Uncategorized

Não passa com comprimidos

 

Só o que é condenável ou tem força inestimável para mudar a vida tal como a conhecemos se pretende resguardado da curiosidade alheia. Houve um tempo, mais dado à mística, em que eram precisas sete chaves para fechar o passado. Falar-se-ia em recato (pudor até) e adornava-se o segredo em baús e carimbos de lacre. Os espíritos da gente de hoje andam mais pragmáticos: tapam com cimento o que querem subtrair das vistas dos outros. Os cuidados nas aparências são o resultado prático do contrato social e na frequentada rua 5 de Outubro aconteceu uma coisa que simplesmente não podia ter acontecido. E a isto chama-se escândalo.

O segredo tem qualquer coisa de burguês e quando se deixa descobrir é por decadência dos seus herdeiros. A história de uma família em Macau conta quase sempre a história de um negócio, ainda que pequeno – é do que vos venho falar. No início do século XX, uma geração de boticários vindos de fora abriu uma farmácia de medicina chinesa na 5 de Outubro, logo ao início, para quem entra pela San Ma Lou. Chamava-se Tai Neng Tong. Tinha preciosos almofarizes e abençoados frascos de ervas medicinais. A fama da cura era tanta ou tão pouca que, conta-se, até os portugueses lá iam – quando não havia um amigo macaense que ajudasse ao acuda-me aqui, nem sempre traduzível num valente ai, recorriam a uns livrinhos (também eles de família) que eram assim uma espécie de dicionário médico chinês/português.

Bonito, não é? Para cumprir o ditado, desfez-se depressa. Estávamos já em 2007 e em duas semanas tudo isto foi transferido para o coração da baixa lisboeta. A família de farmacêuticos, que andava com dificuldades económicas, vendeu o tesouro da Tai Neng Tong ao Museu da Farmácia, para regalo de milhares de visitantes e desconsolo do Museu de Macau. Por cá, a farmácia ainda manteve as portas abertas por uns três anos (já apenas para venda de medicamentos) e hoje agoniza numa lindíssima janela de madeira trabalhada e em ruína, com dragões, peixes e guerreiros do sol que nos lembram que a cura é também mágica, um acto de fé.

Foi o que sobrou. Ainda há uns três anos, vi aqui a tabuleta com caracteres a vermelho vertidos a tinta preta para Farmácia Chinesa Tai Neng Tong. Desapareceu. A tinta amarela descascou, o portão de ferro que dava acesso à loja também, substituído por uma terrível parede caiada, penetrável através de uma medonha porta de alumínio. O cenário é dantesco e serve para esconder o que vai lá dentro. Ratos e lixo aos caídos, a julgar pelo prédio decrépito vizinho. E um segredo, talvez o mais importante de todos.

Neste bairro há memória da velha indústria têxtil de Macau, rastos de fisionomistas e cartomantes, marisco seco, chá fresco e ervanários que seguem a ordem hierárquica das ervas (as monarcas, ministras, assistentes e guias) para dar de beber às maleitas. Há sinais suficientes para mostrar que, dos negócios ao amor, todos temos energia dentro de nós para anular as nossas dores – isto é tão poderoso que são poucos os que querem que se saiba.

 

Sónia Nunes

 

 

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s