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Filme proletário

O cinema circula depressa e a gente mais depressa ainda, neste dia-a-dia de reboliço que parece não ter fim, nesta cidade terciarizada onde ninguém parece meter as mãos na massa. E porque, coisas e seres, tentamos alcançar a velocidade da luz, poucas vezes temos tempo para parar, para estar disponíveis, para, vá lá, descobrir um novo lugar, uma nova pessoa, um novo cineasta.

Aki Kaurismaki é um realizador querido de uma certa cinefilia. Mas a minha cinefilia, tão apaixonada quanto cheia de falhas (como as verdadeiras paixões são) ainda não tinha tropeçado nele. No nome claro que sim, não nos filmes.

A Finlândia, terra deste Kaurismaki, é-me uma terra distante em quase tudo – à excepção de quando, ainda estudante a tempo inteiro (esses ricos anos), vivi com dois finlandeses que estudavam Português lá no rectângulo durante uns meses. A Finlândia é Europa, como Portugal é Europa. Só que os nomes pouco contam e Portugal está muito mais próximo das terras do sul e a Finlândia de Kaurismaki é muito mais parecida com a Rússia. Apesar de eu nunca ter estado na Rússia, pois.

“Shadows in Paradise” é o primeiro tomo da chamada trilogia do proletariado, que continua com “Ariel” e “The Match Factory Girl”, os dois que verei de seguida. Nesta primeira fita (e adivinha-se que também nas outras) não há os homens e mulheres altos e loiros que associamos à Finlândia, à Suécia, à Noruega e terras de gelo afins. O que há é gente feia, numa cidade feia, com vidas feias. Kaurismaki desconstrói os nossos estereótipos em meia dúzia de minutos.

Tudo é cinzento neste paraíso que afinal tem sombras. Entre contentores do lixo e prateleiras de supermercado vai nascendo uma possibilidade de romance entre Nikander (Matti Pellonpaa) e Ilona (Kati Outinen). É uma história de amor entre gente que já apanhou muita porrada na vida, entre um homem inadaptado que caminha para solteiro incorrigível e uma mulher que também só se sente bem nas margens do edifício social.

Kaurismaki oferece-nos personagens secas e disfuncionais, sem pingo de emoção, numa Helsinquia sem glamour. “Shadows in Paradise” é um filme de marginais. Não daquela marginalidade associada ao crime, mas da outra que rotula os que caminham por lugares que normalmente não aparecem nos filmes.

Só que “Shadows in Paradise” é também uma comédia negra inteligentíssima, alicerçada num argumento bem escrito através do qual Aki Kaurismaki consegue fazer-nos rir no meio de tanta miséria. Os vencidos da vida sempre foram um lugar de ensaio para o humor, mas poucas vezes de um modo tão elegante, sem subterfúgios ou linhas desnecessárias.

Descobrir um realizador assim é coisa que não há-de acontecer muitas vezes. Aki Kaurismaki, com nome difícil e proveniência insuspeita, é um cineasta a sério. Às vezes um filme chega para podermos encher a boca os olhos. Mesmo que seja com vista para um camião do lixo.

 

Shadows on Paradise

Aki Kurismaki, 1986

 

Hélder Beja

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