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Um lugar subterrâneo

Primeiro Steve McQueen fez-nos passar “Fome”, agora faz-nos passar “Vergonha”. Assim, em apenas dois filmes, o artista plástico convertido cineasta conseguiu mais que outros (tantos) que andam décadas nisto.

“Fome” era um filme violento, sobre o IRA e o mártir Bobby Sands, um filme físico que ficou na memória de muitos pelo desempenho de Michael Fassbender e pela famosa cena de longos minutos em que uma fita quase órfã de palavras se transforma numa verborreia de coisas ditas entre um condenado e um padre. “Vergonha” também é um filme violento, de uma violência igualmente interior mas muito mais subterrânea. É a violência do individualismo e dos dias a seguir aos outros, a violência do superficial. E também tem um ou dois momentos em que os diálogos – aqui diferentes de “Fome”, ocos, de ocasião, tão conhecidos de todos – tomam toda a atenção e nos expõem. São eles, mais que todos os corpos que vamos vendo, que verdadeiramente nos despem.

O metro é um dos lugares por excelência de “Vergonha”. E o metro fica bem enquanto habitat a este viciado em sexo que é a personagem de Michael Fassbender – também ele transita de “Fome” para “Vergonha” como protagonista. Personagem quase niilista, despegado de tradições e avesso a relacionamentos, ele é um homem cerrado numa bolha que é a sua própria rotina.

Da rotina de Brandon em Nova Iorque – emprego sensaborão mas bem pago, pouco destaque profissional e um chefe dos que não interessam, dinheiro que chega e sobra, uma casa glamourosa nas vistas mas um tanto asséptica – faz sempre parte uma grande dose de sexo. O sexo pode chegar todos os dias via telefone, via Internet, via prostitutas, via engates no metro ou na rua ou em bares, via colegas de trabalho ou, no limite, via qualquer coisa minimamente jeitosa que mexa.

Os cenários metálicos de Nova Iorque são a moldura ideal para a vida balizada de Brandon. Ele trabalha o dia inteiro para no final do dia – ou às vezes a meio do dia – poder satisfazer a libido e amarrotar os lençóis. Nada mais parece interessá-lo. A família não interessa, a comida não interessa, as pessoas não interessam. Brandon usa-as apenas, só que ao mesmo tempo percebemos que não vive de bem com isso.

“Vergonha” – e é tão bom e tão ambíguo não sabermos nunca a que vergonha se refere McQueen, porque podem ser tantas – é um filme doente e tremendamente triste. Vemos uma mulher nua a gemer encostada a uma janela de um arranha-céus de Manhattan e é um filme triste. Estamos num restaurante de luxo e é um filme triste. Invejamos Fassbender na cama com duas mulheres belíssimas e é um filme triste. A banda sonora é a mais triste de todas.

O desespero da personagem principal cresce com o passar dos dias e a chegada da irmã àquela que era a sua zona de conforto. Brandon perde o controlo, Steve McQueen não. Ficam-nos uma mão cheia de cenas inesquecíveis enquanto vamos temendo uma espécie de redenção do homem depois da descida às catacumbas do prazer comprado. O cineasta, sempre inteligente, não vacila, pendura-nos a dúvida nos olhos e despede-se.

“Fome” era um filme de um homem de causas, “Vergonha” é um filme de um homem sem causa alguma. McQueen parece querer dizer-nos, sempre subtil, nunca impondo o que seja, que assim nada faz sentido. Nem o sexo. Nem a vida.

Shame, 2011

Steve McQueen

 

Hélder Beja

 

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One thought on “Um lugar subterrâneo

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