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“O meu trabalho pode ser visto como uma espécie de arqueologia”

Começou por pintar paredes, mas foi a escavacá-las – sim, leu bem – que captou a atenção global. Alexandre Farto, 24 anos, assina os trabalhos como Vhils, e é um dos nomes fortes da street art mundial. Até meados de Maio, apresenta uma exposição em Xangai.

 

Pedro Galinha

 

Nasceu em Lisboa, cresceu no Seixal e aos dez anos despertou para o graffiti. Três anos depois, começou a pintar a sério, sozinho e com amigos. Diz que os pais, “de um modo geral”, sabiam o que fazia e sempre acompanharam o percurso que foi trilhando. Percurso esse que com o tempo incorporou uma técnica de esculpir paredes, madeira e ferro que lhe dá a oportunidade de trabalhar e expor em diferentes pontos do globo.

Há um mês, o destino de Alexandre Farto aka Vhils foi Xangai. Um primeiro contacto com a China que possibilitou talhar rostos orientais em paredes longínquas de Londres e Lisboa, as duas cidades a que chama casa. O resultado final de duas semanas de trabalho foi o mote para a inauguração da nova galeria Magda Danysz na cidade. Aí, até meados de Maio, os mais curiosos podem encontrar as criações do português que colaborou com a Levi`s na realização da primeira campanha de marketing global da marca.

A notoriedade de Alexandre Farto também já levou a editora alemã Gestalten a lançar uma monografia que se debruça sobre o trabalho que desenvolve e que permite ao artista viver. Sim, aos 24 anos, o rapaz vive das peças que cria, expõe e comercializa através das galerias com que colabora.

 

– É conhecido em todo o mundo por esculpir paredes, mas começou por pintá-las. Actualmente, o que persiste dos anos em que se interessou pelo graffiti?

Alexandre Farto – Muita coisa. Apesar de o trabalho que faço hoje parecer visualmente muito diferente do que fazia quando pintava graffiti, o graffiti deu-me uma base muito forte que ainda hoje sustenta e enquadra aquilo que faço. Desta actividade captei o conceito fundamental de usar actos e métodos destrutivos enquanto força criativa. Com base neste conceito desenvolvi um modo de trabalho que usa a remoção ou destruição. O conceito tem base na ideia de que somos compostos por uma série de influências que nos dão forma através de camadas sociais e históricas, que provêm do meio em que crescemos. De forma muito simbólica, trabalho as matérias através da remoção de algumas dessas camadas, deixando outras expostas, com o objectivo de trazer à superfície algo daquilo que deixámos para trás, coisas que foram esquecidas ou postas de parte e que ainda fazem parte daquilo que somos hoje. De uma forma geral, o meu trabalho pode ser visto como uma espécie de arqueologia que procura entender, de forma muito simbólica, o que se esconde por detrás da superfície das coisas.

– A cidade de Lisboa foi o cenário perfeito para iniciar a sua arte urbana?

A.F. – Crescer em Lisboa foi determinante para a formação da pessoa que sou hoje. A base fundamental do meu trabalho tem uma estreita ligação com aquilo que observei e vivi no meio urbano onde cresci. O conceito de que somos todos formados por camadas que se vão sobrepondo – pessoais, culturais, históricas – veio das minhas observações em como as velhas paredes de Lisboa e arredores eram um repositório de histórias, um testemunho da passagem do tempo (onde murais e pinturas do pós 25 de Abril foram sobrepostos pela publicidade dos cartazes que vieram depois, e a publicidade veio a ser soterrada por baixo do graffiti, por exemplo); a importância da noção do efémero, da transformação permanente que afecta as pessoas e as matérias também veio daí; a expansão do modelo de desenvolvimento urbano que vai ganhando terreno ao campo circundante, o êxodo rural das gerações mais novas. Tudo isso me foi dado a ver através do que testemunhei em Portugal e em Lisboa em concreto na década de 1990. Por fim, há uma noção da poética da decadência que afecta o meu trabalho que é profundamente lisboeta.

– Os primeiros trabalhos foram essencialmente solitários e também ilegais?

A.F. – Por vezes solitário, sim. Mas também muitas vezes em companhia de outros amigos que também pintavam graffiti. O meio é pequeno e há tendência a criar ligações com outros com que se partilham interesses. E isto em vários contextos, dos claramente ilegais – sobretudo comboios – a outros espaços abandonados em que a questão da ilegalidade já não se colocava. Muitas vezes em locais perfeitamente legítimos também.

– Nesses primeiros anos, foram muitas as fugas à polícia?

A.F. – Algumas, mas nada de muito grave.

– Chegada a maioridade, viaja até Londres para estudar. Aí, tudo muda?

Em certa medida sim. No entanto, antes de partir para Londres já tinha trabalhado em muitas áreas – do design gráfico à ilustração e motion graphics –, e já tinha organizado e exposto em várias exposições e eventos desta natureza. Quando saí de Lisboa, em 2007, já trabalhava com a Vera Cortês Agência de Arte, por exemplo, que ainda hoje agencia o meu trabalho em Portugal. Londres abriu muitas portas e trouxe muitas oportunidades, mas já tinha uma certa base antes de partir. Gosto também de sublinhar o facto de, apesar de ter mudado para Londres, não ter deixado de trabalhar e desenvolver projectos em Portugal.

– Em Portugal seria impossível encontrar uma escola com as características daquela para onde foi?

A.F. – Não necessariamente. Não duvido que em Portugal possa haver boas escolas e bons professores. Não fui para Londres devido à falta de qualidade do ensino em Portugal. Fui para Londres devido ao que vejo como o deficiente sistema de acesso ao ensino superior em Portugal, que é algo muito diferente. Aí a diferença foi abismal. Enquanto que em Portugal fui apenas avaliado pelas médias e notas que tinha tido no secundário, e logo não fui aceite, em Londres fui avaliado pelo meu portfólio, ou seja, pelo que tinha produzido e criado, pelo meu trabalho. O que para mim, para um curso de belas artes faz muito sentido, não pode ser uma coisa técnica e científica, quantificável.

– A partir daqui, vai-se tornando cada vez mais conhecido. E, no final deste mês, chega a Xangai. É o local mais longínquo onde já esteve com o seu trabalho?

A.F. – Há distâncias e distâncias… Há as reais e geográficas, e há as culturais. Em termos geográficos já estive na Argentina, o que para Portugal deverá ser sensivelmente tão longínquo quanto a China, mas em termos culturais será mais próximo. No entanto, já tinha estado no Japão, que é tão distante quer em termos geográficos como culturais de Portugal quanto a China. Hoje em dia, entre telecomunicações, Internet e voos intercontinentais a toda a hora, as distâncias relativizaram-se de uma certa forma. O que não reduz em nada o interesse que tenho em viajar e conhecer outras realidades, por mais longínquas ou próximas que sejam.

– Encontrou arte urbana na China?

A.F. – Sim, começa a surgir um pouco nos grandes centros urbanos, sobretudo aqueles com maior abertura a fenómenos globais desta natureza. Hong Kong, pelas suas características, tem uma história mais longa com a arte urbana, Macau também tem tido algumas intervenções, mas certamente que Xangai e Pequim têm recebido muita influência e mesmo a visita de artistas estrangeiros que têm contribuído para o desenvolvimento de uma cena local.

– Os registos fotográficos da exposição não mentem: esculpiu rostos chineses. Os seus modelos são escolhidos por acaso ou tem de sentir uma ligação com as pessoas que retrata?

A.F. – Depende em certa medida da localização e do projecto. Comecei por retratar pessoas que nem eu próprio conhecia, que eram fotografadas na rua ou que eram tiradas de jornais ou revistas. Mas tenho também desenvolvido muito trabalho baseado em pessoas que têm uma determinada ligação ao local onde a intervenção é feita. Nunca são pessoas conhecidas. Gosto muito de trabalhar com pessoas comuns, pessoas que expressem a essência do que é ser humano. A matéria que trabalho é o próprio espaço público e as pessoas que o habitam fazem parte, são também elas próprias matéria do meio urbano. Para mim são o mais importante, aquilo que define e caracteriza uma cidade. A vontade de retratar pessoas em paredes velhas e obsoletas, sobre a matéria morta, pode ser vista como uma espécie de declaração de amor e ódio ao mesmo tempo, ao espaço urbano e àquilo que representa. Reflecte, portanto, o positivo e o negativo destes gigantes espaços artificiais onde vivemos maioritariamente nos dias que correm.

– Porquê esta opção? É, no fundo, uma forma de distinguir-se dos demais.

A.F. – O desenvolvimento dessa linguagem deu-se através de vários factores. Sempre gostei de experimentar materiais, técnicas e processos de trabalho, e sempre gostei muito de observar as marcas visuais e gráficas deixadas no meio urbano. Da junção destas duas tendências deu-se o caso de ter reparado na profusão de cartazes publicitários colados uns em cima dos outros, uma prática muito corrente em Portugal, e ocorreu-me um dia começar a usar estas amálgamas como base de trabalho, literalmente escavando-os de forma a criar imagens em relevo. Este processo foi uma extensão da técnica do stencil que comecei a usar quando deixei de pintar tanto graffiti e me interessei em recorrer a uma linguagem visual que fosse mais abrangente, que permitisse comunicar com um público maior. Mas ao fazê-lo continuei a fazer uso da noção de criar através de processos destrutivos, que encontrei no graffiti. Com base nisso, comecei essa série de peças escavadas em cartazes. Depois, passei a aplicar este método na rua, em paredes velhas que ofereciam boas características para efectuar o mesmo processo, numa escala muito maior. Também o aplico em outros suportes, da madeira ao ferro.

– Tem um método de trabalho fixo?

A.F. – Sim, todos os trabalhos que faço seguem um método. A fase mais intensa de pesquisa e experimentação – que acaba por ser aquela que mais me fascina – é um processo que ocorre mais no estúdio ou em locais com pouca exposição. O trabalho de escavar paredes segue sempre um esboço com a forma crude que pinto primeiro.

– O seu trabalho é também mais uma razão para considerarmos uma

simples parede uma obra de arte.

A.F. – Também. De uma certa forma, tem por objectivo restituir uma dimensão humana ao espaço urbano, mas ao mesmo tempo está a vandalizar o suporte em que a imagem é gravada. Gosto dessa ambiguidade.

– Arte na rua. Este é um novo paradigma?

A.F. – É novo na sua dimensão mais recente porque, ao longo da história, o espaço público sempre foi usado como palco de comunicação e, em certos casos, como meio de expressão artística. O que distingue a prática dos dias de hoje é o facto de estar a ser usada numa escala e dimensão muito maior, com uma presença muito mais massificada, e o facto de ser produzida por indivíduos que actuam de forma não sancionada, ou seja, sem permissão para intervir no meio urbano. Outra característica é o seu carácter livre e muitas vezes espontâneo, além do facto de ter emergido por parte de indivíduos que pouca ou nenhuma formação artística tinham.

– Mas, hoje em dia, esta arte urbana também já marca presença em galerias de arte e museus.

A.F. – Sim, embora sejam contextos diferentes que exigem abordagens e métodos diferentes. Creio que é importante fazer a distinção entres esses três contextos: uma coisa são as intervenções no espaço urbano, sejam graffiti ou street art ou o que forem; outra coisa são trabalhos expostos numa galeria por parte de autores que intervêm maioritariamente na rua ou que aí iniciaram o seu trabalho, que serão válidos pelo trabalho do autor em si, mas que já não são street art, são exposições num contexto expositivo interior; outra ainda são os museus que promovem um trabalho de registo historiográfico que pode fazer o balanço da importância e da contribuição de certos autores ou movimentos que marcaram de alguma forma a produção artística ou visual. Em meu entender, todos são dignos de consideração e não se invalidam, podem ser complementares. A transposição para a galeria não é um fenómeno novo – em meados da década de 1970 alguns dos pioneiros do graffiti nascido em Nova Iorque foram convidados para apresentar trabalho numa galeria e daí cresceu essa ligação entre artistas que criavam no espaço urbano de forma ilegal e as suas intervenções em espaços mais convencionais. Ou seja, há pelo menos 40 anos que tem havido ligações entre os dois contextos. Na última década, assistiu-se a uma explosão porque a street art realmente se desenvolveu como uma linguagem visual ubíqua e contemporânea, e porque se criou um público e um mercado para a consumir. A sua presença generalizada e importância enquanto forma de expressão gera esse interesse.

 

“O trabalho só está terminado com a interpretação de cada um”

 

– Em Inglaterra, onde vive, há um nome incontornável da arte urbana: Banksy. É uma influência para a sua geração?

A.F. – Sim, certamente. É uma pessoa que soube juntar a sua capacidade de intervir no espaço urbano com um discurso inteligente a uma linguagem visual simples e muito acessível ao público em geral. Soube igualmente promover o seu trabalho e criar grande impacto na altura certa para o emergente fenómeno da arte urbana. Em termos pessoais, a sua postura e capacidade de intervenção mostraram-me caminhos e possibilidades a explorar, embora não reivindique nenhuma relação de influência por parte da sua linguagem visual.

– Tal como Banksy, o Alexandre inaugurou um novo capítulo da arte urbana com os seus rostos esculpidos. Recorda-se do primeiro trabalho com estas características?

A.F. – Sim, a primeira intervenção desta série que chamei “Scratching the Surface” foi apresentada em Lisboa no final de 2007 numa exposição do colectivo Visual Street Performance ao qual pertenci. Depois apresentei-a em Londres em 2008 no Cans Festival, precisamente organizado pelo Banksy, que teve uma projecção e impacto muito maior em termos mundiais. Muitos pensam que essa terá sido a primeira intervenção da série, mas não, foi em Lisboa.

– Um dos seus trabalhos mais reconhecidos é o rosto de Angela Merkel com um “Olho da Providência”. Aquele mural resultou de um convite ou foi uma ideia sua?

A.F. – O mural resultou de um convite para fazer uma peça num restaurante novo em Berlim e surgiu a ideia de usar a figura da chanceler alemã como tema, devido ao momento de crise e frustração vivido na Europa.

– É um trabalho carregado de sentido. Tem essa preocupação?

A.F. – Sim, mas ao mesmo tempo gosto da ambiguidade e da possibilidade de diferentes interpretações. Acho que o trabalho só está terminado com a interpretação de cada um e isso deixa muito em aberto. Em termos gerais, creio que o meu trabalho como um todo tem base em ideias muito claras e carregadas de sentido, por vezes complexas até, que não são imediatamente legíveis, mas as peças em si são abertas a interpretação.

– Neste momento, tem novos projectos em mãos?

A.F. – Bastantes. Além da exposição individual em Xangai, tenho marcadas outras individuais em Lisboa, Paris e Londres, mas continuo a produzir em muitas outras frentes. Com o tempo serão reveladas.

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