Uncategorized

China super pop

A política invadiu o último século de música chinesa.

 

Carlos Picassinos

 

A música mais popular de sempre na China? “Chovisco”. Mas isso será hoje, porque logo nos primeiros anos de Deng Xiao-ping, o top disco era também o primeiro tema musical em que o recurso ao órgão electrónico fora autorizado. Chamava-se “Na Ilha do Sol” e os efeitos do hit, e de uma incipiente indústria discográfica e musical, foram inesperados. O governador dessa ilha do sol, na Manchúria, que o diga. Mas isso é já quase no final dos cem anos de música na China que, no Centro Cultural e Científico de Macau, em Lisboa, foram declinados, na semana passada, pelo antigo vice-ministro da cultura chinês, Chen Xiaogueng. Na verdade, uma lição de música que atravessou a história política da China no século XX.

Desde 1900 até aos anos que correm, o melómano identificou vários pontos altos da produção e da composição que quase sempre coincidiam com a história política do país. Não só os momentos mais evidentes como a queda do império, em 1911, ou a década maoista da Revolução Cultural (1966/76) mas também os tempos de abertura como 1978, ou 1919 e o movimento do 4 de Maio que se inscreveram como datas chave para o desenvolvimento de uma musicologia nacional. Foram também relevantes para o fenómeno de contágio do cânone musical chinês com expressões artísticas ocidentais ou japonesas. “Isso acontecia, normalmente, quando do regresso à China de estudantes ou intelectuais que estudavam e viviam no Ocidente”, explicou Chen.

 

A influência dos estrangeirados

 

As condições sociais e políticas do regime constituíram sempre um factor essencial para esse regresso. Foi o que aconteceu com a implantação da República e o fim das tradições imperiais da dinastia qing, em 1911. O fim do exame imperial e a proliferação de escolas e, depois, faculdades, dedicadas ao ensino da música foram uma alavanca para a consolidação da disciplina e formação musicais entre a população. Não que até aí a música fosse uma expressão confinada às elites. Pelo contrário, como disse de entrada o antigo ministro, “foi sempre uma arte popular, nas cidades e nas aldeias, entre jovens e velhos”. Acontecia era que o ensino da música estava concentrado e estratificado a um nível que inibia o desenvolvimento da composição e da interpretação e, mais em geral, de uma musicologia – e canto – enquanto expressão nacional chinesa. Mesmo com a abertura de 1911, a maioria das composições eram popularizadas por recurso a melodias ocidentais de que é exemplo a francesa “Frére Jacques”, de origem indeterminada, aplicando-lhe letras chinesas. A evolução da música arrastou por isso, também, a produção da literatura e de uma poesia de ambição nacional. Neste campo, a explosão social do movimento de 4 de Maio, de 1919, na sequência da rejeição pelas potências vencedoras da I Grande Guerra, do estatuto menor que a China gozava, veio dar chão às modernas ideias sociais e literárias defendidas pelo Kuomintang de Sun Yat-sen. Só no anos 20, o regresso paulatino de expatriados chineses e a constituição de escolas, conservatórios e orquestras de prestígio permitiram a formação de compositores, intérpretes e maestros. Em Xangai, o funcionamento de uma notável orquestra de músicos internacionais veio possibilitar o ensino a uma geração que seria decisiva, nos anos vindouros, para a constituição de uma arte nacional. Em Pequim,  em 1922, a Universidade inaugurou uma agência de investigação musical onde viria a pontuar o director Xiao Youmei que havia feito os seus estudos na Alemanha.

 

Cinema, guerra, nacionalismo

 

Neste historial, não é despiciendo o papel de uma arte então emergente e que se insinuava já como a primeira grande indústria cultural: o cinema. Inventado em 1895, em 1905, era já conhecido na China, e com o cinema mudo, vinha a música que o acompanhava nas projecções públicas. Com o cinema, haveria anos mais tarde de entrar no gosto popular também o teatro dramático como o Ocidente o entendia. Não, claro, o teatro-ópera que esse era já bem popular nos vários cantos do império, mas  o teatro-drama, a representação dramática no cânone ocidental, que em jeito musical, também  haveria de contribuir para uma viragem estética. Não seria necessário esperar muito tempo para que esse contágio entre estética e política fosse evidente. A invasão japonesa, em 1931, na Manchúria, foi o prato forte do impulso nacionalista que a produção musical chinesa conheceria praticamente até hoje. Canções patrióticas, heróicas, corais, de narrativas trágicas ou sentimentalismo melodramático invadiram o imaginário popular. Inscreveram-se como canções de salvação nacional que as peripécias das sucessivas guerras porque passou a China, e os vários regimes ao longo do século, só viriam reforçar. O próprio hino da República Popular remonta a essa altura – “A Marcha dos Voluntários”, composto pelo grande Nie Er, autor entre 1930 e 1935, de mais de trinta canções cujas melodias, nos ano setenta, ainda eram populares. É também da sua autoria o êxito “Grande Coro do Rio Amarelo”, um hino oficioso da unidade chinesa e do nacionalismo anti-japonês. “Um marco na música chinesa dos últimos cem anos”. E havia temas de título tão inflamado quanto bizarro: “Escravos emancipados cantam canções”; “Na pradaria, o sol nunca se põe”; “Quero extrair petróleo para a pátria” ou, ainda, “Cavalo, abranda, por favor!”.

 

O ultraje

 

Depois da II Guerra e já após a constituição da República Popular, em 1949, os anos cinquenta, como no Ocidente, apresentaram-se como os anos dourados da canção chinesa. Regressa o tempo das grandes orquestras, as escolas e os coros, e uma novidade que se radica, a radiodifusão. A rádio é um dos grandes veículos da nova música chinesa com potencialidades desconhecidas, fábricas de êxitos e de imaginário. O cinema também começa a divulgar as óperas tradicionais que assim se tornam um género de maior acesso ao público dos campos e das embrionárias cidades.

Se os anos cinquenta significaram a ressaca da guerra e a euforia de uma nova pátria, a década seguinte foi de retrocesso e estagnação. O próprio conferencista declara  os dez anos da revolução cultural como uma anomia reinante. “As pessoas deixaram de cantar as músicas que eram mais populares e começaram a cantar passagens e citações do livro de Mao. Cantavam editoriais de jornal. Lembro que havia um texto com mais de mil caracteres que também se cantava. Enfim, era um ultraje à música”, rematou.

Por isso, também neste campo, os anos de Deng Xiao-ping significaram reforma e abertura. E é aqui que o tal hitda ilha do sol, ao largo da Manchúria, apanha descalço o governador da província. Foi o próprio conferencista que, no final dos anos setenta, escrevia na revista “Canção” revelou ter participado num inédito concurso, em colaboração com a rádio central da RPC, para eleger a mais popular de música de sempre na China. Sem esperarem, os organizadores do concurso foram surpreendidos pela adesão. Milhões de votos chegaram à sede da revista e o apuramento teve de se socorrer das mãos do Exército Popular e de milhares de escolas. O resto já se sabe. “A Ilha do Sol” foi a grande vencedora e o governador de Harbin foi apanhado descalço. Mas depressa reagiu. Investiu na decadente ilha ao largo da província e transformou-a num destino turístico nacional. Foi um pioneiro, um dos primeiros a experimentar o perfume inefável do capitalismo, e logo à boleia de um festival da canção. Isso foi em 1978, cantava Portugal “Papagaio voa”. Hoje, “A Ilha do Sol” já não brilha. No top das músicas mais populares de sempre reina um anódino “Chovisco”. Antes fosse o delico-doce canto-pop, ou, mais simplesmente, “doce, era uma manhã de inverno”. Bem bom.

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s