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Revolução industrial

É comum dizer-se que as grandes invenções surgiram por acidente: o micro-ondas, as batatas fritas, a plasticina, os post-its. E o vibrador, pois. Muitos não saberão que no século XIX, este aparelho eléctrico foi concebido para propósitos medicinais; uma revolução na terapia dessa doença feminina generalizada que era a histeria.

É esta a história de “Hysteria”, um filme bem-humorado e curioso, acerca deste desvio de funções do que era inicialmente um espanador eléctrico. Mas já lá vamos. Mortimer Granville é um jovem médico a par das novas descobertas que tem dificuldade em manter empregos – a sua crença em bactérias é vista pelos profissionais da velha-guarda quase como uma fé pagã. Já perto do ponto do desespero, é confrontado com uma oportunidade profissional inesperada: assistir um decano da medicina feminina que, como o próprio admite, “não tem mãos a medir para tanto trabalho”

Na sala de espera um mar de mulheres da classe alta, todas com um pretenso ar sofrido – bando de fingidas! – sussurram aos ouvidos umas das outras. O que se passa dentro da sala de consultas podia ter bolinha vermelha, mas como se trata de medicina avançada, a coisa muda de figura. O Dr. Robert Dalrymple, já de idade avançada, explica o método ao jovem Mortimer: após espalhar nas mãos determinados óleos delicados, aplica-se uma pressão “firme e constante” nas “partes mais sensíveis das senhoras”. Para quê? Para curar os sintomas da malfadada doença que só atingia, por coincidência, donas de casa abastadas: ansiedade, insónia, irritabilidade, nervosismo, tudo resultante de um sistema reprodutor congestionado ou bloqueado. Era preciso, então, reposicionar o útero deslocado no sítio.

A terapia, como é de imaginar, agradava às pacientes, que regressavam continuamente, gerando fortuna para o velho médico.

Mas a idade não perdoa e eram necessárias mãos mais jovens e vigorosas. No entanto, rapidamente Mortimer começa a sentir fortes dores musculares na mão, impedindo-o de levar a cabo os tratamentos. É quando volta para casa, despedido e derrotado, que se depara com o espanador eléctrico que o amigo andava a engendrar.

Mais coisa menos coisa, os dois transformam a peça num aparelho que substitui a mão humana de forma mais rápida e eficaz. Nascia assim – no ecrã e na realidade – o vibrador (“manipulador” na altura), ainda antes do aspirador e do ferro de engomar. Afinal, a história tem as suas formas de definir prioridades.

Não se espere grandes epifanias de “Hysteria”. É um filme divertido, que ganha pontos por se lembrar de trazer ao grande ecrã o momento de tal peculiar invenção. Menos bem conseguida é a história de amor paralela ao mundo das descobertas científicas. Previsível e lamechas, sem pingo de originalidade, acaba por não ocupar especial preponderância no filme.

A histeria deixou de ser considerada doença com o avançar da medicina e da sociedade – uma doença que, convenhamos, primava pela descriminação sexual, colocando um carimbo de neurótica a qualquer mulher que perdesse as estribeiras com frequência. Muita gente padecia de tal enfermidade, como se pode imaginar. Mas os tempos mudam e com eles, bem se sabe, as vontades. Bem-dita revolução industrial.

 

Hysteria, 2011

Tanya Wexler

 

Inês Santinhos Gonçalves

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