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Pagar para ver

É quando olhamos para alguém como Emily Browning que refazemos a nossa fé na evolução da espécie, que pensamos que isto ainda não acabou, que afinal é possível aprimorar a carcaça humana. Desculpem que comecemos por aqui a falar de “Sleeping Beauty”, mas certas quantidades de beleza deviam mesmo ser proibidas. Uma espécie de ‘se conduzir, não olhe para ela’ ou ‘será multado se tiver níveis superiores a quinhentos mil glóbulos de beleza no sangue’. No limite, apetece dizer que toda a gente deveria pagar para ver Emily Browning, como quem paga para entrar no Prado – e se espreitarem o poster do filme vão perceber que isto é um bocadinho mais que uma comparação meio parva.

Em “Sleeping Beauty”, impressionante filme de estreia da australiana Julia Leigh que é também romancista, há mesmo muito quem pague para ver Lucy (Emily Browning). Claro que não para vê-la enquanto a estudante universitária que é, a viver longe dos pais e com uma mãe problemática que nunca chegamos a conhecer. Não para vê-la com as saias casuais e as botas de cano alto que usa no dia-a-dia. Eles (e elas) pagam para vê-la despida, mas também não despida de um jeito vulgar. Pagam para vê-la como mais ninguém a verá noutras circunstâncias. E pagam até para ela não ver de todo.

Temos então uma aluna que, por dinheiro, atravessa a porta de um castelo de perversão mais sensual que sexual. Há pedaços de “Eyes Wide Shut” (vénia a Kubrick, mesmo incompleto) sem máscaras quando entramos em mansões garbosas onde se passeia gente rica e quase irreal. Gente que por trás de uma fachada de seriedade esconde os desejos mais à moda de Sade que possamos imaginar.

O arranque do filme assenta todo em Lucy e na beleza natural de Lucy, uma beleza descontraída e impreparada. Até que desembarcamos nesse lugar de belas adormecidas que justificam o título e migramos para o ponto de vista dos clientes. São talvez esses os momentos menos conseguidos, porque mais justificativos, da fita. Enquanto estamos com Lucy e com o seu jeito amoral de encarar o que faz – aqueles olhos vidrados quando queima uma nota entre os dedos davam um tratado – estamos em território firme. Nos lugares mais frágeis e cheios de palavras Leigh treme mas consegue aguentar esta fábula de relações humanas.

“Sleeping Beauty”, trazido para o circuito dos festivais e para a competição oficial de Cannes por Jane Campion (a senhora de “The Piano”) foi muito açoitado por alguma crítica anglófona por ser desprovido de emoção ou de carga dramática. Faltou perceber que é exactamente essa passividade de Lucy em tudo o que faz, em todos os diferentes trabalhos que tem e nas tarefas que desempenha mecanicamente, é essa aceitação de si mesma e do seu corpo como qualquer coisa externa que contém a força do filme. Lucy é mais uma espectadora, como nós, à espera do que (lhe) vai acontecer a seguir.

O romanesco é mandado às urtigas na primeira longa de Julia Leigh e a gente agradece. O romanesco e o ruído. “Sleeping Beauty” é um filme de planos longos e contemplativos, um daqueles filmes que para o espectador mais ‘apressado’ estará no limite do aborrecimento. São planos silenciosos que contemplam quase sempre o mesmo corpo: o corpo imaculado e angelical de Lucy. No Prado há o belo, a arte e isso tudo, mas não há mulheres assim.

Sleeping Beauty

Julia Leigh, 2011

 

Hélder Beja

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One thought on “Pagar para ver

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