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O yaogun descobre o rock’n’roll

Stephanie Lai

Uma década de imersão no centro do universo do rock chinês, Pequim, permitiu ao escritor e promotor musical Jonathan Campbell fazer a crónica da cena musical do Império do Meio, da história que a produziu até à constatação de que o “rock vermelho” está a reanimar o espírito do próprio rock’n’roll.  Fresco, jovial e acutilante, o relato do cronista é uma leitura divertida e ao mesmo tempo séria para perceber o essencial do rock chinês.

Um encontro casual com a bela música folk dos Wild Children, em concerto no Oak Club de Pequim em 2000, resultou em que Campbell acabasse por envolver-se e descobrir mais magia e beleza na música rock chinesa – ou, como se diz em mandarim, yaogun.

Jonathan Campbell era um recém-chegado depois de ter terminado um programa de mestrado em Estudos Internacionais em Washington, e pretendia aprender mandarim em Pequim. O encontro musical no Oak Club marcou a seguinte experiência de imersão na cena do yaogun: primeiro, como baterista de várias bandas, depois como promotor musical e agente, produzindo concertos e festivais no país ao mesmo tempo que escrevia sobre música para publicações internacionais.

Pode o yaogun da China ser simplesmente categorizado e distribuído pelas discotecas de world music, entre as produções do rock em geral, do jazz, da folk, do funk e do blues? Ou, com as suas qualidades únicas, o rock chinês merece tratamento diferenciado e uma secção independente nos arquivos da música? São as questões colocadas por Campbell na obra “Red Rock: The Long Strange March of Chinese Roc & Roll”.

Quando se fala das qualidades únicas do yaogun, num período muito curto – se usarmos como referência temporal de uma primeira forma do yaogun meados dos anos 1980, quando “Nothing to My name” de Cui Jian soava nas frequências da rádio – refira-se que o país começou a absorver o essencial da música rock ocidental a criar a sua própria arte através da adopção de instrumentos de diferentes províncias, de formas de performance e de uma crítica e reacção à paisagem social e política do país.

Apesar da questão de arquivo musical colocada por Campbell, a vitalidade do yaogun e a necessidade do mundo de o compreender são inegáveis. O rock chinês envolveu a juventude, e as pessoas que o produziram fizeram com que Campbell, e outros, sentissem que o rock’n’roll tem o poder de mudar o mundo, e que, como diz o autor de “Red Rock”, os seguidores do rock chinês “estão a acreditar em Algo e a fazer Algo” – um espírito que o rock ocidental seu progenitor pode ter já esquecido.

O que não se deve perder para além de Cui Jian

Esqueça todos os elogios e divagações sobre como o guru do yaogun, Cui Jian, é maravilhoso na sua música e influência exercida. A lista de boa música da folk e do rock chinês (ou a mistura orgânica de todos os géneros possíveis) pode ser interminável, quer se trate velhas ou novas bandas emergentes. Pode já se ter deparado com algum dos nomes abaixo. E, caso não os conheça, pegue nos auscultadores e sinta as ondas vermelhas que têm o poder de derreter ouvidos, pondere sobre elas ou dance com elas.

Zuo Xiao Zu Zhou (左小祖咒)

Género: Rock/Avant Garde

Irá amar ou odiar imediatamente esta lenda do yaogun por causa da quebra melódica inesperada e de uma desafinação vocal deliberada. Por vezes, faz quem o ouve recordar-se de Lou Reed, ou memso Tom Waits, mas o encanto musical de Zuo xiao Zu Zhou está nas letras crípticas, absurdas, mas também pungentes. Conhecido pela sua contribuição para a música dos vídeos do artista plástico Ai Weiwei, os trabalhos de Zuo, como “The Missing Master” e “You Know Where the East Is”, exercem há muito uma influência intemporal.

Canções-chave:  “I Can’t Sit Sadly by Your Side” (我不能悲傷地坐在你身旁); “Da hua pen zi” (大話噴子); “Way to Hell” (黃泉大道); “Methodology” (方法論); “Ah Si Ma” (阿絲瑪).

SUBS:

Género: Garage-punk

SUBS, “a banda mais procurada em concerto na China”. Bom, quer se trate de fãs e imprensa nacional ou internacional, todos querem abraçar esta banda de rock hardcore. A pura energia nuclear do líder e vocalista dos SUBS, Kang Mao, e dos músicos que o acompanham confirma um estilo e uma batida inimitável.

Canções-chave: “Strange country”; “Walk into your Shadow”; “down”; “brother”.

Carsick Cars:

Género: Indie

“Zhongnanhai, Zhongnanhai… fumo apenas Zhongnanhai. Não posso viver sem Zhongnanhai”. Para além dos ataques atrevidos das letras, esta banda popular de Pequim – que já abriu um concerto de Sonic Youth em 2007 – tem de uma assentada os sons mais refrescantes e joviais da cena yaogun.

Canções-chave: “Zhongnanhai”; “Panda”; “Mogu”; “Zhi yuan de ren” (com o significado literal de “voluntário”);“You Can Listen You Can Talk”.

PK-14:

Género: Post-punk

O líder dos PK-14, Yang Haisong, um tipo de aparência geek, pode surgir perante o público como tendo a imagem de um típico estudante esforçado. Mas Yang, de Nanjing, é capaz de compor música poética com letras de tipo introspectivo e intelectual que sensibilizam os jovens para as questões mais importantes da sociedade, sempre apoiado pelos riffs orelhudos e poderosos.

Canções-chave: “How Majestic is the Night” (“Duome Meimiao De Yewan”); “The Talking Wound” (“Shuo Hua De Shangkou”), “You Know” (“Ni Zhi Dao”).

Wild Children (野孩子):

Género: Folk Rock

A música folk do noroeste da China nunca foi tão livre, serena e bela como a que é cantada pelos Wild Children, com arranjos graciosos e uma percussão firme e clara. Independentemente da mensagem transmitida pelas palavras, a música em si apresenta-se como uma corrente clara que preenche a mente.

Canções-chave: “Incantation” (咒語); “Yellow River Ballad” (黃河謠); “Wild Children” (野孩子); “Looking northward” (眼看著北方).

Lonely China Day (Jimo Xiari):

Género: Post-rock, experimental

A poesia da dinastia Song que inspira as letras, os cuidadosamente trabalhados sons da guitarra de Deng Pei e Wang Dongtao, o vocalista, compõem este conjunto de post-rock único, de Pequim, que até aqui ninguém conseguiu ultrapassar.

Canções-chave: “Sorrow”; “This Readily Assimilative People”; “Summon My Spirit at Lotus Pond”; “The Mutterer”.

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