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Ela não precisa de botas Doc Martens

Uma mulher descalça a saltar num insuflável colorido e pintado com desenhos infantis. Dificilmente associaríamos esta imagem a Polly Jean Harvey, mas é este o cenário do videoclip de ‘Black Hearted Love’, único single de “A Woman A Man Walked By”, disco de PJ que antecedeu o excelente “Let England Shake”, lançado no ano passado.

Ao nono álbum de estúdio a cantora britânica voltou a colaborar com o compositor e produtor John Parish, relação encetada na década de 1980, quando participaram juntos no projecto Automatic Dlamini. Como em 1996, ano em que lançaram “Dance Hall at Louse Point”, PJ Harvey assina as letras e interpreta, e John Parish compõe a música. Parish já trabalhou, entre outros, com Tracy Champman e Goldfrapp.

Nos concertos de digressão deste disco foi vê-la em palco, sem guitarra, vestida de branco e em pose tranquila. Nada de roupas pretas ou botas Doc Martens. Apenas a poética voz que se lhe conhece e a boca rasgada que, como a de Mick Jagger, é das mais famosas do circuito musical. E foi ouvir aquele microfone a ecoar, a dizer-nos “I think I saw you in the shadows” como se de lá saíssem vária vozes ao mesmo tempo.

Em “A Woman a Man Walked By/The Crow Knows Where All the Little Children Go” PJ vai no registo de contadora de histórias que lhe fica bem, canta como quem fala e imaginamos-lhe as expressões desajeitadas enquanto a canção cresce e a voz e a guitarra vão fincado mais sujas. Na faixa anterior, “April”, estamos no reverso, num exercício de contenção, numa balada sofrida em que PJ vai jogando com os recursos vocais enquanto canta “I don’t know what silence means/ it could mean anything”.

A música que interessa PJ Harvey nasceu em 1969 e, disse em entrevista à revista Rolling Stone, cresceu a ouvir John Lee Hooker, Bob Dylan e Jimi Hendrix. Em menos de 40 anos de vida teve de tudo: Nick Cave como parceiro amoroso; Kurt Cobain a meter, no seu livro “Journal”, o álbum “Dry” (álbum de estreia de PJ, em 1992) entre os seus favoritos; e dois discos na lista dos 500 melhores de sempre da Rolling Stone – “Ride of Me” e “To Bring You My Love”.

Em 2001 venceu o Mercury Prize, prémio da indústria britânica, com “Stories From The City, Stories From The Sea”. O disco conta com a colaboração de Tom Yorke (Radiohead) em três temas, sendo o mais conhecido “This Mess We’re In”.

O cruzamento com outros projectos e músicos marca toda a carreira de PJ Harvey. Recusando sempre o rótulo de ‘riot grrrl’ associado ao punk rock feminista, cantou dois temas no disco “Bubblegum”, de Mark Lanegan, trabalhou com Tricky, Sparklehorse e Nick Cave. Mais homens que mulheres, como lhe fez notar um repórter do Los Angeles Times. A resposta de PJ foi esclarecedora: “Nunca faço o que as pessoas esperam.”

 

“A Woman A Man Walked By”, 2009

PJ Harvey

 

Hélder Beja

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