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Planeta cruel

Inês Santinhos Gonçalves

Assim que a voz de locutora de programa de rádio nocturno começa, é logo de desconfiar. “Earth”, um filme que compila uma série documental da BBC sobre o planeta Terra, tem aquele tom poético das produções cheias de moral. Nos primeiros dez minutos ouve-se falar de natureza, espírito, harmonia, milagre da vida, por aí fora – as árvores, bem se sabe, desafiam a gravidade. E por mais defensores da natureza que sejamos, custa a ignorar o tom paternalista.

A dialéctica aqui é simples: o homem é mau, o planeta é bom. E estamos a dar cabo disto tudo. Preto e branco e mais nada.

A série atingiu o estrelato e percebe-se bem porquê. Surgiu na onda das preocupações com as alterações climáticas e é, efectivamente, um pedaço de filme extraordinário. Foi filmada durante um ano e captou imagens que vão de um pólo ao outro da Terra. Imagens de cortar a respiração, com formas e cores inigualáveis. São ursos polares, elefantes, glaciares, rios, lagos, serras, desfiladeiros, enfim, o mundo inteiro no seu mais magnífico esplendor. A falha? A tentativa de Alastair Fothergill e Mark Linfield de gerarem um efeito “An Inconvenient Truth” (Al Gore). As imagens valiam por si próprias e dispensava-se a mensagem política.

Na primeira parte somos expostos a idílicas imagens naturais que espelham a perfeição e sabedoria do planeta – “Um animal faz saber da sua fome e a árvore floresce de novo”. Na segunda parte entramos nós, feios, brutos e maus, com as nossas máquinas cruéis e poluidoras, e começa a destruição. Somos muitos, demais, uma praga. A música fica tensa e mais dramática. Crianças esfomeadas surgem no ecrã – estamos a pagar pelo que fizemos, pois claro.

Há em “Earth” este sentimento misto. Toda a gente o deve ver (e se possível todos os episódios) porque é um excelente documento visual, que nos apresenta um planeta que queremos amar ainda mais – sim, porque nós, pessoas que por aqui andam, também gostamos da Terra, por mais difícil que seja de acreditar. Lembra-nos do que falta ver, do que morreremos sem nunca conhecer, de como estamos de facto a viver dentro de um milagre biológico e cultural.

O negativo é mesmo a lengalenga moralista, por vezes infantil e simplista, e não especialmente útil no que toca às tão necessárias soluções para os nossos problemas reais.

Isto, claro, é um raciocínio que fazemos mais tarde, de cabeça limpa. No final do filme, só conseguimos sentir tal desprezo por nós próprios que nos esquecemos de que está na nossa mão, no nosso o voto, na nossa alimentação, nas nossas escolhas de transporte, nas nossas compras, mudar alguma coisa. É preciso, afinal, ter alguma fé na espécie.

Earth, 2007

Alastair Fothergill e Mark Linfield

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