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Cinco vezes Zambujo

Não é bem fado, nem bossa nova cantada em português sem sotaque brasileiro. Tem um certo toque de jazz, é certo, mas também não o iremos rotular como tal porque seria puro engano. Como caracterizar, então, “Quinto”, o novo álbum de António Zambujo? Bom, talvez seja resultado de tudo aquilo que fomos dizendo, negando.

Editado no início de Abril, o último disco deste alentejano nascido e criado em Beja arranca para satisfazer ouvidos mais saudosistas. “Fado Desconcertado” vai pela certa e embarca na tradição musical portuguesa com guitarrada gingona, letra a lembrar amores desavindos e uma declaração: “É com o fado que namoro”.

O romance, contudo, não é único. Há muito que percebemos que Zambujo olha além-fronteiras e explora outras sonoridades para construir uma identidade própria. Faz uso de um corta e cola engenhoso onde se encontram, depois, instrumentos simples a dar força à obra.

Em “Quinto”, destacamos, por exemplo, um cavaquinho maroto e a sublime guitarra eléctrica que se escuta em “Não Vale Mais Um Dia”. A bateria também lá mora e, pois bem, as rédeas do bicho são, muitas vezes, tomadas pela guitarra portuguesa.

Nesta cavalgada, menção mais do que honrosa a “Milagrário”. Com letra de José Eduardo Agualusa, explora a morna cabo-verdiana. E o trombone. Quase que nos esquecíamos do trombone d’ “A Casa Fechada”. Canção número dois, mas que chega a primeiríssima no conjunto das 14 faixas do álbum, quase todas elas preciosas.

Já as mais antigas, de outros registos como “Outro Sentido” (2007) e “Guia” (2010), assim eram. Daí que seja seguro afirmar que “Quinto” não é mais do que o seguimento de uma sólida carreira que foi sendo construída, poderíamos dizer, quando Zambujo era somente conhecido por António no seu Alentejo.

Década de 1980. O Cante alentejano estava entranhado na cultura musical de um miúdo que, aos oito anos, vai estudar clarinete no Conservatório Regional do Baixo Alentejo. Mais tarde, e de forma autodidacta, chegou a guitarra. Isto numa altura em que já cantarolava uns fados, tendo por referências Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha, Alfredo Marceneiro, João Ferreira Rosa e Max.

Depois, chega a Lisboa. E tudo muda. Primeiro, canta em casas de fado e, mais tarde, ganha um papel no musical “Amália” de Filipe La Feria. Com o espectáculo, andou quatro anos em digressão que o poderiam ter levado ao estrangeiro. Isso não aconteceu – e ainda bem – porque coincidiu com o lançamento do primeiro disco, em 2002, intitulado “O Mesmo Fado”.

A partir daí, conhecemos a sua história. E o miúdo, entretanto feito homem, também passa a ser chamado pelo seu último nome e por outros, como “João Gilberto do fado”.

É certo que as catalogações não são sempre sinónimo de verdade, de justiça até. Mas, neste caso, o que se pode tirar desta comparação é o que há de bom nela. Sim, o Zambujo é homem de voz doce, que amacia a alma. Uma e outra vez e já nos convenceu cinco vezes. Para o ano, pode ser que haja mais.

Quinto, 2012

António Zambujo

 

Pedro Galinha

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