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Entre a paz e o protesto

Sob raízes suspensas de uma árvore e anéis de fumaça com chancela da Zhongnanhai, grupos de homens velhos concentram olhares carrancudos em tabuleiros de xadrez chinês. A cena, quase cinematográfica, tem lugar num recanto do Amigos do Jardim Triângulo e a banda sonora inclui ópera cantonesa ou o vibrar de um erhu tocado no coreto de telha azul.

Para um reformado, o lazer não tem limites e pode prolongar-se durante horas. Ainda mais num local onde reina a paz, que só é abalada a 1 de Maio e 20 de Dezembro.

O dito Amigos do Jardim Triângulo – nome estranho, este – fica na fronteira que separa o Toi San da Areia Preta. A zona, como tantas outras, está cercada pelo veneno que é cuspido dos carros em andamento e ocasionalmente serve de morada para protestos da classe trabalhadora.

Neste espaço, há lugar para o tempo livre e para recordar a violência, já que, mais à frente, vislumbra-se a Pedra Brasonada. Localizada ao lado da entrada do Templo Lin Fong, foi aí que o Comandante João Maria Ferreira do Amaral morreu, decapitado por dois moradores da região de Xiangshan. O assassinato provocaria, mais tarde, o incidente de Baishaling, quando o calendário marcava o ano de 1849.

Independentemente da magnitude da revolta ou dos protestos, dos dois incêndios destruidores da década de 1920 ou do fantasma da tensão, vingança e miséria, hoje tudo parece mais leve e brando. As árvores que se alinham nas estradas de Toi San, pelo menos, assim o sugerem.

Como o Iao Hon, Toi San é um bairro antigo a norte da grande área residencial. A diferença entre ambos reside nas habitações sociais que ali existem, como o Edifício Litoral e o Edifício D. Julieta Nobre de Carvalho, e nas escolas construídas.

O bairro de Toi San é tão residencial ao ponto de, a um quarteirão de distância, podermos encontrar dois pequenos jardins que descansam entre o arranha-céus.

Com a chegada de um novo fluxo de trabalhadores estrangeiros e a construção do novo canal Cantão-Macau junto ao Mercado Abastecedor de Nam Yue, a zona norte vai ser ainda mais povoada. Vendo o idoso ocioso nos jardins, notas do dragão vendidas aqui e ali ou electrodomésticos velhos à espera de comprador, não podemos deixar de pensar que o Toi San pode continuar a revelar-se como o lugar calmo, prensado entre o Fai Chi Kei e a Ilha Verde.

 

Stephanie Lei

 

 

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