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A-Má e as outras

Tin Hou, Mazu, A-Má. Uma imperatriz de três nomes e com as bainhas da saia permanentemente lambidas pelas ondas. Coroada, roliça, solene, tem nas mãos a benevolência, um ceptro em forma de coração, com que acode a naufrágios de ambos os lados do estreito.

É dela que nos falam as primeiras histórias da fundação, cravadas nas pedras do seu templo, mais suaves que as sombras duras que o sol corta incisivo pelas duas da tarde e sobre os turistas. O fumo e a cinza raspam a garganta, entaramelam a língua, cansam as pernas. A tarde mendiga todas as gotas que lhe ensopam a barra das vestes, quando A-Má chega a terra caminhando pela Barra.

É mãe venerada, protege sem perguntar e sem censuras. Chegou quando tinha de chegar, quando houve as primeiras gentes de tanka, pescadores perdidos e resgatados nos molhes daquela a que há cinco séculos chamaram de a montanha sagrada. Uma colina curta, hoje quase indecifrável, na qual os náufragos ergueram qualquer coisa a que quiseram também chamar um palácio.

Nada era de menos nos primeiros dias: a colina, montanha; o casebre, palácio; uma mulher surgida do mar, imperatriz divina. Foi feita assim a consagração do lugar, na gratidão por uma sobrevida após a quase morte. Homens e mulheres povoaram. A-Má reinava e concedia graças, e um homem curava de cobranças.

Mas foi o primeiro e o último milagre, de que há memória. Cuidou-se de crer numa mulher que caminhava sobre as águas, mas mais nenhuma teve o condão de vir em socorro num outro qualquer tipo de fatalidade. Não se propiciou – e, de resto, todos os náufragos estavam já consignados a A-Má.

As mulheres nasciam, cresciam, viviam e morriam, elas próprias às graças da imperatriz divina. Se pariam e a casa prosperava, davam oferendas, arrecadadas pelo palácio. Recomendavam-lhes que cultivassem virtudes como a caridade, suportassem serenas o peso de novos e velhos, zelassem pela harmonia dos espaços. Sem ira, debates, queixume. Jamais alguma foi como A-Má.

 

Maria Caetano

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