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Peregrinação

Lá no alto, uma deusa aguarda quem se propõe à peregrinação. São metros e mais metros que é necessário calcorrear até lhe vermos o rosto talhado em pedra fina. Seus olhos são impenetráveis e não nos alcançam na humildade do chão.

Por aí nos detemos porque somos feitos de uma matéria que não se ergue sobre os céus. Esses pertencem às divindades, como a bela deusa, ou aos homens que um dia quiseram ver mais além.

A História diz-nos que existem e eu, por agora, escolho um, o Fernão da escrita rude e tosca. Viajou meio mundo e viveu para os outros lerem. Esteve 13 vezes cativo, foi por 17 vezes vendido. Viu mais do que até agora vi e nunca deixou de se deslumbrar.

As suas aventuras perseguiram-no e maltrataram-no, neste oriental arquipélago dos confins da Ásia onde a arte religiosa é levada ao extremo. Aqui, de uma colina onde a deusa se ergue numa altura maior. Não tão grande, ainda assim, como as coisas que o Fernão viu.

Hoje, ainda nos espantamos com as aventuras do herói que sobreviveu a piratas e perdições. Mas, no fundo, é a isso que continuamos sujeitos, nós homens, mesmo tantos séculos depois. Seremos também lembrados?

A Peregrinação de Fernão é bem mais bela do que a que fazemos, trilho acima em Coloane, até à deusa que repousa alva. Porque o caminho das letras e da utopia supera qualquer que seja a realidade palpável.

Para atingir a divina petrificada, achamos natureza com pétalas, patinhas, ramos e tonalidades várias. Ao mesmo tempo, perdemos a noção do mundo que nos é mais familiar e que agora está escondido por um esplendor em que ganhamos pulmão, nova vida e respiramos o que resta de selvagem neste pedaço de terra.

Ao longe, os sinais primeiros que antevêem a morada da nossa deusa. Aproximamo-nos e somos convidados a entrar pela beleza simpática que sempre atrai. Ficamos uma e outra vez a admirar o que é estranho, qual Fernão, depois de passar as portas de um templo desconhecido. Não parece ser histórico, nem exemplo único deste longínquo Oriente onde me encontro.

Mais adiante, o rosto que procurávamos que é recompensa justa. Ergue-se lá no alto, bem no alto, de uma estrada que quase sempre parece não ter fim.

Pedro Galinha

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