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Uma deusa moderna

Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Aquela coisa do copo meio vazio ou meio cheio; a vida que se vê com óculos cor-de-rosa ou cinzentos; o fazer das fraquezas forças ou vice-versa. Tudo depende. De nós, dos outros ou dos deuses.

O divino em Macau é o que se quer. Pode estar num pauzinho de incenso ou na forma como organizamos a mesa da cozinha. O divino mora na Sé, nos templos, na rua. O divino passa a vida a deitar a língua de fora ao profano, dorme com ele, faz-se de difícil mas no fundo gosta.

E eu, como amante das divindades pouco ortodoxas deste fascinante pedaço de terra, não podia contornar todo aquele dourado. Restaurado ainda por cima. E brindado do mais sagrado dos locais: um cafezinho. Dêem-me um café e uma deusa e sou feliz. À beira-rio, então, ui, ui.

Por baixo da estátua, uma flor de lótus tão RAEM. A gente entra, olha para um, dois, três, quatro funcionários que nos sorriem, “jou san, jou san”, “hello, hello” e mesmo que não haja muito para ver o ar condicionado é agradável e o espaço também. Muito ecuménico, sim senhor. No andar de baixo vemos a deusa peça a peça a ser erguida. Fotografias com governadores de outros tempos, gesso, madeira e tinta. Afeiçoamo-nos mais a ela, a nossa Kun Iam dourada.

À saída cheira ao fumo contemporâneo desta cidade do turismo e do lazer. Nada temam, no entanto, os receosos das partículas suspensas. Kun Iam, a deusa da compaixão, ergue-se ali a 20 metros do chão, e observa-nos. As deusas, bem se sabe, tendem a olhar o mar, protectoras dos navegantes e das almas perdidas. Mas esta não. Sabe bem que isto é terra de tentações, de pouca-vergonha, de espíritos corrompidos – nós por cá precisamos de toda a ajuda possível e não nos podemos dar ao luxo de ter deusas que viram as costas ao asfalto.

Por isso olha-nos dali, junto ao indiano do NAPE, pertinho do Centro Cultural e ainda mais do Centro de Ciência – o triângulo das Bermudas de Macau. Estrategicamente posicionada para não tocar nos casinos – esses antros! – mas de forma a manter os olhos neles.

Quanto à água que por ali se estende em lençol, é castanha e sem navegadores. Assim como assim, dali não sai nada, só aragem. E uma deusa tem de saber modernizar-se.

Inês Santinhos Gonçalves

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