Uncategorized

Uma história simples

Já se sabe que a pior coisa de ser-se velho é não ter saúde. Mais ou menos como a pior coisa de ser-se novo. A saúde, ou a falta dela, é que alaga a gente. Mas ser-se velho em Hong Kong – e ser-se velho com pouco dinheiro e menos saúde numa cidade como Hong Kong – isso sim é provação.

“A Simple Life” é um filme como o título diz, simples, e que nos fala de uma dessas mulheres avançadas na idade que se vêem engaioladas ali ao lado. Com a história de Ah Tao (Deannie Yip), empregada doméstica que trabalha para a mesma família há 60 anos, conhecemos o lado menos mau da moeda. A realizadora Ann Hui não esconde no entanto os lugares mais obscuros da terceira idade numa cidade vertical onde nem tudo é Chanel e Lan Kwai Fong.

Ah Tao é uma daquelas almas silenciosas e discretas que endireita as vidas alheias. Roger (Andy Lau), um dos filhos da família da qual Ah Tao, na verdade, faz parte, é o único a viver com ela desde que a restante tropa se mandou para as Américas. E ela lá está, serviçal, eficiente, a arrumar as gavetas do dia-a-dia de Roger, homem ocupado com a produção de filmes.

É quando Ah Tao se revela frágil, quando pela primeira vez precisa de ser servida em vez de servir, que o núcleo do filme começa. Roger toma a responsabilidade de ajudar Ah Tao e de dignificar os últimos anos da mulher que o criou.

Com um toque idealista mas nada choramingas, Ann Hui assenta a narrativa na relação que as duas personagens constroem. Ah Tao é uma mulher simples, gosta de comida, gosta de sorrir, gosta de passear de mão dada com Roger. Roger é um homem enfiado num meio cheio de estrelas de cinema e fatos janotas, mas bem mais dado à modéstia que encontra em Ah Tao. Juntos visitam a Hong Kong dos subúrbios, dos parques com velhos e crianças, mas também a Hong Kong dos lares de idosos, onde é preciso dinheiro para continuar a viver em cubículos enquanto se espera pela morte.

Há aqui uma reflexão profunda, ainda que quase sempre bem-humorada, sobre o sexo na velhice, as relações de amizade na velhice, o corpo na velhice. A gente ri-se mas aquilo dói, porque a gente sabe que também vai chegar ali, se não morrer antes.

Ann Hui, que venceu o festival Golden Horse em Taiwan e tem visto os seus actores arrecadarem vários prémios, consegue com “A Simple Life” juntar num mesmo filme os temas da velhice e das mulheres que gastam a vida a servir os outros. A vida das empregadas domésticas em Hong Kong e Macau há-de ser uma das especificidades sociais com maior potencial dramático nestas regiões. A cineasta explora-a sem abusar dela e constrói um edifício emotivo e carinhoso sempre sólido.

Há, como dissemos, uma carga positiva nesta história de uma mulher que é apoiada e amada por aqueles a quem deu a vida. Mas também fica claro que Ann Hui não está a dizer-nos que todas as histórias do género são assim. Sabemos que a maior partes das histórias não são assim.

Deannie Yip e Andy Lau formam um par que vai namorando com a câmara. Gostamos de vê-los e de assistir ao jogo de espelhos que é feito sobre a vida dos actores que eles são e sobre as quais falam em “A Simple Life”. As existências de Yip e Lau podem ser boas mas não são certamente simples como as de Ah Tao e Roger. A fama, como os lares de idosos, também tem um preço.

 

Hélder Beja

 

A Simple Life

Ann Hui, 2011

Anúncios

One thought on “Uma história simples

  1. Pingback: Hélder Beja's Portofolio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s