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Sair da toca

Não há fórmulas nem regras nem métodos para certas coisas. Como é que um casal ultrapassa a morte de um filho de quatro anos? Ou como é que um casal sobrevive à morte de um filho dessa idade, uma morte estúpida, acidental, imprevista? E como é que alguém que é filho mas não é pai se atreve a escrever sobre isto?

Num filme que é antes de mais sobre a perda, John Cameron Mitchell não busca respostas definitivas – e esse é um dos maiores méritos de “Rabbit Hole”. A estrutura é clássica e por isso não há que andar às voltas: Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) têm um casamento feliz, vivem numa casa enorme, com jardim e essas mordomias do subúrbio americano, são bonitos, são um casal modelo. Até que o rapazito de quatro anos é abalroado à porta de casa e tudo se desmorona.

Os primeiros minutos de “Rabbit Hole” são até luminosos. Não há vestígios de morte ou de trauma, há antes um dia soalheiro e uma mulher bonita, Nicole Kidman, a cuidar das plantas. A vida continua, mesmo quando a tragédia se instala. Com o avançar dos minutos, Cameron Mitchell leva-nos com tacto para os lugares mais sensíveis do quadro.

A casa. A casa onde viveu um filho que já não está nunca mais há-de ser a mesma. É uma casa de fantasmas, uma casa assombrada por um miúdo que não chegou a adulto porque teve azar. Há pais que se apegam a essa casa, há pais que têm de fugir das paredes onde foram felizes. Depois vêm as memórias, as fotografias que se escondem ou não se escondem, os brinquedos que vão ao lixo ou não vão, o quarto que se desmantela ou se preserva.

A família. A família e os amigos nunca sabem muito bem o que dizer. Tudo parece errado, tudo parece perigosamente prematuro e intrusivo. Há pais que se isolam da família, que se fecham sobre si mesmos, e há outros que precisam de tê-los perto.

O sexo. O sexo afunda-se no trauma e há um sentimento de culpa intimamente relacionado com o prazer. Um quer, o outro rejeita e a harmonia vai-se.

Tudo isto está no argumento de “Rabbit Hole”, adaptado da peça de teatro homónima vencedora dos prémios Tony e assinada por David Lindsay-Abaire. Becca e Howie têm formas díspares de encarar o desaparecimento do filho. Sofrem de modos diferentes e encontram âncoras diferentes. A terapia de grupo, tão comum nos Estados Unidos, é aqui retratada com sarcasmo e até uma certa dose de humor. “Rabbit Hole” tem isso: é um filme com um tema pesado e que nunca fica light, mas ao mesmo tempo consegue ter um registo desprendido, assente sempre na análise que os pais fazem às reacções dos outros.

É assim que o filme abre e assim que fecha: com dois adultos a lerem o modo como os outros se comportam perante a sua desgraça. John Cameron Mitchell, que nas duas longas anteriores criou outros tantos delírios underground com muito sexo à mistura, arrisca aqui uma fita que facilmente poderia ter-se tornado piegas até ao osso. O cineasta, escudado num excelente guião e em actores capazes, resiste à tentação lamechas das habituais histórias dos pais que perderam um filho.

Sabemos que as coisas não estão bem. Nicole Kidman grita-nos que as coisas não estão bem e mesmo quando não grita é como se aqueles olhos azuis gritassem. Mas a vida é mesmo assim – há acontecimentos que só nos deixam a perder, que não dão escolha. E para continuar a viver é preciso aprender a sair de dentro da toca, mesmo depois dos piores invernos.

 

Rabbit Hole,

John Cameron Mitchell, 2011

 

Hélder Beja

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