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Vicente, um arquitecto sob influência

Carlos Picassinos

 

As celebrações da obra de Manuel Vicente e, em especial, dos cinquenta anos da sua chegada a Macau, que se assinalam em 2012, assentam num aparente paradoxo. Trata-se de um arquitecto português supinamente reconhecido e, todavia, numa obscura condição de outsider. Pela dispersão geográfica dos seus trabalhos, sobretudo, mas também pela idiossincracia da figura e, não menos decisiva, pela ausência de estudo e pensamento em redor daquele que é descrito como o último arquitecto do império português e o primeiro pós-moderno nacional.

De Goa à Pensilvânia e do Funchal ao Fai Chi Kei, a intermitência do percurso e da obra de  Manuel Vicente tem sido apresentada como o eixo problemático e, talvez por isso mesmo, mais glorioso da exposição “Trama e Emoção” que já desde o ano passado no Museu do Oriente, ou agora, noutra versão, em Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, pretende organizar um olhar conjunto sobre a singularidade deste arquitecto. Sem dúvida, um esforço de sistematização inédito sobre o lugar de Manuel Vicente na arquitectura portuguesa e sobre a relação de Portugal com Macau.

A mostra que deverá passar pela RAEM ainda este ano foi também embrião de um livro-catálogo e de vídeos de José Maçãs de Carvalho [“Fai Chi Kei (1981-2011)” e “Learning from Macau #1”] além do projecto “Manuel Vicente, 15 edifícios na Rota do Oriente”, coordenado por Ana Vaz Milheiro no quadro do mestrado de Arquitectura do Instituto de Ciências Sociais e do Trabalho e da Empresa, e da organização por Manuel Mendes do Fundo Manuel Vicente do Centro de Documentação e Urbanismo e Arquitectura da Faculdade do Porto.

 

Goa, Macau e Khan

 

Vicente chega a Macau vindo de Lisboa mas já depois de uma primeira experiência colonial, em Goa, onde se encontrava quando da invasão pelo exército da União Indiana. Desembarca em 1962, num período de renegociação da concessão do jogo e do consequente investimento imobiliário e aposta nas infra-estruturas do território. Desembarca num tempo de oiro.

Na verdade, os cinquenta anos do trabalho de Manuel Vicente em Macau são, ao mesmo tempo, o da constituição do primeiro núcleo de arquitectos que incluía ainda Natália Gomes, Henrique Mendia e José Maneiras. Vicente permanece seis anos em Macau até 1966 e além da actividade liberal é responsável pelos vários planos de urbanização da cidade. É também dessa época o Orfanato Helen Liang ou a torre de habitação no Porto Exterior ou ainda a Emissora Rádio Macau. Nesse ano do 1,2,3 regressa a Lisboa onde fica até 1968 quando, com uma bolsa de estudo, se instala na Pensilvânia, Estados Unidos, para estudar sob orientação de Louis Khan. Aí toma contacto com Robert Venturi e Denise Scott-Brown, os teóricos do modelo Las Vegas. Fica um ano e de regresso em Lisboa, no final de 1969, assiste a todo o processo da queda do regime à explosão do 25 de Abril. Passado o PREC e a euforia revolucionária está de novo em Macau, a convite de Francisco Figueira, já 1976.

Esta intermitência do arquitecto no território sob administração portuguesa, que se prolonga até à actualidade, inspirou João Afonso, o comissário da mostra “Trama e Emoção” na escolha do título. “A trama simboliza a geometria latente da arquitectura do Manuel Vicente. A ideia de uma trama de vida, de um encadeamento de acontecimentos e de obras e das idas e vindas de e para Macau e para os Estados Unidos. A trama é a da geometria e a da vida. A emoção é a da arquitectura que constitui um contributo para a criação de condições para a vida”. “Escrevi num texto em que digo que ele é o último grande arquitecto do império”, observa, agora, ao Parágrafo. “Ele diz que é um luso-português. No fundo, acho que há aqui um fascínio na descoberta desse mundo português que era um mundo sem fronteiras no momento em que esse mundo está a terminar. Ele esteve em Goa, estava lá quando da invasão. E Goa era acordar num mundo diferente. Tudo condicionado com a União Indiana ali ao lado. Por isso, é que falo de uma arquitectura portuguesa para além das nossas próprias fronteiras”.

Afonso repara que Manuel Vicente começou a trabalhar num período de mudança em que há uma abertura cultural portuguesa e onde se começa sentir outras influências. Começa a fazer uma arquitectura dentro do quadro da arquitectura portuguesa, num regionalismo, e passa rapidamente para outras linguagens mais internacionais. “Ora seja um historicismo ou um regionalismo, também há um brutalismo e uma importação extremamente dotada e actualizada de conhecimento do que se está  fazer no mundo naquele momento”. Isto mesmo antes da sua ida para os Estados Unidos. Aí ganhou outra liberdade de espírito. Fica entre 1968 e 1969 “e apanha a contracultura. Estuda com Louis Khan que não o ensinou a fazer arquitectura mas a pensar arquitectura, como ele diz. E trabalha com franceses, belgas, pessoas de todo o mundo quando também ali está a Denise Scott Brown e Robert Venturi”. Assume esta vertente de Louis Khan “em que a arquitectura procura uma transcendência, uma monumentalidade e um estado de absoluto qualquer, e por outro lado trabalha com a banalidade, constrói-se de símbolos transformando-os para seu próprio uso e proveito”.

 

Fantasia americana

 

É essa nova arquitectura que Manuel Vicente propõe a Macau. Uma disciplina com capacidade de intervenção, com regras, integrando a arquitectura na área da construção, que trabalha com o que há em termos construtivos, com uma ideia de uma escala territorial mas também de um certo brutalismo da natureza. E a ideia de plano, de um plano que constrói a cidade. “Isso é o grande contributo dos anos sessenta quando aquele grupo de arquitectos fazem os planos para Macau, da Barra, do Porto Exterior. Acompanham as obra do Chorão Ramalho, a habitação social de Macau. Tudo nos anos sessenta”

Se João Afonso propõe esta leitura da obra de Vicente, um arquitecto pós-colonial, inscrito na tensão religiosa de Louis Khan, entre o banal e o absoluto, Jorge Figueira, docente, um dos teóricos e críticos que mais atenção tem vindo a prestar ás questões pós-coloniais na arquitectura portuguesa, detecta um insólito programa pop nas obras do arquitecto do World Trade Centre. Manuel Vicente avança para Macau americanamente com realismo e “supension of desbelieve”, diz Figueira no texto que escreve para o catálogo de “Trama e Emoção”. “Vai escrevendo o seu guião pessoal – “Macau Glória” – …. : ‘fui para Macau muito fascinado; porque eu dizia muitas vezes em Lisboa: adorava ter um pato bravo, trabalhar no ordinário, no grosseiro, no vulgar, no corrente, no banal, e ainda aí, entrar e dizer, como a criatura que eu estimo muito, Denise Scott Brown: está quase bem. E, de facto, não tem nada que saber”. Um programa pop, portanto. Mas insólito? Nem por isso. Em 1999, na revista de Taiwan, “Dialogue”, Manuel Vicente admite a influência. “Uma das coisas que influenciou o meu pensamento foi a famosa pintura da lata de sopa de Andy Warhol. Há um forte esforço criativo em fazer algo de que se gosta a partir de algo de que não se gosta. Em Macau, há muitos materiais de que não gosto (…) O processo de construir com estes materiais transforma-se em algo quase religioso”. É uma vontade de pertença que também emerge, a adesão de um outsider a um certa condição mainstream que também prevalece. Mas quanto mais intensa essa vontade de inscrição maior a evidência da disfunção e desse corpo estranho. “Quanto mais “normal” mais estranho; uma equação que foi crescendo até ao ponto da monstruosidade dos nossos dias”, nota Figueira. “Um espaço público sem redenção; híper democrático mas individualista; realista no sentido de um permanente “reality show”.

Àquela intensidade criativa; a este esforço de construir a partir de um caos; à outra vontade de pertença, chama Manuel Graça Dias “um visionário pressentir do novo”. Graça Dias que trabalhou com o arquitecto, em Macau, entre 1978 e 1981 saúda, no mesmo livro, uma intenção de desejo urbano. “É isso que é lindo em Manuel Vicente: a paixão quase infantil com que defende a mudança, com que adere à transformação, o à vontade com que participa na construção do futuro, a não nostalgia de que é capaz, no seu visionário pressentir do novo. Na enorme vontade e intenção de desejo urbano, culto, referenciado, inteligente, poético e útil que espalha sobre o projecto, projectando o acordo com o que está, mas devolvendo-lho outro e mais rico; mais rico de possibilidades e de lugares para a vida”.

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