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Muito além do souvenir

Com uma dúzia de produtos diferentes, parte deles tradicionais portugueses, a loja da MO-Design junto às Ruínas de São Paulo vai de vento em poupa. Desde que abriu, há dois meses, “as vendas duplicaram”. A dupla de criadores explora agora a loja do gato, onde produções de designers locais vão ganhar palco.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Abriram uma loja no local mais nobre da cidade, têm projectos em Pequim e agora exploram a C-Shop – o pequeno edifício da autoria de Carlos Marreiros, conhecido como “O Gato”. A dupla Hong Chong Ip e Chao Sio Leong tem ganhado terreno no panorama do design local, concorrendo com marcas como a Macau Creations.

Em entrevista ao PONTO FINAL, os criadores da MO-Design deixam duras críticas aos cursos do território, mas mantêm a esperança num “futuro promissor”, devido a uma nova geração “entusiasta e criativa”.

– Abriram há pouco loja junto às Ruínas de São Paulo, uma zona muito nobre da cidade, têm um projecto em exposição em Pequim e exploram agora a C-Shop. A MO-Design parece ser a grande dupla do momento. Como é que tudo começou?

Hong Chong Ip – Eu e o Chao [Sioleong] conhecemo-nos na universidade e participámos em muitos concursos juntos enquanto estávamos a estudar. Por isso, no fim do curso fez sentido juntarmos forças e formarmos uma dupla de designers de Macau.

– Quando é que isso aconteceu?

H.C.I. – Há dois anos.

– A loja abriu há dois meses. O que estavam a fazer antes?

H.C.I. – Projectos de design, branding. Em Macau e por vezes lá fora. Temos clientes em Tóquio, Londres.

– Há algum projecto conhecido da vossa autoria em Macau?

H.C.I. – O pavilhão da Macau Creative em Shenzhen [na Feira Internacional de Indústrias Criativas].

– Qual é o conceito por detrás da loja da MO-Design?

H.C.I. – Devido a localização junto às Ruínas, é uma loja sempre cheia de turistas. Por isso mesmo a ideia foi criar produtos que fossem facilmente aceites pelos turistas e promover o consumo rápido, com preços acessíveis. É uma loja de souvenirs mais sofisticada.

– Tem algumas semelhanças com a Macau Creations, que fica mesmo do outro lado da rua. São concorrentes?

H.C.I. – Eu e o Wilson [Lam], fundador da Macau Creations, somos bons amigos. Mas sim, de certo modo somos concorrentes.

– Acha que há espaço para duas marcas deste género?

H.C.I. – Na verdade, acho que deviriam existir muitas mais, não apenas duas. O que a Macau Creations está a fazer não se inclui bem na mesma categoria que o trabalho da MO-Design. A Macau Creations usa o trabalho dos artistas locais e aplica-o a produtos. Nós pensamos primeiro no produto e depois desenvolvemos todo o conceito de design.

– Mas também recorrem a artistas locais?

H.C.I. –  Sim, sim. Trabalhamos com vários designers mais jovens.

– Quiseram elevar o conceito do souvenir?

H.C.I. – Criámos uma loja que acreditávamos que iria vender. A nossa preocupação principal não é criar produtos muito sofisticados ou super criativos que ninguém percebe. Isto neste sector, porque se destina essencialmente a turistas. O objectivo é criar produtos que têm uma influência de Macau mas que são facilmente aceites pelo público em geral. Mas são todos criados cá.

– Que balanço fazem destes primeiros meses?

H.C.I. – Têm sido muito bons. Antes o espaço era ocupado pelo pavilhão das indústrias criativas de Macau. Desde que chegámos, as vendas duplicaram.

– Há algum item de que gostem especialmente?

H.C.I. – Há dois que achamos que se destacam. O “MO Fest”, que consiste em imagens de festivais tradicionais de Macau – as imagens foram modernizadas e tornadas mais divertidas em termos gráficos. Fizemos também t-shirts e malas com essas imagens. O outro produto de que gostamos muito é o “MO Stamp”, que também usa essas imagens, mas em carimbos que podem ser aplicados em postais. Há tantas combinações diferentes de carimbos, que a pessoa que os usa está também a criar algo. Esse projecto [das imagens de festivais tradicionais] envolve 12 estudantes de design do Instituto Politécnico de Macau e o designer principal é o Nono Leung.

– A ideia de começarem com objectos deste tipo faz parte de uma estratégia para sensibilizar e habituar o mercado de Macau a produtos de design?

H.C.I. – É exactamente essa a nossa intenção.

– Têm também vários produtos portugueses. Porque é que decidiram vendê-los?

H.C.I. – Macau e Portugal têm uma ligação muito próxima. Foi aliás um amigo português que me ajudou a trazer os produtos de Portugal. São óptimos para vender naquele sítio.

– Alguns dos produtos também estão à venda na Mercearia, no Albergue. Têm algum tipo de parceria com eles?

H.C.I. – Sim, estamos a cooperar com os donos da Mercearia. O Ivo e a Margarida estão a encomendar mais produtos de Portugal para a loja MO-Design. Esperamos no futuro vir a ter mais produtos portugueses.

– Nota que é algo que os turistas apreciam?

H.C.I. – Sim, especialmente os japoneses e os coreanos.

– A Mo-Design foi seleccionada para participar numa exposição em Pequim, com um projecto de vídeo. Só três trabalhos de Macau vão estar na “What Ever You Want”. Que importância é que a distinção tem para vocês?

H.C.I. – Neste momento não estamos a olhar particularmente para Pequim. De qualquer forma estamos muito habituados a participar em exposições, não é nada de especial.

– Conseguiram agora a exploração da C-Shop, um espaço que há cerca de dez anos que não tem função. Porque é que decidiram participar no concurso público?

H.C.I. – Em primeiro lugar, esta é uma óptima localização, mesmo no centro de Macau. Achámos que seria um excelente espaço para começar uma loja com produtos de moda. É também um bom sítio para promover designers locais – esse é, aliás, o nosso objectivo principal: primeiro promover os designers de Macau e depois tentar entrar em contacto com os designers do estrangeiro.

– Além da colecção actual, do designer Robert Lai, já têm outros nomes pensados?

H.C.I. – Sim, o próximo será Nono Leung, que desenhou os carimbos da MO-Desing. Somos amigos há muito tempo e gosto muito do trabalho dele. É uma boa colaboração para o início.

– Como avalia a qualidade do design produzido em Macau?

H.C.I. – Tenho visto muita gente nova que é entusiasta e criativa e está decidida a integrar esta indústria, tanto em design como noutras indústrias criativas. O futuro é promissor.

– Macau tem condições para se tornar um centro de design?

H.C.I. – Isso seria muito difícil. Essa pergunta deve ser feita daqui a 20 anos.

– Estudou no Instituto Politécnico. Em termos de formação, como avalia os cursos de design do território?

H.C.I. – As escolas de Macau estão com 20 anos de atraso, em comparação com as de França, Itália ou Estados Unidos. A percentagem de estudantes que são bem sucedidos é muito baixa.

– Em que é que os cursos estão a falhar?

H.C.I. – As escolas não prestam, todo o sistema que as gere não presta. Há muitos cursos diferentes de design que se podem tirar em Macau mas essencialmente são todos uma porcaria. Aquilo que os estudantes fazem para a MO-Design acaba por ser melhor do que irem para as escolas de design, porque podem fazer trabalho real, conhecem o mercado, os custos, todo o processo.

 

Robert Lai nas vitrines da C-Shop

 

Actualmente a C-Shop é ocupada maioritariamente pela colecção “obése•plein in C”, do designer de moda Robert Lai. No rés-do-chão estão os óculos de sol, jóias e acessórios e no primeiro andar a roupa e sapatos, onde o preto impera.

Há dois anos que Lai comercializa as suas criações em Hong Kong, tendo esta clecção sido já apresentada no território vizinho no ano passado. Os preços variam entre 690 patacas por uma t-shirt e 3800 por um casaco.

O designer faz um balanço positivo das duas últimas semanas, desde a abertura da loja: “As pessoas têm entrado bastante e compram”. No entanto, Lai reconhece que as novas marcas enfrentam dificuldades em vender, não por questões financeiras mas de gosto. “Compram muita coisa, muito Louis Vuitton. Mas não estão muito interessadas neste tipo de coisas. Os jovens designers podem facilmente sobreviver no estrangeiro, mas em Macau e na China é difícil, porque as pessoas querem grandes nomes. Eles têm dinheiro, não se queixam no preço, mas querem algo conhecido, não algo novo”, conta.

Lai acredita que este panorama pode mudar, com o contributo de mis cursos de design e eventos a acontecer em Macau, mas reconhece que é um processo demorado. “Levou uma eternidade a Hong Kong”, lembra.

Hong Chong Ip e Chao Sio Leong, da Mo-Design, ciraram, junatmente com Robert Lai, a marca de roupa “C”, ainda em edição limitada. No futuro, estes produtos deverão multiplicar-se e ocupar mais espaço na C-Shop.

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