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“O macaense sabe estar em palco”

Sátira, humor e muita lata. Esta é a fórmula de sucesso dos Dóci Papiáçam di Macau, que fazem rir o público de Macau há 19 anos. Tempo suficiente, lembra Miguel Senna Fernandes, para que o grupo reclame mais apoios do Instituto Cultural. Até porque, acrescenta, o teatro em patuá está nomeado para património intangível.

 

Pedro Galinha

 

Quando os ponteiros dos relógios marcarem hoje as 20h, os Dóci Papiáçam di Macau sobem ao palco do Centro Cultural para estrear “Aqui tem Diabo! – Crónicas dos Bons Espíritos”. A peça, retrato mordaz da sociedade actual, terá uma segunda apresentação amanhã, à mesma hora e no mesmo local.

Antes de nos sentarmos à conversa com Miguel Senna Fernandes, co-fundador do grupo de teatro em patuá, questionámos o Instituto Cultural (IC) sobre os planos que existem para promover a língua maquista. A resposta, simples como a pergunta, conta apenas com duas referências directas ao assunto.

Em primeiro lugar, o IC recorda que dá a oportunidade ao colectivo de apresentar peças no Festival de Artes de Macau. Este apoio, adianta o organismo do Governo, traduz-se no reforço de duas vertentes: a “popularidade da língua” e a sua “orientação artística”.

No segundo esclarecimento também não se antevêem novidades maiores, já que o instituto liderado por Guilherme Ung Vai Meng apenas acrescenta que o teatro em patuá é um dos quatro candidatos de Macau a património intangível.

A partir do documento enviado ao PARÁGRAFO, Senna Fernandes desatou a falar do futuro do patuá, sempre de olho no passado e no presente. Entre argumentos, ideias e recordações, ficaram duas certezas: os Dóci Papiáçam di Macau têm um projecto em mente e garantem que o espírito do grupo jamais vai mudar.

 

– Os planos apresentados pelo Instituto Cultural sobre o patuá merecem-lhe que comentário?

Miguel Senna Fernandes – É difícil comentar porque não são planos. Nada se diz de novo sobre o teatro em patuá, por isso esperamos para ver, com alguma expectativa, porque compreendo que não é uma matéria fácil. A abordagem da língua exige uma apreciação diferente, até porque o material disponível para fazer isso não é numeroso. Oxalá que as hesitações que existem sejam provocadas por aquilo que penso. A partir de agora, o Instituto Cultural não pode apenas limitar-se a apoiar o teatro de patuá através da oportunidade que nos dá para participarmos no Festival de Artes. Claro que ficamos sempre muito agradecidos. Sem este apoio não faríamos um espectáculo do género. Mas com o estatuto de património intangível exige-se mais qualquer coisa. Naturalmente, vamos ter de conversar. É importante que a defesa do património passe pelo Governo, mas nada impede que a sociedade civil, que é o nosso caso, impulsione e sugira o que vai fazer.

– Quando pensam avançar para um encontro?

M.S.F. – Logo depois do Festival de Artes agendaremos um encontro com o Instituto Cultural. Não houve sequer conversas informais sobre isto, mas é um encontro inevitável. Esperamos abertura às propostas que temos em mãos, a não ser que o instituto tenha uma visão, um plano sobre isto. O teatro de patuá exige mais.

– Que propostas são essas que têm em mãos?

M.S.F. – Em primeiro lugar, formação técnica para os actores. Sei que em Macau há muita gente a fazer teatro, mas a técnica pode não ser a melhor. Teremos de providenciar formação para quem está em palco. Seria uma formação orientada para o teatro em patuá. O teatro maquista tem as suas características muito próprias, como a comédia. Não digo que seja necessário uma preparação para isto. O que digo é que é preciso e iremos encontrar estas pessoas.

– Esta procura passará por vós ou contam com o Instituto Cultural?

M.S.F. – Isso é o que vamos ver. São pontos de interrogação e estamos a falar apenas em jeito de sugestão. Não há nada de concreto porque temos de ver o que nos oferecem em termos de alternativa. Entre nós, no seio do grupo, temos discutido que a formação em teatro é uma questão básica. A concepção do teatro de patuá já exige mais do que a carolice, que é o motor, e a paixão. Entrámos numa fase em que o público não vai aos espectáculos com um sentimento de perdão para com os amadores.

– Já sente que exigem maior profissionalismo?

M.S.F. – Sobe de ano para ano porque o público exige cada vez mais. Precisamos de formação não só a nível cénico, como também de encenação. Até agora tenho sido eu, mas gostava que houvessem outras pessoas envolvidas.

– No seio do grupo, é dramaturgo e encenador.

M.S.F. – E também fui actor e carreguei coisas para o palco!

–  Fica bem na pele de actor?

M.S.F. – As minhas intervenções sempre foram a título de ‘tapar buracos’. A última vez que entrei foi em 2004. Estávamos a repor uma peça e um dos actores não podia participar. Sem ele a peça ia ao ar! Não havia outra hipótese na altura, mas confesso: estava nervosíssimo e tinha a palma das mãos muito molhadas.

– Isso funciona a favor dos seus actores. Ou seja, percebe a posição em que estão.

M.S.F. – Sempre percebi e sou muito condescendente com os actores (risos). Bom, mas o que me aconteceu foi falta de treino, falta de prática. Enquanto eles estão habituados, eu não. Depois também havia outra coisa. Tinha de estar preocupado com a minha actuação e não havia um assistente de encenação, já que o próprio encenador era actor.

– As limitações são grandes…

M.S.F. – Também ao nível da dramaturgia. Mas aí o problema não é tão premente. Há sempre maneiras de contornar as coisas. Em qualquer grupo que se intitule de companhia de teatro interessa ter formação. A todos os níveis. Se bem que eu estou absolutamente convicto de que todos os actores que passaram pelos Dóci Papiáçam cumpriram o seu papel. Já foram muitos e sempre acharam que foi uma boa experiência. Ter de adaptá-los ao papel na peça é uma tarefa complicada, mas não é uma coisa do outro mundo. Até agora, posso dizer que estou muito contente. O macaense sabe estar em palco. Pode meter-lhe medo aquela perspectiva de ter milhares de olhos sobre ele – o tal ‘stage fright’. Mas o macaense sabe estar palco e surpreende. Estou sempre a surpreender-me.

– De onde virá essa aptidão?

M.S.F. – Não sei, mas talvez da sua própria natureza e do encontro de culturas que representa. Não devia de ir por questões tão profundas e gostaria se ser mais prático para explicar isto. Bom, talvez não tenha explicação! Mas a verdade é que o macaense tem uma aptidão de estar em toda a parte e consegue fazer isso com muita mestria. Muitas pessoas perguntam ‘o que é preciso para estar em palco?’. Eu sei, é preciso ter lata. O macaense quando entra em palco faz bem o seu papel e isso está mais do que demonstrado. Todos aqueles que passaram pelos Dóci Papiáçam não tinham formação de teatro.

– Às necessidades técnicas juntam-se necessidades financeiras? Como é que alimentam, digamos assim, o projecto?

M.S.F. – Com muita boa vontade. Não temos subsídios mensais e por ano o que recebemos chega do Festival de Artes para o qual somos convidados. De acordo com a peça que apresentamos somos pagos. Isso serve para fazer face às despesas, aos encargos.

– E as receitas de bilheteira?

M.S.F. – Não recebemos nada. É tudo para os cofres do Instituto Cultural. Mas também não podíamos depender da bilheteira. Hoje em dia os espectáculos são caros. Tudo isto acontece porque há boa vontade e borlas. Nós não queremos ser pagos nem nada – eu podia pedir uma parte para mim e o Sérgio Peres também [responsável pela vertente cinematográfica do projecto], mas não fazemos isso.

– A ausência de uma sede também tem dificultado o vosso trabalho?

M.S.F. – Os Dóci Papiáçam precisam de um espaço. Não é um terreno no Cotai porque não precisamos tanto! O que necessitamos servirá para ensaios, para fazer as nossas produções cinematográficas e gravações. São necessidades que não se compadecem com a área de um apartamento. O Governo pode dizer que nos dá um apartamento, mas isso não serve de nada porque não somos uma associação para discutir problemas. O sítio que precisamos é para trabalhar, fazer ensaios, guardar as nossas coisas.

– Têm andado em casa emprestada?

M.S.F. – Durante muito tempo, estivemos na Associação Promotora da Instrução dos Macaenses [APIM]. A casa é sempre a dos outros.

– A criação de um centro de cultura macaense voltou à imprensa, através do Jornal Tribuna de Macau e das declarações do presidente da APIM. Se tiver condições, pode ser um local à vossa medida?

M.S.F. – Não faço a mínima ideia do que é o projecto, mas julgo que não é suficiente para abarcar o que os Dóci Papiáçam têm em mente. É um projecto muito específico baseado em artes performativas e na defesa do patuá. Isto não se compadece muito com fórmulas antigas. É claro que não fecho as portas a nada. Mas é preciso saber, em termos concretos, o que é este centro. Os Dóci Papiáçam não são elitistas e colaboraram em várias coisas, mas sempre tivemos o nosso estilo. A maneira de fazermos as coisas é muito própria, tem muito que ver com a amizade e confiança entre as pessoas. O ambiente, diria, é  muito especial e diferente do da Associação dos Macaenses, de que sou presidente, e da APIM, da qual sou membro. Estamos abertos a todas as colaborações, mas vamos manter-nos sempre como Dóci Papiáçam e dessa ideia não sairemos. É a única coisa inegociável. Inegociável! (risos)

– Mesmo assim, prevê mudanças no futuro?

M.S.F. – Vamos ter de restruturar o próprio grupo, dotá-lo de estatutos actualizados. E até agora não fizemos outras coisas porque não temos condições. Por exemplo, cursos. É impossível. Mesmo assim, esta é a parte mais fácil de resolver.

– Qual é a mais complicada?

M.S.F. – A mais complicada é a que está relacionada com o patuá. Macau é o berço da língua, mas não há muita literatura sobre o patuá. O que há é do falecido José dos Santos Ferreira. Um homem notável que dedicou parte importante da sua vida ao culto do crioulo. Escreveu, cantou e poetizou em patuá. Mas, no seu tempo, o Adé [como também era conhecido] foi criticado. Diziam que inventava palavras. Mas, hoje em dia, as críticas desapareceram e o Adé é a autoridade bíblica. Tudo o que escreveu é intocável!

– Mas essencialmente o patuá é oral.

M.S.F. – Sim. Para que tudo seja estudado e também aprendido, é necessário que exista o mínimo de consistência. Estamos a falar de gramática e também de grafia. Como o patuá é essencialmente verbal como é que o vamos romanizar? À portuguesa? À inglesa? O Adé era patriota e português. Romanizou tudo à portuguesa e quando se lê o que escreveu passa-se a entender tudo porque usou a mesma ortografia. Isto é um tesouro inestimável. Ele deixou a obra, agora vamos estudá-la.

– Os Dóci Papiáçam di Macau têm sido, talvez, os grandes dinamizadores do patuá.

M.S.F. – Na candidatura do teatro a património intangível, o grupo ficou com o estatuto pomposo de entidade de salvaguarda. Já que o temos, vamos corresponder. Mas não depende só de nós. Depende de como o Governo vê isto. Há muitas questões pendentes. A ausência de um acordo ortográfico, é uma delas.

– As directivas de José dos Santos Ferreira podem ser seguidas?

M.S.F. – Nem todos concordam. Existem problemas de índole linguística e cultural. O Adé fez uma gramática que era, como dizia, o ‘epítome de gramática do Papiá Cristám di Macau’. Eu próprio não concordo com algumas coisas, mas acabo por dar sempre razão ao velho mestre. O que fez é fenomenal e colocou-se na pele de falante do patuá para exprimir realidades que não existiam antes, como avião.

– Como se diz?

M.S.F. – Aeroplano. Claro que quando se falava patuá não havia nada disto. O aeroplano aparece nos textos do Adé porque havia muitos macaenses em Hong Kong que já começavam a falar inglês. Macaizando o termo ‘airplane’, ficava aeroplano. As pessoas dizem que ele inventava palavras. Não! Ele criava palavras. Todos nós fazemos isso. Hoje em dia diz-se ‘printar’ ou ‘deletar’. Não sejamos tão puristas. Devo dizer que a forma de falar português do macaense tem muito de patuá. As pessoas é que nem sabem.

– Na sua opinião, o patuá tem espaço para acompanhar os tempos e não se cingir à tradição?

M.S.F. – Claro. Os Dóci Papiáçam fazem isso e esta língua pode traduzir as situações da vida actual. Há futuro, mas depende sempre da utilização. Se as pessoas não o usam é como um carro que compramos, mas fica na garagem. Acaba por morrer por si.

– Os Dóci Papiáçam são os condutores deste carro?

M.S.F. – Pelo menos, guiamo-lo. Mas sabemos, de antemão, que o carro não é nosso. O carro é de todos.

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