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Fim da linha

É lá longe, depois de Hac Sa, da poeira e dos camiões, que Ka Ho respira um ar mortífero, sobrevive dia-a-dia e aguarda a morte. Certa.

Por agora, ela esquece-se desta terra e daquilo que a rodeia. Um lapso que se vai prolongando por dias, semanas, meses, anos. Mas chegará.

A mula que me leva tem um 15 inscrito na testa, não anda a galope e pára a cada esquina. Meia hora já lá vai.

Nas ladeiras que se empoleiram à volta, o progresso esventra uma natureza que, aqui e ali, parece selvagem, como os cães que ladram à fome e sede. Nada há, a não ser uma poeira irrespirável e a dinâmica industrial que envolve a paisagem. Vivalma não deslumbro.

Nesta viagem solitária, só havia um destino traçado: uma igreja triangular.

O mapa, fiel amigo do caminhante, aponta para um portão escancarado. Trilho acima, as boas-vindas são dadas por uma imagem santa, alva, que carrega uma menino nos braços debaixo de um céu azul raro. É sobre esse, mais à frente, que um cristo moldado a bronze parece estar impresso, erguendo-se num esplendor pouco provável para o local.

Messina foi o homem responsável pela obra, mas, hoje em dia, poucos saberão quem foi, o que fez, onde viveu ou morreu. O mesmo acontece com os doentes que fizeram a história de onde escrevo.

Deambulando por este misto de decadência e beleza, encravado num alto, uma pergunta assola-nos: o que tem de especial este lugarejo carregado de espiritualidade?

A língua seria sempre um obstáculo para questionar quem quer que fosse, mas por cá também não há ninguém para partilhar dúvidas ou matar a curiosidade de um recém-chegado.

Finda a luz, resta voltar à suposta civilização, outra vez na mula 15. No lombo leva quatro. Forte, o bicho, que deixa para trás uma história em cacos, que um dia destes não terá ninguém para a contar. E nem as paredes servirão de testemunhas porque têm o futuro definido.

De Ka Ho fica a vontade de voltar e dizer ao mundo o que ali existiu e sobrevive com destino marcado. Não só na antiga leprosaria porque a história destas quatro letras, agrupadas em dois pares, também se escreve e confunde com a etapa final de refugiados que cá chegaram, nos finais da década de 1970, vindos do Vietname. Mas isso fica para um próximo capítulo.

Pedro Galinha

 

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