uma deslocação absolutamente infrutífera a Freixo, contactou diversas vezes a autarquia, mas sem resultado. Não há, em resumo, qualquer referência a Manuel Teixeira no concelho onde nasceu há 100 anos.

Ainda hoje, do irmão, Benvinda de Jesus Teixeira guarda algumas cartas – “aquelas que têm para mim maior importância”. Só essas.

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