Uncategorized

Sem piedade

A comédia mais dramática da francofonia chama-se “Intouchables” e já foi apelidada pelo jornal Libération de um “tsunami” do cinema francês, apenas comparável ao fenómeno “Amélie”.

Sem grandes ares de filme independente, europeu, de nicho ou coisa que valha, esta produção tem estado na boca da blogosfera e nas páginas dos jornais do mundo inteiro. Melhor ainda, vendeu bilhetes que nem pãezinhos quentes.

Tendo em conta o cenário, gostaríamos de dizer que é um blockbuster insuportável, mas não. “Intouchables” é um drama dos mais dolorosos, mas que consegue o milagre de nos fazer rir com gosto.

Philippe é um aristocrata milionário tetraplégico, viúvo, com um gosto por música clássica e pintura moderna. A sua personalidade refinada não é, no entanto, suficiente para que consiga alimentar-se, sentar-se, tomar banho ou, na verdade, fazer seja o que for que implique mais do que falar e comer.

Posto isto, precisa, então, de um sem fim de empregados, médicos e terapeutas e, em particular, de um ajudante pessoal, que o acompanhe em, literalmente, todos os momentos do dia.

Driss é um jovem dos subúrbios – esses famosos e já tão filmados banlieues franceses – que vai à entrevista apenas em busca de um carimbo para mostrar no Centro de Emprego. A vaga, tinha a certeza, não era para ele. Na sala de espera amontoavam-se candidatos com múltiplos canudos, de variadas especialidades sociológicas, de saúde e terapêuticas, todos de óculos de massa e camisolas de gola alta.

Mas ao que parece, Philippe queria uma mudança e decide mesmo contratar o rapaz do gueto, que fala alto, é desbocado, bruto e desajeitado.

O filme desenrola-se então ao passo da improvável amizade que nasce entre os dois, um cuidadoso, outro descarado. Do mundo do tetraplégico surgem vozes alarmadas – sabe-se lá em que actividades criminosas andou o rufia metido. E quando este argumento se esgota, sobra o da falta de jeito para o trabalho.

Mas Philippe é claro nos motivos que o levam a quere-lo por perto: ele é o único que não o trata com uma insuportável peninha. Driss atira-lhe com bolas de neve e reclama “então, não atiras de volta?”. Inventa mil e um bigodes diferentes no processo de cortar a barba de Philippe. Tem até com ele “conversas de homens”, fascinando com o ponto erógeno que sobra a quem só sente do pescoço para cima.

Apesar da dureza da história, “Intouchables” é um filme extremamente divertido onde a amizade, no sentido mais puro da palavra, ocupa um lugar de honra. Uma amizade crua, companheira e repleta de parvoeiras – como todas deviam ser.

Intouchables, 2011

Olivier Nakache e Eric Toledano

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s