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“A era dourada do rock chinês ainda está para vir”

O rock’n’roll da China, ou em mandarim yaogun, está em pleno auge em termos de características e força num mercado musical que ganha maturidade. A era dourada do yaogun ainda está para chegar, mas desde o seu nascimento no final da década de 1980 até aos dias de hoje descobrimos uma constelação de músicos de rock chinês que inspira e agarra o público pelo ouvido. O presidente da Live Music Association (LMA) e DJ da TDM, Vincent Cheang, apresenta-a.

 

Stephanie Lai

 

– Depois de a banda de metal de Pequim Suffocated ter actuado na LMA em Abril, podemos contar com mais bandas do Continente em Macau este ano? A associação tem vontade de convidar mais bandas chinesas de algum género ou estilo particular?

Vincent Cheang – Bom, os Carsick Cars vêm em Agosto e a banda Zou You [literalmente “Esquerda Direita” em chinês] vem em Outubro, ambos estarão pela primeira vez em Macau. Os Pet Conspiracy também virão, mas ainda não há data confirmada. Há outra banda de metal, Twisted Machine, que é óptima e tem muita experiência em concertos ao vivo, com a qual estamos a conversar para perceber se pode vir cá tocar. Em termos de géneros e estilos músicos, mantemos uma postura aberta: desde que a música das bandas seja boa, convidamo-las a tocar aqui.

– Há alguma banda de rock chinesa que de que goste particularmente actualmente?

V.C. – As bandas de Pequim Escape Plan e Bigger Bang – ouvi-as em Pequim durante uma rodagem de dois dias de um programa da CCTV 5 sobre bandas de rock. Os arranjos melódicos são óptimos, e o estilo de ambas as bandas está mais próximo do estilo britânico. Numa primeira audição nem sequer nos apercebemos que são da China. Os Long Sheng Dao também são bons: são uma grande banda do Continente e quase a única com som reaggae e dub, misturado com elementos taoistas e uma instrumentação tradicional chinesa. A performance deles pode ser realmente muito intensa.

– Quais são os factores que contribuem para cena musical chinesa tão variada e rica?

V.C. – O mercado de massas e a sua dedicação à música. Este mercado é enorme quando as bandas estão em digressão: as digressões correm todo o país! E as bandas têm um bom apoio das editoras, como a Modern Sky de Pequim e a Pilot Records. Os músicos de lá não são como os jovens e amadores de Macau, são profissionais a tempo inteiro com grande dedicação e paixão pela música, e acreditam no que fazem. Na verdade, o mercado da música rock começou a crescer desde o tempo de Cui Jian, do Black Panther e dos Tang Dinasty. A música de Pequim tornou-se tão poderosa que a rádio Hong Kong Commercial Broadcasting produziu um programa especial só para transmitir o som aos ouvintes de Macau e Hong Kong. Não sucede apenas com o género yaogun, mas há muito boa nova música a surgir na China da qual o público local não faz a mínima ideia. Em termos de ouvintes, penso que as pessoas estão mais passivas que antes apesar das redes de informação actuais estarem muito mais expandidas.

– Por que diz que as pessoas estão mais passivas que antes? Tem que ver com a força dominante da pop de Hong Kong e de Taiwan?

V.C. – Sim. Por isso passo mais rock chinês de Hong Kong, Taiwan e Pequim no programa de rádio da TDM [“Men’s Live”, entre as 8h e as 10h à terça, quarta e quinta-feira]. O público daqui não é particularmente reactivo e pode perder o interesse muito rapidamente. Por exemplo, as entradas para concertos da LMA estão em queda. Ao longo dos três anos em que temos vindo a convidar bandas para actuar, a maior parte das vezes tivemos um público de apenas cerca de 40 pessoas. Mas o que esperávamos alcançar era ter 150 pessoas em cada espectáculo. A venda de bilhetes é uma fonte importante de receitas da nossa associação. Há grandes músicos e bandas chinesas que queremos muito convidar: Zuo Xiao Zu Zhou, Second Hand Rose, Queen Sea Big Shark. Mas a falta de capital e este problema com os bilhetes têm sido um grande obstáculo. Temos de descobrir como o ultrapassar.

– Quando se deparou primeiro com o rock chinês? E, agora, há diferentes opiniões a situar a “era dourada do yaogun”: alguns apontam para o final da década de 1980 ou início da de 1990. Qual é a sua opinião?

V.C. – Foi definitivamente com a “Nothing to My Name” (一無所有) de Cui Jian. Reparei na canção devido ao contexto do incidente de 4 de Junho [a repressão do movimento de estudantes de Tiananmen, em 1989]. Lembro-me que na altura não gostava muito do estilo musical de Cui, o que ouvia eram bandas como os Stone Roses, os Charlatans e os Happy Mondays. Mas talvez o incidente do 4 de Junho tenha criado uma relação emocional com a canção, o que levou à cena rock chinesa. Não digo que a “era dourada” do rock chinês tenha formalmente tido início até hoje, devido ao seu potencial de desenvolvimento infinito. O mercado da China é gigante, mas também é caótico e não tem regras que o guiem. Um dia o mercado da cena rock vai procurar o seu próprio caminho e crescer, tal como os da Europa e dos Estados Unidos. Mas, agora, numa altura em que toda a gente anda ainda à procura das regras do jogo e há espaço para crescer tanto a nível musical como de mercado, entendo que a era dourada do rock chinês ainda está para vir.

– O autor de “Red Rock: The Long Strange March to Chinese Rock & Roll”, Jonathan Campbell, refere que os seguidores chineses do “yaogun” acreditam na música de uma forma e têm um espírito que o Ocidente já perdeu. Concorda?

V.C. – Sim, concordo. Se pusermos uma baliza no ano de 1989, quando a música rock chinesa nasceu envolta num contexto social específico, vemos que apesar do país ser hoje mais aberto ainda há muitos constrangimentos sociais para os músicos, que sentem que têm de transmitir através da música aquilo por que passaram e como se sentiram. No Ocidente, a ideologia da música passou por uma era folk anti-guerra, pelo psicadelismo, pelo estilo de vida hippie, pelas paisagens sonoras electrónicas na década de 1980: a música tornou-se mais distante da sociedade e tornou-se puro entretenimento, e o rock’n’roll tornou-se um bem comercial. A China está bem longe de chegar a este quadro de desenvolvimento, e os seguidores do yaogun têm o desejo genuíno de tocar música rock.

 

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