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Um dia como os outros

“Foi aí que me tornei um neurótico, com apenas seis anos de idade. (…) depois do dia em que me disseram que tudo o que pensava poderia ser escutado por deus… Preferi deixar de acreditar nele. Porque se acreditasse, saberia que estava condenado ao inferno” (p.122). Está assim explicada a personalidade peculiar de Pedro Cassavas, narrador, comentador e  personagem do segundo romance do brasileiro João Paulo Cuenca.

Em 161 páginas de total delírio, Cassavas e o amigo Tomás Anselmo vivem aquilo a que chamam “O Dia Mastroianni”, inspirado no actor de cinema italiano Marcello Mastroianni. É um dia que começa às 10h32 e termina à meia-noite, onde as horas são testemunhas das mais embriagadas peripécias, literal e metaforicamente.

Em jeito de nota bibliográfica, o livro abre com a explicação do próprio título, dando conta do que é, afinal, “O Dia Mastroianni”:  um dia “gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística”. Neste dia é habitual “o uso de terno, óculos escuros e, preferencialmente, chapéus”. Aconselha-se ainda “a ingestão de dry martini e/ou gim-tônica, apostas em corridas de cavalos, ligeiras crises metafísicas e a presença em todas e festas para onde não se foi previamente invitado”.

Posto isto, começa a saga. São dois jovens pós-universitários, sem emprego e com desafogadas vidas financeiras, que se dedicam às árduas tarefas de ir a festas sem serem convidados, seduzirem mulheres e comerem bem – sempre que possível o prato mais caro do menu.

Pelo caminho vão-se cruzando com diversas personagens, entre elas a “doce Maria”, “uma ruiva das que dormem em conchinha, com expressivos dedos dos pés, pouco mais alta do que a amiga – muito mais virtuosa do que todos nós” (p.74). A forma angelical como é descrita contrasta com a forma como vai passando entre os braços de Pedro e Tomás, facto que parece não preocupar nenhum dos três.

Há ainda Mxyzptlk – experimente dizer isto alto –, um escritor amargurado, que acredita que o mundo é apenas aquilo que conseguimos ver e nos rodeia. Um conceito ousado. Quando se debruça sobre a vida alheia, banal e comezinha, denota pequenas delícias como esta: “Dos néscios que largam os livros nas primeiras páginas tenho uma inveja profunda (…) provavelmente são sujeitos que vão à piscina aos sábados com as crianças e não têm a vida pontuada por delírios frívolos de grandeza encadernados de dois em dois anos. Gente saudável” (p.56).

Pouco saudáveis são Cassavas e Anselmo, mas vivem felizes com isso. Bom, disso não temos, na verdade, a certeza. Há um tom irónico em todo o livro, uma espécie de escárnio em relação ao mundo que dá várias voltas e se vira ao contrário. Entre cada capítulo há uma voz – que muito uso faz do ‘caps lock’ – que confronta e goza com Cassavas, evidenciando uma coisa curiosa: a vida daqueles dândis tem tanto de atraente como de vazia.

Pedro e Tomás são símbolos de uma geração cujo talento foi desperdiçado pela ausência de compromisso. Eles não têm qualquer ligação à realidade e na sua vida não interferem quaisquer questões que preocupem a sociedade actual. É na descrição divertida desta intelectual futilidade pós-moderna que Cuenca marca pontos. E talvez seja por isso que o jovem escritor já mereceu, até, os elogios do bem-amado Chico Buarque.

O Dia Mastroianni

João Paulo Cuenca, 2007

 

Inês Santinhos Gonçalves

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