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“ O Brasil é a grande obra dos portugueses”

Carlos Picassinos

Não espanta o sorriso de José Carlos Vasconcelos quando diz nesta entrevista que o Brasil é uma das maiores obras dos portugueses. Ele é um dos pioneiros na defesa de um espaço político comum de língua portuguesa e um dos indefectíveis da lusofonia, embora com manifestas reservas à acção da CPLP. Jornalista, compagnon de route de intelectuais e políticos da esquerda portuguesa, a conversa surge a propósito da formidável longevidade de um projecto de jornalismo cultural como é o “Jornal de Letras, Artes e Ideias”, JL, para a família. Mais de trinta anos – 32 em rigor – que fazem desta publicação um caso único na língua portuguesa e um dos maiores defensores da ideia de lusofonia. E de um jornalismo cultural, à esquerda. Inevitavelmente, porque “toda a cultura é de esquerda”.

– Que significa hoje fazer jornalismo cultural?

José Carlos Vasconcelos – Primeiro, eu não sou nada favorável à designação de jornalismo cultural. Acho que há jornalismo e pode-se chamar cultural na medida em que trata mais de um certo tema, mas acho que o jornalismo é um só na sua estrutura essencial e naquilo que deve visar. A parte da cultura sempre foi uma coisa difícil de fazer, em Portugal e não só, e por isso o JL quando apareceu, em 1981, só foi possível no quadro de uma empresa de jornalistas, e de grande êxito, que tinha “O Jornal”, o “Sete” e outras coisas, e quando defendi que fizéssemos o JL, a ideia dos meus camaradas, mesmos os mais ligados à cultura e à literatura, como o Fernando Assis Pacheco, foi muito esta: “bem, vamos lá fazer isto que dura seis meses e acaba”. Ironicamente, acabou tudo em matéria de títulos, embora “O Jornal” tivesse sido substituído pela “Visão”, só o JL se mantém. Evidentemente, as dificuldades são maiores. Também quando o JL apareceu era único e, foi uma das coisas porque eu o fiz, é que não só não havia publicação cultural como os jornais diários não tinham nenhuma atenção à cultura. E nisso, como noutros aspectos, o JL teve um papel absolutamente fundamental. Até no estrangeiro, na divulgação daquilo que se chamou o boom da literatura portuguesa nos anos oitenta, porque o JL começou a ser mandado, como ainda é hoje, para casas editoras estrangeiras, universidades, etc. No essencial, é o mesmo, com mais dificuldades porque hoje já não há publicidade das casas editoras como havia. Hoje, como costumo dizer, o JL resiste. O Jorge Amado, nos dez anos do JL, chegou a escrever o milagre do JL.

– E que sentido tem hoje?

– J.C.V. – É esse mesmo, o de resistência e defesa de valores e objectivos que são os mesmos, no essencial, embora renovados. Acho que no jornalismo, enfim como na vida e em tudo, deve manter fidelidade aos valores mas saber renovar-se, não de acordo com as modas e, por isso é que o JL se conseguiu manter, mas tentando prescrutar e inovar no que é, efectivamente, novo. O sentido é continuar a lutar por isso que é, designadamente, a língua portuguesa, a literatura e a cultura que nela se exprimem e as respectivas artes, e a lusofonia. Desde o início, concebi o JL como alguma coisa que contribuísse e ajudasse a ligar os países e povos ou as pessoas de língua portuguesa. Esses objectivos mantém-se e continuamos a lutar por eles. Por exemplo, foi o JL que organizou a primeira mesa redonda luso-afro-brasileira que precedeu a constituição da CPLP com o apoio da embaixada do Brasil, e do meu querido amigo José Aparecido de Oliveira, o grande idealizador da comunidade, e portanto, com participação de intelectuais, e de gente dos governos. E continuamos a lutar por estes valores e princípios, embora a CPLP não seja aquilo que eu gostaria que fosse, sendo que tem vindo a melhorar com a questão da Guiné. Já o Instituto Internacional de Língua Portuguesa, pior, porque devia um instrumento central da CPLP e, infelizmente, é quase uma ficção.

– O JL assenta ainda numa certa visão de cultura enquanto arte e letras. Em relação a outros suplementos culturais qual é a distinção.

J.C.V. – Bem, esta nota fundamental da ligação à lusofonia. Nós teremos cerca de 80 ou 90 por cento de criadores do nosso universo lusófono cultural, enquanto os outros têm talvez uma proporção inversa. Por outro lado, publicamos textos mais ensaísticos com outra profundidade e tentamos ter uma perspectiva de valorização do criador. Para mim, o importante é que a crítica não deve ser um juíz mas ajudar a iluminar as coisas. O importante é a valorização do criador e da criação e não do juízo sobre ele. Damos muito a voz aos criadores, damos valor aos diários, aos testemunhos e menos só ao juízo valorativo.

– Até que ponto é que um jornalismo feito a partir da cultura pode fazer uma distinção no olhar o mundo, em contraponto ao discurso económico dominante em que tudo ou é mensurável ou é incompreensível?

J.C.V. – Eu gostaria que sim, gostaria que o jornalismo conseguisse isso, mas se calhar é estultícia dizê-lo e pensar que o conseguimos. Mas, talvez, isso seja inerente a toda a cultura. Acho que a grande coisa do jornalismo é exctamente isso que disse. Ajudar, dar-nos instrumentos para iluminar as coisas e as vermos. Dar um olhar sobre as coisas mas tentando estimular um sentido crítico. Por ser no campo das ideias e da cultura, isso é fundamental. Agora é evidente que os nossos meios e recursos são muito limitados. Mas quero dizer que pelo JL passaram quase todos os grandes nomes da cultura portuguesa e mesmo do chamado jornalismo cultural. Não só escritores, também começaram no JL. Por exemplo, a Clara Ferreira Alves, a Inês Pedrosa, o Ricardo Araújo Pereira, o Carlos Vaz Marques, muitos passaram por lá, e de outros país, José Carlos Patraquim, o Nelson Saúte, de Cabo Verde.

– Nestes trinta anos, que mudança na prática do jornalismo, mas da cultura em geral, é que assinalaria?

J.C.V. – Não sou capaz de lhe responder, em consciência, a essa pergunta porque pressupõe um conhecimento e uma análise que não consigo, mas dos domínios em que estou mais perto, na literatura, o Miguel Real acaba de publicar um livro sobre a nova ficção portuguesa… Mas, para mim, ao nível da ficção, os anos oitenta foram muito bons, com grandes escritores em que destacaria o José Cardoso Pires e o José Saramago. Hoje continuamos a ter alguns escritores que têm também grande pujança criativa mas não quero dizer que vão atingir  aqueles máximos porque em todas as gerações não pode haver um Saramago ou um Cardoso Pires. Alguns desse jovens escritores são também nossos colunistas como o Valter Hugo Mãe [a grafia corresponde à utilizada pelo escritor desde o seu mais recente romance] ou José Luis Peixoto e o Gonçalo M. Tavares. Mas as coisas mudam mas não têm que estar sempre a mudar. Não se pode esperar que se esteja sempre, ao nível formal, a inventar coisas novas. Importante é serem figuras com uma força criativa. Na poesia, muitos se mantém. Manuel Alegre acabou de publicar, ele que é secundarizado por certas posições que tem… Há alguns poetas novos bastante interessantes e outros que se intitualm poetas sem qualidades e que eu temo que não seja apenas mera metáfora.

– Quem lê poesia, hoje?

J.C.V. – Bem, não sei, não tenho números, mas em Portugal sempre se leu poesia, e às vezes, muito mais do que em França. Por exemplo, em França, grande poetas como o René Char tinha uns quinhentos exemplares em livro. É claro que a leitura de poesia não se pode ver só pelas tiragens. Há muita gente que lê o mesmo e os poemas passam aqui e ali. Agora é difícil dizer quem é.

– Como é que vê estas lutas pela hegemonia da língua dentro do espaço da lusofonia? Não acha que Porugal sai a perder?

J.C.V. – Não, repare eu tenho uma grande ligação ao Brasil. Acho que é o sítio do mundo onde tenho mais orgulho de ser português. Acho que é a grande obra dos portugueses. É ver o país tal como ele é , um país com aquela dimensão com uma única língua, e acho que o problema, e em relação à língua e ao acordo ortográfico, o problema não se pode pôr assim de maneira nenhuma. Acho natural que se tenha consciência, e não ter essa consciência é uma grande tacanhez, que a língua é o nosso maior património porque não é a língua de Portugal é portuguesa, e é natural que o Brasil se afirme como grande potência. Finalmente, o Brasil deixou de ser o país do futuro para ser o país do presente e não vejo isso em termos de contradição mas de complementariedade. Cada um tem o seu lugar e tem que se reconhecer o grande peso do Brasil e que para o futuro e presença da língua portuguesa no mundo, ele é absolutamente fundamental. De resto, sobre o acordo ortográfico disse-se que houve uma cedência ao Brasil. Não se trata disso. Essa é uma visão totalmente errada. Simplesmente, não se pode estar a fazer alterações na língua, o que não quer dizer que eu esteja de acordo com o acordo, acho é que tinha de haver um acordo qualquer… Se não nos entendemos numa ortografia comum, não nos entendemos em nada. Eu quero que, em Timor. os jovens que agora estão a aprender português, os jovens que numa sala aprendem português de uma maneira na sala ao lado seja um erro. Não faz sentido.

– Falou há pouco do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, é outro dos elefantes brancos da lusofonia.

J.C.V. – O Instituto Internacional de Língua Portuguesa para  fazer alguma coisa era essencial que tivesse o centro operacional no Museu de Língua Portuguesa, em São Paulo, que é extraordinário e que é o museu com mais visitantes no Brasil. Acho que devia estar no Brasil e numa coisa como o museu. Acho que, simbolicamente, pode ficar em Cabo Verde onde está, mas o centro de operações não.

– O que é que espera do novo Instituto Camões?

J.C.V. – Acho que a directora, a Ana Paula Laborinho, é uma pessoa competente e esforçada e fiquei contente que nesta operação de juntar a cooperação com o Camões que podia dar disparate, o ministro a tivesse nomeado a ela para directora geral.

“A cultura, em geral, é de esquerda”

– O JL é visto como um exemplo de cultura de esquerda…

J.C.V. – Não sei, talvez na medida em que a cultura em geral é de esquerda, mas só mais nesse sentido.

– Não há cultura de direita?

J.C.V. – Sim, claro que há, há grandes escritores que até nazis foram. O Celine, por exemplo… mas isto não tem a ver com o JL tem a ver comigo. A mim o que me interessa são as pessoas. Se for um grande escritor e um grande estupor, prefiro desconher a pessoa. Mas quem anda nisto, algumas pessoas seria melhor não as ter conhecido, e já ando isto há cinquenta anos. E outras ainda bem que as conheci porque há pessoas que aparecem e constroem a estátua e o retrato de si mesmas, a aparência, e depois são até melhores que isso. Mas eu estou é muito arredado daquilo que se chama a vida literária. Não frequento muito isso, excepto, talvez, lançamentos de pessoas de quem eu sou muito amigo. Mas refiro-me a certos acontecimentos mais fechados, mais elitistas em que estão uns poucos a falar para os amigos. A propósito de elitismo, nós no JL procuramos ter uma linguagem acessível a toda a gente. É claro que, às vezes, é difícil. Por exemplo, uma das grandes ensaístas, a Maria Alzira Seixo quando começou a colaborar escrevia um discurso muito universitário e, com o tempo, hoje é capaz de escrever coisas bastantes claras, transparentes e com bastante credibilidade. Isso é um esforço que eu faço e que se deve fazer no jornalismo cultural. Ainda mais se for sobre televisão. Acho vergonhoso a televisão portuguesa não ter mais programas culturais ou sobre livros. Mas acho melhor não haver nenhum programa a haver daqueles programas em que estão uns gajos inteligentíssimos a perorar. Acho é que é preciso ajudar a criar o gosto, o contrário, só afasta as pessoas.

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