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“Para mim, nunca nada está perdido”

Manuel Vicente, arquitecto, assinala meio século da chegada a Macau.

 

Carlos Picassinos

 

Cinquenta anos depois de ter desembarcado em Macau, o arquitecto Manuel Vicente olha para trás sem mágoas. Não lhe está no sangue nem no temperamento. Por isso, esta é uma entrevista atravessada pelo esplendor da vida em que ressalta o entusiasmo pela mudança e pelo novo. E é  uma conversa de arquitecto contaminada pela literatura, pelo cinema, a sopa Campbell’s ou as garrafas de coca-cola. Sem lições. Arquitectar deve ser uma indisciplina de peito aberto ao vento, olhar “sem cair naquela coisa ‘ai que horror os chineses metem grades em todo o lado’” porque a relação poética e afectiva com o mundo não depende de nenhum estatuto social. É assim a glória do banal e o risco de Manuel Vicente.

 

Olhando para trás, para 1962, que leitura é que faz deste seu percurso?

Foi uma vida muito variada pessoal e profissionalmente, estive em muitos sítios, em Goa, na Madeira, nos Estados Unidos, em Lisboa. Mas acho que aquela pós-graduação na América foi muito importante na confirmação, na estruturação de um modo de olhar para a arquitectura, ajudou-me a encontrar-me comigo próprio, o modo de sentir o mundo e a minha relação social.

 

Identifica-se com quem o classifica como um arquitecto pop, pós-moderno?

Isso assim fica muito etiqueta. É claro que me interessei pela proposta da arte pop e por encontrar um esplendor escondido nas coisas inconscientes que as pessoas fazem no dia-a-dia, e encontrar uma alegria no sentir profundo, entre aspas, da nossa contemporaneidade, na lata de sopa, ou nas garrafas de coca-cola. Não olhar para o mundo de modo um pouco esquizofrénico, tipo entre um mundo da arte e outro que não me interessa nada. Não quero ver isso assim, de um lado a arte e do outro a piolheira. Queria procurar um olhar mais coeso.

 

E foi isso que encontrou em Macau, essa vulgaridade, esse banal?

Sim, até fizemos um livro, o “Macau Glória” que tinha como subtítulo, “A glória do vulgar” em que insistiamos que a relação afectiva, poética com o mundo não acontecia só por causa dum estatuto social ou financeiro. Havia uma aspiração muito universal de transformarmos o mundo à nossa imagem e semelhança, um grande desejo de formar o mundo. Mas também sabíamos que quanto menos letrada fosse essa consciência também essa transformação seria menos complexa e menos sofisticada. Era uma visão mais solidária que procurava completar a compreensão e o afecto que nos ligava ao mundo e aos outros, que tornava também a sociedade mais extensa do que aquele culto do pitoresco que os ingleses têm muito. Por exemplo, quando os cubistas olhavam e ficavam fascinados pela arte negra, ou anos antes se tinha olhado para o Oriente, agora já não é esse olhar voiyeur e eurocentrado que domina, percebe? Há uma tentativa de entendimento profundo dessa transversalidade poética, do olhar do homem sobre si mesmo.

 

Disse que chegou a Macau com uma grande vontade de trabalhar um “pato bravo”.

Eu cheguei com uma grande vontade de real, para além da convenção da escola arquitectónica, para além do que o arquitecto devia fazer ou não. Esta espécie de selvagização, o neologismo não é famoso, do direito de cidade, como o jazz que ganha direito de cidade quando era uma música dos excluídos busca uma democratização do estético, do plástico, artístico. Acabar com essas exclusões do high brow e do low brow. Agora a cantora de ópera também canta Beatles, entende? Queria alargar a respiração, pôr o peito ao vento e ao sol e acabar com o espartilhos da burguesia da idade industrial.

 

Como é que trabalhou este discurso em Macau?

Procurando o vulgar e encontrando o poético escondido. Olhar sem cair naquela coisa do ‘ai que horror, os chineses metem grades em todo o lado!’ Era tentar perceber que havia ali escolhas e era importante perceber esses sinais com que as pessoas iam configurando o mundo. Mas isto na Europa… sei lá, o senhor fidalgo das terras do século XVIII olhava para as aldeias que hoje se vendem aí nos cartazes turísticos como uma imundície horrível, não valorizava aquilo, nem as próprias pessoas que lá viviam porque se comparavam com o castelo, não é! Ou seja, é preciso perceber que há mais mundo do que o que se convenciona aceitar, ou dignar-se olhar para. Não ficar a olhar para o pitoresco, ou olhar o pitoresco pelo menos a dizer ‘olhem como este selvagens são capazes de fazer não sei o quê…”. Achar que toda a expressão de um gosto ou de uma vontade de configuração é estimável.

 

Falou também de uma religiosidade no seu trabalho com os materiais, do hibrido…

Há quem diga que eu sou pós-colonial porque já não venho com aquela postura de colono que quando vai, vai ensinar alguma coisa àqueles selvagens. Eu tento perceber o que aquelas pessoas sabem, os seus fantasmas, os seus gostos, o cruzamento de culturas mas nesse sentido… sei lá, a relação com o sagrado, a obsessão com a morte que os camponeses têm, a obsessão com o jogo que é a encenação dessa morte, o jogo da vida, o acaso, a sorte, como aquele filme do [Michael] Cimino “O Caçador” e a roleta russa que é um ritual muito intenso, como são os combates de galos das Filipinas. Não é um divertimento, as pessoas levam aquilo muito a sério.

 

Mas ainda é possível encontrar essa contemporaneidade ou as mudanças foram tão acentuadas que se perdeu um pouco?

É sempre especial e diferente. Mesmo que seja uma cópia de Las Vegas, é sempre diferente, e Las Vegas é diferente de Macau. Para mim, nunca nada está perdido. As pessoas de Macau estão todos os dias a construir diferenças. Nunca tive nostalgia de Macau. Cheguei em 1962 e havia aquela Praia Grande, e depois nos anos 70 deitaram aquelas casas abaixo… É a mesma coisa de quando olhamos para aquelas fotografias de criança quando tinhamos cabelos loiros, ou quando estamos a fazer músculo na juventude. Ficamos é com grande estima com o processo da vida. Eu fico com mais curiosidade do que nojo! Importa mais o esplendor da vida. Também ninguém gostava dos arranha-céus de Nova Iorque, ou de Chicago, e depois a geração seguinte incorporou aquilo no seu gosto. Mas aquilo só podia ser feito na América, nunca na Europa, porque ali havia um território mais livre, mais desocupado, e isso também fazia as mentes mais livres, com mais desejos, a realidade não era tão normativa. O que eu digo é que nos temos deixar penetrar por novos modos de olhar, outras formas de dizer as coisas. Quer dizer, não se escreve da mesma maneira depois da literatura americana do Miller, ou do Scott Fitgerald. De repente, abriu-se o espaço da escrita, e no cinema também foi a mesma coisa.

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