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A caixa do tempo

Ligue as legendas, vai precisar. “Primer” não perdoa e começa logo por atirar complexos termos científicos para cima da mesa de jantar de Aaron. Este é um filme que, ao contrário do que é típico em Hollywood, não faz a papinha toda ao espectador – ah, e como este gostaria de ter nem que fosse um bocadinho de papa levada à boca.

Preparados para o impacto, aqui vai a história: dois amigos – que começam por ser quatro – dedicam-se a um projecto que tem como objectivo reduzir o peso dos objectos. No entanto, verificam que um relógio colocado na caixa onde se produz a experiência indica uma passagem do tempo 1300 vezes maior que a real. Sem querer, Abe e Aaron inventam uma máquina do tempo.

Nem por um segundo, porém, a ideia nos parece absurda, pateta ou infantil. “Primer” é um filme que trata a audiência como adultos informados – fá-lo, até, um pouco demais. Fala de física, de engenharia, de ciência no mais puro estado e ainda assim nunca nos parece charlatanice.

Perante esta incrível descoberta, Abe e Aaron constroem duas enormes caixas numa garagem, com tamanho suficiente para lá dentro caberem pessoas. A ideia, que de princípio parece louca, torna-se real e os dois passam horas a fio dentro das caixas cobertas de cabos que emitem um perturbador som eléctrico.

Aqui começam as confusões. Primeiro, o objectivo era simples: com os prévios resultados da bolsa de valores, podiam rapidamente fazer fortuna. Mas o génio humano não é simples e a estes dois move-os mais do que a ganância; a busca pelo conhecimento e a sede pelo poder de alterar o rumo da história acabam por empurrar os cientistas para uma complexa rede de acontecimentos imprevisíveis.

Em “Primer” os protagonistas são tudo menos o estereótipo do cientista socialmente inapto. A ciência aqui é sexy; complicada sim, mas por isso ainda mais atraente – eles não são só corajosos e bem-parecidos, são também ousadamente inteligentes e um tanto matreiros.

Por fim, a paranóia e o atroz dilema moral. O Homem, há séculos que nos dizem, não é Deus, e quando o tenta, tropeça. Mas o que é a ciência se não um desafio à doutrina divina? Com ela o mundo pula e avança, mas não sem que vários pioneiros dêem algumas cabeçadas na parede.

Em certos momentos do diálogo, pela sua complexidade, cruzamento de eventos e camadas de sub-histórias que de sobrepõem, “Primer” lembra “All the President’s Men”. Com a diferença que no thriller acerca do Watergate ficamos esclarecidos no final – nem que seja por já sabermos o desfecho – enquanto que em “Primer” é possível experienciarmos uma catadupa de interrogações, que nos empurram directamente para a literatura online disponível. Mike D’Angelo, crítico da Esquire, disse mesmo que “qualquer pessoa que afirme ter compreendido na totalidade o que se passa em ‘Primer’ depois de o ver apenas uma vez, ou é um erudito, ou um mentiroso”.

 

Primer, 2004

Shane Carruth

 

Inês Santinhos Gonçalves

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