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Jogada estratégica

Inês Santinhos Gonçalves

Macau é tanta coisa. Tradições orientais, ocidentais e misturadas, gastronomia, arquitectura, crenças, património. Cultura. E em todas essas coisas o jogo toca, paira. Talvez por isso – era uma bonita tese – o vencedor da competição Rush 48 do ano passado, integrante do Festival Internacional de Cinema e Vídeo, tenha organizado o seu filme de cinco minutos, feito em apenas dois dias, em torno de um tabuleiro de xadrez.

“Live”, de Maxim Bessmertny, filho do ilustre artista plástico Konstantin Bessmertny, podia ter sido feito noutro ponto qualquer do mundo, mas não foi. Foi aqui. E por isso a simbologia dos elementos ganha nova força. As peças de xadrez, a arma ao lado da mesa, o jogo de sorte e azar que é também de vida e morte, o encontro com o desconhecido.

De frente para a porta, um rapaz encara a cadeira vazia – o jogo, afinal, não se faz sozinho. A chegada do seu novo companheiro de casa, que naquele momento conhece pela primeira vez, não causa espanto, alegria ou particulares expressões faciais. Só lhe interessa uma coisa: “Jogas?”

O jovem de gorro e camisa de alças acede, desconfiado. “Para que serve isto?”, lança de sobrancelha erguida e ar provocador. “Conhecimento. O conhecimento, meu amigo, é vida.”

Eles são a antítese um do outro. Um aprumadinho, voz enigmática, postura desafiante, costas direitas e colarinho branco. O outro, meio pinta de gangster, braços nus, ar de enfado, “eu sei lá” na ponta da língua, cotovelos desleixadamente apoiados na mesa.

O jogo, aqui, vira. “O que achas que é a vida?”, atira o mais sério. “A vida é sobre perda. A vida é problemas, a vida é raiva.” E entre cada adjectivo um fragmento de uma imagem, rápida, mas suficiente para nos revelar que nosso jovem punk não teve um percurso em mar de rosas. A infância com difíceis despedidas, o vício com dolorosas consequências, a violência, o medo e o descontrolo.

E acaba por ser isto. A vida espinhosa de um, é alvo de desejo do outro. “Quero sentir alguma coisa!”, grita. Afinal, mais vale sofrer, temer, falhar do que viver numa bolha de ausência. Eternamente a planear a próxima jogada.

Mas quem tem marcas da dureza do percurso, entende o capricho que é o sentir só por sentir. Mesmo que seja mau. Uma arma sobe para cima da mesa. “Isto é vida suficiente para ti?”

A resposta fica por dar, aqui e talvez no próprio filme – mas isso já é uma questão de interpretação.

Com o Festival Internacional de Cinema e Vídeo a terminar este fim-de-semana, novos talentos locais sobem ao pódio. Em ficção, documentário e animação. Veremos se nalgum deles volta a pairar a presença infame da fortuna.

Live, 2011

Maxim Bessmertny

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