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Regresso por um novo caminho

A combinação não é nova, mas mantém-se eficaz. Jack White, o tipo saído de um filme de terror e com pouca pinta para vestimentas da moda, decide fazer um disco e toca de botar um toque feminino à coisa, ainda que muito menos visível do que nos White Stripes e Dead Weather. Entretanto, diz que é tempo de deixar as guitarras com testosterona a mais para fazer valer melodias repousadas em cordas e teclados clássicos. Com um toque de country, mas sem esquecer uma das grandes influências, o blues, deixa tudo a marinar até servir “Blunderbuss”, com assinatura somente do próprio. Foi na semana passada.

Para single de avanço, disponibilizado em Janeiro, o homem de Detroit escolheu “Love Interruption”, levantando um pouco do véu daquilo que seria feito o novo trabalho. “I wont let love disrupt, corrupt or interrupt me anymore”, atira White, com Ruby Amanfu a seu lado, no cartão-de-visita do álbum. Precisamente o oposto de “Sixteen Saltines”, o segundo single de “Blunderbuss”, que não é mais do que uma tremenda rasteira para cartão vermelho directo apenas por uma razão: não podemos medir o álbum por esta canção porque é a única canção com um riff de guitarra pujante.

“Freedom at 21”, que se segue no alinhamento, também poderia sugerir algo em linha com aquilo que é mais característico na carreira do músico, mas esqueçam lá isso. O disco a solo de Jack White está noutro patamar e as contidas e q.b. sombrias “Hypocrytical Kiss” e “Weep Themselves to Sleep” são prova disso. Ambas escalam uma pirâmide de tensão, ao ritmo de hábeis pianadas e da voz cativante do grande entertainer do rock dos últimos anos.

Nesta aventura, White ainda teve tempo para revisitar “I’m Shakin’” de Little Willie Johnson, um nome resgatado ao esquecimento que agradecemos e que é antecâmera de “Trash Tongue Talker”, embalada pelas sonoridades do que os Estados Unidos têm de melhor, à semelhança das – infelizmente – menos estimulantes “Hip (Eponymous) Poor Boy” e “I Guess I Should Go to Slee”.

Na derradeira canção de “Blunderbuss” respiramos novamente de alívio com o groove de “Take Me With You When You Go”. Um exercício musical que sintetiza as duas faces que saltam mais à audição do álbum – teclados e cordas – em perfeita sintonia. E, como de costume, com letra em que se fala sem grandes floreados sobre a relação com o sexo feminino. A mais flagrante, e talvez marcante, encontra-se em “Missing Pieces”. Primeiríssima faixa do disco em que White, despedaçado, culpa um outro alguém que lhe levou parte de si quando partiu.

Dramatismo à parte, a escrita do álbum também consegue ser ácida e, a espaços, um tanto ao quanto humorística na forma como descreve estes bichos de sete cabeças a que chamamos relações. Aquilo que nos mata e alegra, que ilude ou consegue ser uma chapada certeira para acordarmos quando assim merecemos. Tal qual a música de Jack White que, nesta primeira prova a solo, queríamos que se saísse ainda melhor na fotografia.

 

Blunderbuss, 2012

Jack White

 

Pedro Galinha

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