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“Existe algo de horror debaixo do conceito de beleza”

José Drummond inaugura amanhã a sua primeira exposição individual em Pequim. “Spellbound” é uma viagem fotográfica por corpos, solidão, beleza e muitas arestas de um artista a olhar para dentro de nós. Para ver até Junho no bairro artístico da capital.

 

Hélder Beja

 

A galeria da Art For All em Pequim, no bairro artístico 798, recebe a partir de amanhã a primeira individual de José Drummond na capital. “Spellbound” é uma parte do resultado de dois anos de trabalho, que o artista local dedicou à série “The Ghost”.

O regresso a solo de Drummond – um homem que nos diz nesta entrevista que faz arte porque precisa, porque diz ser aquilo que faz melhor – dá-se através da fotografia a preto-e-branco. E viaja novamente por corpos femininos, pelo belo, mas também pela relação que o autor encontra entre a beleza e o medo.

“Spellbound” chega com o selo de Pan Kwanyi, crítica de arte e curadora independente taiwanesa que tem currículo na Bienal de Taipei e no Museu de Belas Artes da mesma cidade, no PS1 Contemporary Art Centre de Nova Iorque e na Trienal de Fotografia de Nova Iorque. Está para ver na AFA Pequim até 24 de Junho.

– “Spellbound” aparece dois anos depois da sua última exposição individual, na AFA Macau. Há aqui uma nova série, “The Ghost”. Para começar, como caracterizaria esta nova série?

José Drummond – Esta série resulta de várias preocupações conceptuais com o estado da arte e da imagem que me são queridas. Sempre me interessei bastante pelo lado do processo, que é quanto a mim um dos pontos onde mais me revelo enquanto autor. Aqui nesta série, para além de tentar repensar, de forma antagónica, a percepção que temos hoje sobre o modo fotográfico, persigo conceptualmente o contrário do que nos tem vindo a ser apresentado nos últimos 20 anos na arte contemporânea, que é o facto de que a arte deixou de se preocupar com ela para se preocupar com tudo o resto. Estamos submergidos em enfadonhas e repetitivas descrições, em modo de reportagem ou de comentário, da sociedade em que vive, o que acaba por resultar em profunda especulação artística. Nesta série penso que é mais evidente que apelo a uma oposição a este estado das coisas em busca de uma arte que se preocupe com a arte ela mesma e com os valores que a definiram durante milénios.

– Existem elementos comuns ao seu trabalho. Questões de identidade, de beleza, de diferentes camadas que cada um de nós tem, mais ou menos expostas. O que é que o atrai, de um ponto de vista até conceptual, para estes temas?

J.D. – Se por um lado a identidade e a multiplicidade do ser é um dos elementos que me têm caracterizado, pela via das máscaras, dos alter-egos, duplos e dopplegangers, existe também um lado mais profundo na procura do mistério e da oposição entre visibilidade e invisibilidade, permanência e impermanência. Acho que esta empatia em mim resulta da fusão da minha paixão por práticas ligadas ao Zen com questões pós-modernistas. Se os meus projectos acabam por resultar em metáforas sobre a oposição entre sonho e realidade, ilusão e decepção, existe uma grande tendência não só em analisar estes significados pela via da desconstrução mas também pela via da dispersão desses mesmos significados. Do ponto de vista conceptual convoco a total imersão do observador numa tentativa de o libertar do espaço e do momento em que está, para que, por um instante que seja, se esqueça que existe e que experiencie o objecto artístico. No fundo interessa-me que os trabalhos possam falar por si, sem ser necessário terem a reboque explicações e descrições que os defendam. Essa necessidade de problematizar a arte pela via da sua explicação não me interessa e o lado do artista sociológico também não, que é o que mais vemos hoje em dia. Essa paranóia colectiva do artista pretensamente político e social são as defesas do capitalismo e têm como consequente reflexo uma arte de fácil consumo e desinteressante.

– A mulher volta a ser central nesta série fotográfica que apresenta. O feminino e, consequentemente, a beleza são das suas maiores fontes de inspiração? Como é que relaciona isso com o medo, outro dos catalisadores da nossa existência que identificas?

J.D. – Sim, sou apaixonado pelas mulheres. Não só pela sua beleza física como pela interior. Têm uma força e uma sagacidade impressionante e considero-as o género mais perfeito. Infelizmente vivemos num mundo dominado por homens onde as mulheres são constantemente submetidas aos devaneios, infantilidades e manifestações de poder do homem. E, sim, também é assumido que nesta série existe uma proposta para reencontrarmos a beleza. Se repararmos este deixou de ser um conceito querido à arte. Passou-se a falar de arte como poderosa ou desafiadora. Isso resulta num constante ruído e em estereótipos vários. A mim interessa-me o silêncio e a intimidade. Ora esta série vai por aí, pela via da intimidade, que não significa solidão, antes pelo contrário. Nestas fotografias existe um desejo em encontrar beleza na percepção da intimidade. Existe algo de horror debaixo do conceito de beleza. Existe uma violência requintada na forma como a vivemos. É-nos apresentada e publicitada de modo imaginário e intangível. Para a alcançarmos temos de nos sujeitar a uma punição que nos reduz a meros fantoches de um ideal. Ao mesmo tempo que a desejamos temos medo de tudo o que lhe possa estar associado. Temos medo da beleza porque ela pode ser aterrorizadora, seja por comparação ou seja por ser impalpável. O medo é o que nos caracteriza e o que nos impede de ir mais além. Temos medo de tudo. Dos fantasmas do passado. Da realização do presente. E do desconhecido no futuro. Temos medo de envelhecer e de nunca conseguirmos alcançar o que pretendemos. Temos medo disto e daquilo. Se o medo pode ser a nossa maior fraqueza, a beleza pode ser a nossa maior realização. É um paradoxo total.

– De um ponto de vista mais técnico, como descreve os trabalhos que vai apresentar em Pequim?

J.D. – Estou muito satisfeito com o lado técnico. Com o tipo de impressão e emolduramento. Utilizei uma técnica de colagem na face e verso com ‘plexiglass’, o que lhes confere uma aura especial quando colocadas na parede, dando a ideia de poderem estar a flutuar, o que reforça o mundo de sonho, suspensão e imersão a que recorrem do ponto de vista plástico e narrativo. Por outro lado existe um jogo de várias dimensões, com duas das impressões a serem resolvidas em grande formato, outras em médio e finalmente um grupo de 18 em pequeníssima dimensão que é apresentado em conjunto, com um lado mais intimista e a obrigar o público a debruçar-se sobre elas.

– E de um prisma mais conceptual, o que é que pretende transmitir, ou apenas sugerir, com esta exposição?

J.D. – Quando penso nas razões por que quero fazer este ou aquele projecto não encontro nenhuma outra mais válida que aquela que mais me interessa. Faço arte porque preciso, porque é o que faço melhor e porque me mantém são. As minhas sessões no estúdio resultam muitas vezes como sessões de terapia onde em silêncio expulso a excessiva ansiedade que vive dentro de mim – e a arte é o melhor terapeuta e a melhor plataforma para soltar os meus pensamentos. Tem tudo muito que ver com o meu lado processual e não propriamente com o acto da realização das peças. Ora, estas sessões são muitas vezes caracterizadas por momentos de leitura e escrita reflexiva sobre o que leio. Foi assim que acabei por decidir o título da série e o modo como a queria trabalhar. A Susan Sontag escreveu que “a fotografia é o inventário da mortalidade” e de alguma forma para mim a fotografia é a afirmação de uma existência passada, como um fantasma, como toda a fotografia o é. A percepção da vida que acabou de passar, do momento que deixou de existir, é convertida num simulacro estático desse mesmo momento. Ao mesmo tempo as manipulações que opero suportam a ideia da possibilidade de ilusão numa vida de desencanto.

– É um apaixonado confesso pelo poder do vídeo enquanto meio artístico. Aqui estamos no território fotográfico. São áreas próximas mas ao mesmo tempo diferentes. Sente que o potencial da fotografia enquanto meio de expressão ainda o satisfaz?

J.D. – Sim, satisfaz-me. De 1989 a 1994 fiz essencialmente desenho, pintura, instalação e objectos, e a partir daí passei de modo muito assumido para a fotografia e vídeo, mas atenção que continuo a trabalhar a instalação. De vez em quando retorno à pintura, o que é como reencontrar uma antiga namorada voltando um pouco atrás, às minhas grandes referências. A Marcel Duchamp, Man Ray, Bruce Nauman, Vito Acconci, James Turrell e Robert Morris juntam-se Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Arthur Rimbaud, Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Ludwig Wittgenstein, Jean Baudrillard, Roland Barthes, Murnau, Jean Paul Godard  e  Buster Keaton. Isto para dizer que frequentemente a minha prática é 50 por cento cerebral e 50 por cento poética, misturando e experimentando ‘medias’ de acordo com o que a minha intuição me indica, de acordo com o projecto que tenho em mente. Tenho uma curiosidade imensa pela qualidade dos ‘medias’ que estou a utilizar e frequentemente uso ideias e práticas associadas a outros ‘media’. No meu caso o ‘media’ não é a mensagem mas tem definitivamente uma palavra a dizer nas investigações plásticas que processo.

– Algumas imagens desta série mostram-nos apenas pedaços de corpos, vultos. O preto-e-branco e o modo como trata a luz têm aqui um papel central?

J.D. – Sim. O preto-e-branco porque apela à nostalgia e à melancolia, que são efeitos narrativos perfeitos aqui servidos com o alto contraste das peças resultantes. E existe uma intenção declarada em trabalhar a luz e sombra, que são a premissa básica daquilo que é capturado pela lente da câmara fotográfica. Pedaços de corpos e vultos porque gosto da ideia de que a fotografia é sempre uma acção encenada, mesmo a documental. Por esta ou aquela razão, o enquadramento ou o tipo de lente por exemplo ajudam a suportar que existe sempre uma operação autoral, uma encenação própria da fotografia, que no meu caso é assumida. Por outro lado vivemos num mundo de ‘smartphones’ e plataformas sociais onde os utilizadores partilham 300 milhões de fotos por dia, e existe uma grande percentagem que é partilhada no momento imediatamente a seguir ao do click. É também relevante reflectir sobre esta avalanche de imagens aleatórias que acaba num aglomerado de experiências visuais com contextos não relacionados entre si. Também por estas razões a série chama-se “The Ghost” e aprofunda o lado do fotógrafo como um voyeur à procura de descobrir o que está encoberto, porque aquilo que vemos está sempre envolto numa neblina qualquer com um valor opressivo.

– Esta é a sua primeira exposição individual em Pequim. Tem um significado especial?

J.D. – Estaria a mentir se dissesse que não. É um desafio especial por ser uma individual, já tinha exposto várias vezes mas sempre a título colectivo, e tem um significado enorme por ser num dos maiores centros de arte contemporânea da actualidade, e por ser uma cidade onde já fiz amigos junto da comunidade artística.

– O facto de a mostra estar inserida no evento “Caochangdi Photospring – Arles in Beijing” dá-lhe mais visibilidade na cidade?

J.D. – Sem dúvida. O Photospring é co-organizado pelo festival de Arles e assume-se como o seu paralelo na China. Tenho visto a exposição anunciada em tudo o que é revista e website e não tenho parado de dar entrevistas. É muito gratificante que o meu trabalho tenha despertado interesse e que tenha sido convidado a participar num evento com esta dimensão.

– A série “The Ghost” é para continuar por mais tempo? Conta extrair dela material para mais alguma exposição?

J.D. – De certeza. A série já vai longa e penso que ainda não acabou. O que mostro nesta exposição não chega a um terço do que assumo como feito e com a qualidade que me exijo. E estou obviamente a descontar as menos boas e os inúmeros falhanços, sempre necessários nestes processos.

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