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“Quero ver o que os turistas não têm acesso”

Vai ser em Macau que “Preocupo-me, logo existo”, de Eric Bogosian, vai ter estreia absoluta. Diogo Infante vai vestir a pele de oito personagens “fortes e carismáticas”. Curioso por ver as mudanças que o território sofreu nos últimos dez anos, o actor espera encontrar um público “receptivo e caloroso”.

Inês Santinhos Gonçalves

Em Portugal não há quem não o conheça. Fez teatro, cinema, televisão. Foi director artístico do teatro Maria Matos e do D.Maria II, cargo que abandonou no final do ano passado por incompatibilizações com a Secretaria de Estado da Cultura. Esteve envolvido em polémicas políticas. Interpretou Moliére, Shakespeare, Brecht, Sófocles. Dez anos depois da última passagem em Macau, Diogo Infante regressa ao território para estrear a peça “Preocupo-me, logo existo”, no dia 25, às 20h, no Centro Cultural de Macau.

– Porquê escolher Macau como primeiro destino desta peça?

Diogo Infante – Porque há dez anos terminámos a digressão de “Sexo, Drogas e Rock&Roll”, também de Eric Bogosian, precisamente em Macau. A experiência correu tão bem e fomos tão bem recebidos que quando surgiu esta oportunidade de integrar o programa das comemorações do dia de Portugal, não hesitámos!

– De que trata “Preocupo-me, logo existo”?

D.I. – É um olhar satírico, provocatório e politicamente incorrecto sobre uma certa sociedade urbana e contemporânea onde podemos identificar um leque de personagens variados que gritam a sua revolta para nosso deleite e desconforto! A preocupação é uma medida da nossa existência que procuramos desesperadamente legitimar.

– Esta é a terceira peça de Eric Bogosian que leva a cena. O que é que o atrai neste autor?

D.I. – Gosto do seu sentido crítico e olhar acutilante capaz de captar as nossas próprias contradições e expor as hipocrisias de uma sociedade moderna, sofisticada e demagógica, abordando temas tabus como a sexualidade, a religião, a extrema-direita, a droga e afins. Para um actor é delicioso poder compor oito personagens fortes, carismáticas, que mantêm uma relação muito próxima e directa com o público.

– Com que impressão ficou de Macau, quando cá veio da última vez?

D.I. – Percebi que é uma cidade com um forte pulsar, um espaço de oportunidades. A comunidade portuguesa ocupa um lugar de destaque na dinâmica de Macau, o que nos permitiu a primeira visita e agora este regresso!

–  Como lhe pareceu o público?

D.I. – Informado, muito receptivo e caloroso. Espero que mantenham as características.

– O que conta encontrar neste regresso? Macau é uma cidade em eterna e veloz mudança…

D.I. – Quero perceber as mudanças que Macau sofreu. Tenho amigos que vivem em Macau e através deles quero ver o que os turistas não têm acesso.

– Fale-nos da série que está a filmar, “Depois do Adeus”.

É uma serie muitíssimo interessante sobre o pós 25 de Abril e sobre o impacto que este período histórico teve na vida de milhares de portugueses, sobretudos aqueles que se viram obrigados a abandonar as suas casas nas ex-colónias e vieram para metrópole. A história da minha personagem é muito dramática e dá-me a oportunidade de prestar homenagem a muitas famílias que viveram realidades duríssimas mas que cujo contributo foi determinante na construção de uma democracia em Portugal.

– Esteve sempre envolvido em muitos projectos artísticos em Portugal, inclusive no teatro D.Maria II e no Maria de Matos. Ser actor – aliás, artista no geral – está a tornar-se mais fácil ou mais difícil?

D.I. – Bem, penso que a classe artística em Portugal vive proporcionalmente as dificuldades que todo o país está a atravessar. Se por um lado a modernidade facilita o surgimento de novos artistas, já a crise global obriga a um esforço acrescido de criatividade para viabilizar projectos artísticos e carreiras a médio prazo.

– Faz sentido, neste contexto de crise, um actor olhar para fora? Para o universo lusófono, como Macau, por exemplo?

D.I. – Penso que faz todo o sentido olhar para o espaço lusófono e promover sinergias que viabilizem projectos de interesse comum. É nestes tempos de crise que temos que ser mais pró-activos e sair da nossa zona de conforto. No fundo há que lutar contra a apatia e procurar oportunidades de crescimento. Os modelos estão gastos pelo que temos que repensar os paradigmas das sociedades modernas. Acho que também é disto que nos fala Bogosian.

– Nunca esteve alheio da política. Como avalia a situação actual do país?

D.I. – É assustador ver como a sociedade portuguesa parece estar paralisada, sem forcas para o protesto, para a revolta, como um condenado que se resignou ao seu destino. A austeridade e os números crescentes do desemprego parecem uma inevitabilidade mas o que é mais preocupante é que todas estas medidas avulso negociadas com a Troika, parecem desprovidas de uma visão estruturada sobre o futuro, de uma política de base que nos devolva a auto-estima, as oportunidades de trabalho e a capacidade de sairmos sozinhos deste buraco!

– Como actor, que papel gostaria de interpretar e ainda não teve oportunidade?

D. I. – Cyrano de Bergerac.

– E, claro, a pergunta da praxe: que projectos anda a cozinhar para o futuro?

D.I. – Este espectáculo irá estrear em Lisboa em Julho e a seguir projecta-se uma digressão nacional. Fui convidado pela ETIC (Escola Técnica de Comunicação e Imagem) para coordenar e leccionar num curso de formação de actores que terá início em Outubro, com a duração de dois anos. Estou muito entusiasmado porque será a primeira vez que irei dar aulas com carácter regular. Acho que já tenho idade e sobretudo experiência para poder ensinar alguma coisa.

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