Uncategorized

Excesso de álcool

Johnny Depp já fez filmes maus – “The Tourist”, “Once Upon a Time in Mexico” –, mas “The Rum Diary” não é mau. É pior que isso. Posto assim, para quê gastar uma página de jornal com uma fita destas? Ora bem, porque em carreiras de actores como Johnny Depp há que olhar para os objectos menores com a mesma atenção que se olha para “Eduardo Mãos de Tesoura” ou “Sweeney Todd”. Mais não seja que para perceber as motivações.

“The Rum Diary” é o segundo filme que Depp produz, depois de “Hugo”, esse mesmo, de Martin Scorsese. Isto não abona nada em favor do moço muito bem parecido que também já dirigiu, apesar de a gente quase nem se lembrar disso. Foi em 1997, com Marlon Brando e ele mesmo como protagonistas. Chamou-lhe “The Brave”.

Voltando ao presente, Depp envolveu-se neste projecto porque era nada mais que a adaptação do livro semi-biográfico de um amigo, o colunista e activista Hunter S. Thompson. O rapaz suicidou-se antes de a coisa estar acabada. Não deve ter havido aqui relação causa-efeito, mas podia.

Dizer que “The Rum Diary” é um filme sobre jornalismo seria uma tremenda ofensa à inteligência e até, neste caso extremo, aos próprios jornalistas. Estamos em Porto Rico, anos 1960, e Johnny Depp é Kemp, uma espécie de repórter alcoólico que chega para trabalhar num pasquim em língua inglesa plantado num território exótico. Qualquer semelhança com a Macau dos mesmos tempos é, claro, culpa da nossa imaginação.

Porto Rico está cheio de turistas americanos gordos que passam os dias no bowling e nos casinos. Não vêem mais nada porque lá fora é perigoso. Lá fora estão os nativos, retratados como desgraçados pés-de-chinelo enfiados em tascas e emaranhados nas florestas que entretanto outros (os colonizadores) querem destruir para construir empreendimentos turísticos.

O filme começa com um toque de “A Ressaca”, avança para um delírio alcoólico (muito rum, pois) com uma história de amor inverosímil pelo meio e desemboca numa teia de corrupção em que Depp joga um papel duplo, algures entre o herói revolucionário de pacotilha e o ‘bon vivant’ que não se importava de ter uma rica vida nos trópicos.

Pelo meio há duas personagens – os camaradas de bazófia de Depp – que são tão realistas como duas naves espaciais estacionadas no Leal Senado, uma ‘femme fatale’ (Amber Heard) com a consistência dramática das novelas da tarde, lutas de galos, visitas aos slums de Porto Rico, imagens de praias paradisíacas filmadas de helicóptero, carros desportivos conduzidos a alta velocidade e umas quantas peripécias mais.

Claro que “The Rum Diary” tem cenas que nos fazem rir. Mas o humor que atravessa o filme é tão boçal, e o argumento tão inexistente, que tudo se perde numa incapacidade de não assumir um registo claro. “The Rum Diary” podia ser um filme parvo mas razoável, se tivesse assumido que queria ser parvo. Como se meteu por veredas de intervencionismo cívico, com corruptos à espera de serem desmascarados por um herói conservado dentro de uma garrafa, desgraçou-se.

“The Rum Diary” é um corpo em falência a tentar agarrar-se ao corrimão da escada depois de uma noite de copos e maus fígados. O corrimão é o charme de Johnny Depp que, apesar de estar lá, não chega. Depp está para este filme como o Guronsan para a pior das ressacas. Só que há dias seguintes que nem uma caixa de comprimidos pode salvar.

The Rum Diary

Bruce Robinson, 2011

 

Hélder Beja

Advertisements

One thought on “Excesso de álcool

  1. Pingback: Hélder Beja's Portofolio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s