Uncategorized

“Tem notícias de Macau?”

Nos poucos mais de dois anos que viveu em Chaves, Monsenhor teve uma visita quase diária: Fernando Vinhais Guedes tornou-se seu confidente e cicerone.

João Paulo Meneses

Vinhais Guedes conheceu Monsenhor em Macau, onde trabalhou entre 1981 e 1988, sobretudo na área do desporto – foi por exemplo responsável pela repartição de juventude e desportos do território.  Quando regressou a Chaves estaria longe de imaginar que se iria tornar na visita mais frequente de Monsenhor Teixeira, quando este foi viver para o Lar da Casa de Santa Marta, no centro da cidade.

Não há,  por isso, ninguém melhor habilitado para partilhar os últimos anos de Monsenhor em Portugal do que Fernando Vinhais Guedes, que continua ligado a Macau, apesar da distância.

– Talvez tenha sido a pessoa que mais contactou com Monsenhor depois da vinda para Portugal. Segundo julgo saber quase, diariamente o visitava. O que faziam e de que falavam?

Fernando Vinhais Guedes – Todos os dias dávamos uma volta a pé ao lar, como exercício, uma vez que o Monsenhor tinha sofrido um AVC, que o fragilizou do ponto de vista neuromotor do lado esquerdo. Como era habitual, as conversas eram invariavelmente sobre a sua vida no lar e as regras a que estava sujeito. Para ele, quem não soubesse falar de Macau, era um ignorante! Claro que não havia dia em que, entre nós, não se falasse de Macau e dos amigos, alguns comuns. Tem notícias de Macau, perguntava? Algumas vezes lá apanhava uma ou outra nos jornais e quando isso acontecia levava um exemplar.

– Confirma que Monsenhor estava amargurado por ter de regressar?

F.V.G. – Se por um lado o padre Teixeira transmitia uma nostalgia relativamente aos tempos da Administração portuguesa – principalmente em relação aos tempos do Governador Rocha Vieira e principalmente da  “santa Dª Leonor”, esposa do Governador –, por outro era também claro que, com a Administração chinesa, e já sem os carinhos e as mordomias do passado, manifestava de forma muito clara que deixara de se sentir bem em Macau.

– Como descreveria os quase dois anos e meio que passou em Chaves?

F.V.G. – O tempo que passou em Chaves, no lar para o qual contribuiu com 77 mil contos, foi numa primeira fase muito difícil. Foi uma fase de adaptação a tudo. Horários, higiene, refeições, horas de repouso, visitas etc., etc. Porém ele foi sempre um hóspede muito especial. A pouco e pouco o homem rijo e, muitas vezes áspero, foi-se adaptando e tornou-se mais conversador, mesmo com aqueles que ele considerava incultos. Da minha parte, sempre que podia, levava-o a dar uma volta de automóvel por aldeias e vilas do concelho. Ele gostava muito de ver os pinheiros e as fragas de granito e dizia-me: fazem-me lembrar Freixo.

– Até que ponto será possível dizer que em Macau  Monsenhor teria vivido mais feliz e mais tempo?

F.V.G. – Não acredito que em Macau teria vivido mais feliz! Algumas vezes falámos dessa matéria e ele respondia-me: “Com os chinas? São mal-educados. Quando estive no hospital, as empregadas nem sequer batiam à porta”. Com o fim da Administração portuguesa, Monsenhor, deixou de ter o tratamento VIP que lhe era dispensado na Pousada de Mong Ha onde vivia à sua maneira. Depois passou a ser tratado com vulgaridade, coisa que ele não aceitava. As alternativas que lhe foram oferecidas eram ficar na Santa Casa de Macau ou em Singapura! Disse-me um dia: então vou para a casa que eu ajudei, fundada por um grande missionário e meu professor, padre Manuel Pita, em Chaves.

– Conheceu Monsenhor em Macau. Recorda-se do primeiro contacto?

F.V.G. – O meu primeiro contacto ocorreu durante um almoço oficial no Hotel Lisboa, no mês de Novembro de 1981.

– Nesses tempos de Macau, que tipo de relacionamento tinham? Era frequente?

F.V.G. – Encontrava-o frequentemente nos seus passeios na Ponte Nobre de Carvalho, mas quando caminhava não gostava muito de falar. Para conversar era no seminário. Se bem me recordo, foi algumas vezes a minha casa saborear presunto de Chaves e folar que os meus pais mandavam.
Esteve presente num almoço de transmontanos na pousada de Coloane.
–  Nunca perderam a ligação?

F.V.G. – Entre 1990 e 1998 os nossos contactos estiveram interrompidos. Em 1998, aquando da minha primeira visita ao território, que coincidiu com a inauguração do Museu de Macau, encontrei-o, já ele tinha uma visão muito fraca. Mesmo assim cheguei-me perto e disse-lhe ao ouvido: “Como vai o Homem de Freixo de Espingarda ao Ombro? Quem é, quem é? Vinhais Guedes”, respondi-lhe. “O homem do desporto, o homem do desporto. Por onde tem andado?” Conversámos durante algum tempo. “Apareça. Apareço sempre”.
– Alguma vez Monsenhor lhe disse alguma coisa sobre a forma como gostaria de ser lembrado depois da morte? Sentia nele alguma amargura?

F.V.G – Falámos e ele dizia que gostava de ser recordado apenas pela sua obra, acrescentando sempre o seguinte: “O Homem é Pó, a Fama é Fumo, o Fim é Cinza. Só os meus livros permanecerão” (inscrições que colocámos na medalha cunhada para a cerimónia de homenagem que lhe foi prestada pelos distritos de Vila Real e de Bragança, ocorrida na cidade de Chaves em 2 de Março  de 2002).

– Quase dez anos depois de Monsenhor ter morrido, de que sente mais saudade?

F.V.G. – Das conversas que duravam horas. Das histórias vividas por um homem com uma memória fantástica.

– Na sua opinião, Portugal foi justo com Monsenhor?

F.V.G. – Sinceramente, não acompanhei a exposição feita em Lisboa com o título “O Homem a Obra”, que lhe foi dedicada. Contudo, quanto possa ser feito por alguém com a obra de Monsenhor Manuel Teixeira é sempre pouco.
A propósito, os transmontanos conseguiram reunir 32 Câmaras Municipais, 12 escolas de Chaves, bispos de Vila Real e de Bragança, governadores civis dos mesmos concelhos, Casa de Macau em Lisboa, que trouxeram dezenas de obras do homenageado. Estiveram ainda presentes dois antigos governadores, e respectivas esposas, almirante Almeida e Costa e professor Pinto Machado.

 

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s