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Um passeio por Picasso

São 55 obras e muitas fotografias e vídeos que documentam todo o percurso de um dos maiores artistas do século XX. O Heritage Museum, em Hong Kong, exibe a maior exposição de sempre de Picasso na região. Para ver até 22 de Julho.

Hélder Beja

“Eu pinto do mesmo modo que algumas pessoas escrevem a sua autobiografia. Os quadros, terminados ou não, são as páginas do meu diário, e como tal são válidos. O futuro escolherá as páginas que prefere.” Pablo Picasso disse isto em 1946 (1881-1973), ainda bem longe do fim da vida mas já consciente daquilo que o seu trabalho representava. Mesmo assim, Picasso dificilmente acreditaria que o futuro escolhesse que algumas das mais famosas obras que assinou andassem numa espécie de digressão pelo mundo e, agora, em Hong Kong.

Nos arredores do Heritage Museum, que fica em Sha Tin, nos novos territórios, o dia parece de festa, com largas dezenas de pessoas a encaminharem-se na direcção de um mesmo edifício. É lá dentro que está a exposição “Picasso – Obras-Primas do Musée National Picasso”, para ver até 22 de Julho. A mostra, inserida na programação do French May, é a maior de sempre dedicada ao artista espanhol na região vizinha e uma óptima oportunidade para ficar a conhecer um pouco melhor o percurso de um dos grandes mestres.

“Esta exposição traça, pela sua riqueza e complexidade, as principais fases do trabalho do grande mestre da modernidade: o período azul e o período rosa, os protótipos cubistas e a pesquisa africana, imagens emblemáticas do cubismo sintético, o período clássico, o ciclo surrealista e o último período”, refere no texto de apresentação a directora do Musée National Picasso e comissária desta exposição itinerante, Anne Baldassari. Foi de Baldassari a ideia de fazer os trabalhos de Picasso viajarem o mundo e colherem milhares de novos admiradores enquanto o museu parisiense está em obras para poder expor devidamente o vasto arquivo do artista.

Esse cariz de síntese da carreira de Picasso que a exposição tem, com uma forte componente pedagógica, explica boa parte da enchente que o Heritage Museum recebe neste dia em que o visitamos. Centenas de estudantes, vestidos de uniformes iguais, acompanham professores e guias que vão tentando decifrar os significados escondidos nas pinturas do autor nascido em Málaga, em 1881. Mas há também muitos visitantes solitários e imensas famílias cheias de potenciais pequenos picassos.

As 55 obras, entre pintura e escultura, que o museu francês trouxe a Hong Kong não vieram sozinhas e recebem nas paredes a companhia de um importante acervo fotográfico que introduz o visitante à vida quotidiana de Picasso, aos estúdios e ao círculo de amigos que o rodeava. Há ainda registo vídeo sobre a vida e obra do autor. “Esta exposição reúne mais de 100 trabalhos e documentos que traçam o percurso artístico de Picasso desde os seus primeiros trabalhos datados de 1895 até aos últimos anos da sua longa e produtiva vida”, acrescenta Anne Baldassari.

Ver devagar

Para aqueles que pensem visitar a exposição, é importante comprar bilhete com antecedência e ir com tempo. Muitos dias de visita estão já esgotados e as salas que recebem a mostra podem ter mais gente que o Louvre em hora de ponta. Para chegar a alguns dos quadros é mesmo preciso esperar alguns minutos.

A palavra que mais se ouve da boca dos visitantes é ‘Pacasso’, modo como se pronuncia em cantonense o nome do pintor. A mostra está ordenada cronologicamente e, na primeira sala, é possível ver a curta produção de Picassso ainda na última década do século XIX. Obras como “Portrait d’homme” (1895) mostram já o domínio técnico de que dispunha e o modo como se divertia a copiar os estilos de nomes grandes como Rodin ou Van Gogh.

Picasso foi um dos mais prolíficos autores de que há memória. Tem mais de 30 mil trabalhos conhecidos e, entre eles, com certeza mais de três mil telas. O que está para ver no Heritage Museum é, está claro, uma migalha do bolo enorme que é o seu legado, mas abre o apetite por atravessar todas as fases.

De sala para sala é possível perceber o crescimento do pintor e o modo como o seu estilo vai amadurecendo. Do primitivismo, muito influenciado pela escultura africana, Picasso evolui para o cubismo que haveria de torná-lo célebre. “Homme à la moustache” (1914) é um dos melhores exemplos disso entre as pinturas expostas em Hong Kong, bem como os corpos com tiques fellinianos de mulheres de formas exageradas e distorcidas.

Apesar de o período clássico de Picasso ter nesta exposição alguns pontos de interesse, como a obra “Paul as pierrot” (1925), são a fase surrealista e os chamados anos pop que recebem as maiores atenções dos visitantes. A orquestra de cores e formas e a maior dimensão das telas tornam ainda mais difícil às centenas de curiosos cumprirem a regra de não fotografar no interior das galerias.

 

Influência chinesa

 

“Picasso – Obras-Primas do Musée National Picasso” esteve em Xangai, no Pavilhão da China, e em Chengdu, no Museu de Arte Contemporânea, antes de descer a Hong Kong. Na capital económica chinesa o momento foi de grande importância, por tratar-se da primeira exposição individual do artista num país cuja arte também o influenciou.

“Picasso impressionava-se muito com os pintores chineses que viam a arte como língua e a pintura como signo, e não como representação. Ele lutou contra a ideia de representação [na pintura] e olhou sempre para a pintura chinesa e para a escultura africana como principais referências”, aponta Anne Baldassari. “Ele estava profundamente convencido de que a pintura chinesa e a escultura africana iriam trazer qualquer coisa a França, uma abordagem diferente”, acrescenta.

Depois de ter passado pelo Canadá, Estados Unidos da América, Rússia, Austrália, Japão e Taiwan, a mostra tem em Hong Kong a última paragem asiática. “Com esta primeira exposição de grande escala, o Musée National Picasso quer desenvolver relações institucionais com museus e instituições culturais que na China se dedicam ao conhecimento e à defesa da arte  moderna”, refere  Baldassari.

A curadora do Heritage Museum para a exposição, Belinda Wong Sau-lan, regozija-se por ter em Hong Kong parte do legado “do mais influente artista do século XX”. “Foi um criador tremendamente prolífico que explorou diferentes campos artísticos ao longo da vida, experimentando incessantemente a pintura, a escultura, o desenho, a cerâmica, bem como materiais e ideias”, nota.

Belinda Wong Sau-lan destaca ainda os trabalhos autobiográficos do autor, que “não só documentam as mudanças sociais de uma época e o espírito de um tempo, como revelam o carisma de Picasso enquanto pintor, amigo, amante, pai, celebridade e artista genial”.

 

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