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As máscaras de Pessoa

Na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, decorrem os últimos dias de Fernando pessoa, Plural como o Universo”. Há também novos inéditos sobre os mitos do Sebastianismo e do Quinto Império.

Carlos Picassinos

“Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara”

Álvaro de Campos, Tabacaria

Como um eterno cometa num perene retorno, eis o universo de Pessoa que regressa. Na prolixa disponibilidade do seu baú, nos milhares de manuscritos ainda inertes e adormecidos, Fernando Pessoa não deixa nunca de se afirmar como um absoluto fragmentado, oscilante, em fuga, avesso a uma consoladora captura. Um Pessoa que assim se vai constituindo como o múltiplo desconhecido impossível de sintetizar num eu-postiço. E daí, Bernardo Soares: “conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer – eu sou eu?”. E, no entanto, as veleidades são recorrentes.

Neste tempo que o ano leva, o universo Pessoa já conheceu duas significativas contribuições para a decifração desse enorme abismo estético-filosófico – a publicação pela Ática de escritos encontrados nesse famoso baú sobre o Sebastianismo e o Quinto Império e a exposição itinerante organizada pela Fundação Roberto Marinho, do Brasil, intitulada “Fernando Pessoa, Plural como o Universo” que, depois do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e do Rio de Janeiro, tem agora os seus últimos dias na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. As duas resultam de um esforço de investigação e publicidade da vida-obra do poeta heteronímico.

No caso do livro sobre a mitologia do Quinto Império, a divulgação de escritos inéditos surge dotada de uma superlativa relevância pela impugnação que propõe da visão estabelecida em redor de “Mensagem” como único livro publicado em língua portuguesa dedicado ao mito do destino epifânico de Portugal.

Frente a Camões

Para Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda, investigadores responsáveis por este “Fernando Pessoa, Sebastianismo e Quinto Império”, essa visão “só seria possível na ignorância dos múltiplos escritos, esboços e fragmentos de obras, projectos e planos de publicações elaborados ao longo de mais de vinte anos e que permaneceram inéditos até à morte do poeta em 1935, e uma parte significativa até hoje”. “A leitura destes textos”, prosseguem, “permite compreender o modo como as suas publicações em vida são somente a exposição parcial de um longo percurso de escrita sobre o destino mítico de Portugal, caracterizado com base na figura messiânica de D. Sebastião e na ideia de Quinto Império como resolução definitiva da história nacional”.

Trata-se, no fundo, de um ajuste de contas com esse outro gigante simbólico da cultura portuguesa, Camões. Um ajuste que se faria pela interposta pessoa do rei louco. “Acho que um dos principais interesses de Pessoa pela figura de D. Sebastião tem que ver com uma maneira de fazer frente a Camões: D. Sebastião é uma personagem de ‘Os Lusíadas’, de Camões, todo o poema épico é dedicado a D. Sebastião, mas o D. Sebastião que está por vir depois de ‘Os Lusíadas’ é uma oportunidade para Pessoa se defrontar com aquele que era o seu precursor literário mais importante”, dizia o colombiano à Agência Lusa quando da publicação do livro.

Egrégias disputas à parte, aquela visão dos dois investigadores acerca da formulação de um Quinto Império como resolução definitiva da história nacional encontra, na exposição da Calouste Gulbenkian, um reflexo historicizante quando os organizadores detectam, no universo pessoano, um magnífico besidróglio que dos anos primeiros do século passado nos anuncia a geral anomia axiológica e metafísica dos tempos que correm. A consideração acerca da poesia de Pessoa proclamada como alerta “para a magnitude da crise em que continuamos mergulhados – crise de valores, de referências e sobretudo da nossa própria identidade e lugar no universo” supõe  o historicismo. “À medida que os anos passam e a crise se alastra, em sucessivas metamorfoses, mais clara se torna a impressionante actualidade desta poesia”. Não é leitura episódica, portanto. A poesia também é diagnóstico: “acercar-se da obra de Fernando Pessoa é deparar-se com um dos mais lúcidos e contudentes diagnósticos do tempo actual, que ele soube antever, como raros outros. É como se o destino pessoal de cada um dos seus leitores, dos seus contemporâneos aos de hoje, assim como o destino comum de toda uma civilização já estivessem ali, esquadrinhados nos seus poemas e na sua prosa, sem ilusões, mas com muita imaginação e um notável poder de invenção estético-literária”.

Indisciplinador de almas

Dando de borla o terror metafísico, parece mais sugestivo o propósito de encontrar nos intervalos uma qualquer tentativa de fixação de um eu dominante. Mesmo se múltiplo ou plural.

Há, com certeza, um peregrino impulso para obedecer a uma ordem – primeiro o ortónimo, depois os heterónimos e, nesses, primeiro Caeiro, Reis, Campos, Bernardo Soares e os outros. Mas há também uma vontade de sabotar esta arrumação para nos entregarmos a “uma prodigiosa oficina de experimentações heterogéneas e simultâneas”. “Etapa por etapa, o visitante defrontar-se-á, de uma parte com o relato dos eventos biográficos, no seu íntimo relacionamento com a formação e a criação literária do poeta e, por outro, com uma recolha de textos cuja ironia é mostrar como puderam conviver […] Pessoa, Caeiro e a ‘Mensagem’, Ricardo Reis e o ortónimo, Álvaro de Campos e “A educação do estóico”, o “Livro do Desassossego” e os escritos auto-interpretativos”. Tensões contraditórias que pretendem salientar o dinamismo do processo autoral e a pluralidade a que o título alude recorrendo a esquiços, páginas de revistas como “A Águia”, “Contemporânea” ou “Orpheu”, poemas dactilografados, manuscritos, cartas de heterónimos – entre as quais, uma produzida pelo seu único heterónimo feminino, Maria José –, fotografias, esboços, artigos e exemplares de jornais. Pluralidade, portanto.

Mas não encerrará este desdobramento, estes inúmeros que em nós vivem naquele funcionário, de aspecto probo e burocrata, deslizando no preto e branco silencioso da baixa lisboeta, também um programa de libertação e sabotagem identitárias? Bastaria escutar um dos próprios para encontrar a consoladora inquietação: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?/Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer cousa? Se fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade./ Assim, como sou, tenham paciência!/ Vão todos para o diabo sem mim,/ ou deixem-me ir sozinho para o diabo!/ Para que havemos de ir juntos?”. Bastaria, enfim, Jorge de Sena. Pessoa? “Um genuíno indisciplinador de almas”.

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