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“Sou um filho do cinema”

O cinema é uma grande influência no modo como olha o mundo.

Eu sou filho do cinema. A geração anterior à minha era filha da literatura. Estava sempre a fazer citações, ainda agora, do Eça, e do Ega e do visconde não sei quê. A minha geração é a do cinema. Eu ia ao cinema de tenra idade. Familiarmente, tínhamos marcação no cinema quase todas as noites. E nesse cinema fora de Lisboa havia sempre dois filmes, como dizem os brasileiros, um extraordinário e outro extra, ordinário, com uns documentários aborrecidíssimos pelo meio (risos) e passavam curtas do Pamplinas, do Charlot… Era uma época em que Lisboa era porta de entrada de Hollywood na Europa. Agora quando venderem a TAP já nem porta de saída para lado nenhum, vai ser! Mas eu ia a Paris e o que estava lá a estrear já tinha estreado em Lisboa há umas duas semanas. Mas, sabe, a minha actividade principal hoje é o ensino. Há dez anos, numa aula se mandasse um piscar de olhos com o Johnny Guitar ou com uma frase qualquer do Humphrey Bogart percebiam-me, aqueles cinco anos acima e os cinco anos abaixo de mim, percebiam-se. Hoje ninguém sabe quem é o Johnny Guitar. Tudo vai passando. Hoje também ninguém cita Guy de Maupassant ou o Joyce. As coisas têm o seu tempo. Mesmo o Pessoa que teve o renascimento que teve, já começa a não estar tanto no quotidiano. As obras de arte nunca conhecem a obsolescência mas o seu uso sim. O cinema é indissociável da minha geração e, claro, do meu trabalho que está cheio dessas memórias, não literalmente, mas nas formas como eu olho para o mundo.

 

Nestas ausências e presenças, em Macau ou em Lisboa, considera-se um outsider no meio da arquitectura portuguesa?

Sempre achei isso engraçado. Tinha um aluno meu no Técnico que os pais eram imigrantes açorianos nos Estados Unidos e, por uma razão qualquer de afecto com Portugal, mandaram-nos estudar um ano no Técnico. Eu chamava-lhe o luso-português. Realmente, a nossa cultura deve mais aos luso-portugueses do que aos portugueses. Como o Eça que era um português exilado, ou o Jorge de Sena, e o próprio Saramago que acabou lá naquela ilha de Lanzarote, nas Canárias, e o Camões. Este país é capaz de ser um pouco auto-fágico, pequeno demais, as pessoas concentram-se em pequenos conflitos e não criam distancias e é preciso criar distâncias para depois vir mais livre, desafogado, redescobrir as maravilhas, olhar para a costa atlântica ou para o Alentejo, com um olhar mais largo, menos cego de conflitualidade, porque aqui é difícil não estar sempre envolvido num conflito qualquer… Mas Portugal também é muito cruel em receber os luso-portugueses, como este pobre ministro que esteve no Canadá. Ninguém lhe perdoa isso! (risos)

 

E o Manuel Vicente é um luso-português?

Sou, sim. Sou um exemplo muito acabado disso mesmo. É difícil encaixar-se. É muito irritante. É-se sempre um intruso. É sempre difícil regressar a Portugal. Há sempre o estigma, ‘este tipo não é dos nossos’. Em Macau, é o mesmo. Mas esta frequentação do estrangeiro choca um pouco o indígena. É sempre um pouco segregado por mais simpáticas que as pessoas sejam. Vive-se sempre no meio de rejeições, que às vezes são estruturantes, nos pequenos ódios lusitanos de que é feito o nosso dia-a-dia neste cantinho. Sei lá, é a nossa condição. Mas o mundo também é ainda muito tribal, de certa maneira.

 

C.P.

 

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