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O Verão acabou

Não podemos acusar “(500) Days of Summer” de ser um filme mentiroso. Dizem-nos logo no início “This is a story of boy meets girl. But you should know up front, this is not a love story”. Nós, teimosos, achamos que é piada, que dali só pode vir um final adocicado. Mas aqui fica o conselho: baixe as expectativas românticas ou o soco, no final, vai doer.

Posto isto, vamos ao que interessa. O que fazer quando nos apaixonamos por alguém que não acredita no amor? Bom, a opção mais imediata, aquela que Tom adopta, é a de sermos tão encantadores, divertidos, interessantes e giros quanto possível. Afinal, toda a gente muda de opinião, certo?

De início a coisa corre bem. Summer é a nova assistente do chefe de Tom, e ele, um aluno de arquitectura que acaba a trabalhar numa empresa de postais, tomba imediatamente de amores por ela. Ambos partilham o gosto pelos Smiths (que nós, do outro lado do ecrã, apreciamos) e um fascínio pelo faz de conta social.

Ela, Zooey Deschanel, enche tremendamente o ecrã, com o seu estilo neo-anos 50, que se completa com uma aura enigmática, uns olhos azuis imensos, um sorriso pleno e fácil e, no entanto, uma descrença total no “felizes para sempre”. “O que acontece quando te apaixonares?”, pergunta Tom numa das primeiras vezes em que se senta à mesa com Summer, acompanhados de muitas cervejas. “Não acreditas mesmo nisso, pois não”, atira-lhe ela. “É o amor, não é o Pai Natal”.

O calendário move-se para trás e para a frente neste 500 dias de paixão exacerbada e desgosto profundo. Vemos Tom cair do mais alto dos píncaros para as profundezas do desespero. Ela tinha-o avisado que não era dessas que acredita em histórias de amor, mas ele não quis ouvir. Ali estava a paga.

“(500) Days of Summer” é um filme divertido, comovente, muito, muito romântico. Até ao momento em que deixa de ser. E nós, que estávamos prevenidos mas não ligámos, não sabemos como lidar bem com tal desilusão.

Esta não é a história de uma rapariga incapaz de compromisso, incapaz de dar na mesma medida que recebe, enfim, incapaz de amar. O problema é esse. É que adorávamos pôr a culpa do desgosto de Tom em Summer, esse irresistível ser ausente de sentimentos, mas a verdade é muito mais cruel que isso.

Mais tarde, depois da separação, os dois voltam a encontrar-se num banco de jardim. Ela casou. Ele recupera, pouco a pouco, a dignidade. Pergunta-lhe o que se passou para uma pessoa tão descrente casar assim, de forma tão repentina. “Acordei um dia e soube” justifica-se ela. “Soubeste o que?”, “Aquilo que nunca tive a certeza contigo”.

Perante a crua honestidade das palavras podemos apenas concluir que isto está tudo mal, não faz sentido, é injusto, é atroz, mas que infelizmente a culpa não é de ninguém.

Por esta altura o público contorce-se de dor, uma dor merecida, ousada e adulta. Até que o filme não resiste e decide oferecer um docinho. Numa entrevista de emprego Tom conhece uma jovem bonita que lhe faz olhinhos. Quando os dois se cumprimentam, ela apresenta-se: Autumn é o seu nome. Depois do Verão vem o Outono. Perceberam? E com este toque paternalista se estraga um belo filme.

 

(500) Days of Summer

Marc Webb, 2009

Inês Santinhos Gonçalves

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