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Não há voos directos até à lua

Esqueçam os clássicos, o que se ouve à meia luz nos bares dos hotéis, as palminhas bem comportadas. Angelita Li toca onde os outros não tocam: Herbie Hancok. O encontro com jazz sem fronteiras acontece hoje, na Casa Garden.

Sónia Nunes

É uma energia intensa, criativa, arriscada aquela que se espera criar esta noite, a partir das 22h00, na Casa Garden, pela mão da nova direcção do Jazz Club de Macau e pela voz curiosa de Angelita Li. “O que fazemos não dá para ser feito em hotéis”, avisa em jeito de convite, a cantora que chega de Hong Kong, com um mundo sem fronteiras no som e que quer mergulhar nas águas mais profundas e menos navegadas do jazz – de preferência com companhia. “Venham, venham todos. Vai ser interessante, diferente”, diz.

Angelita Li apresenta-se em Macau com mais quatro músicos que se acertam numa “mistura de géneros diferentes, de fusão” e que toca num dos mais importantes pianistas de jazz, tido com uma das principais forças criativas que abriu novos caminhos à música popular norte-americana: Herbie Hancok. No repertório anda ainda Chick Corea, que também fez parte da banda de Miles Davis, e um surpreendente Milton Nascimento. Angelita Li, que entrou em estúdio pela primeira vez aos nove anos para dar a voz a anúncios publicitários para televisão, estudou samba em Los Angeles e os discos que ouvia em casa dos pais quando era miúda.

“Temos ainda um samba muito, muito, antigo e algum jazz velhinho, não muito popular, dos anos de 1940. É o que fazemos. É este o nosso repertório porque achamos que é o que as pessoas devem ouvir. São os maiores”, explica Angelita Li, enquanto imagina uma estação de rádio a passar as músicas que poucos ouvem. Há uma intenção pedagógica? “Só sei que me sinto muito bem quando oiço este tipo de música. Se consigo dá-la, partilhar esta sensação, fazer com que as pessoas sintam o que estou a sentir com uma música mais obscura, penso: ‘Espectacular’. Basicamente é isso, acho que as pessoas devem sentir o mesmo que eu”.

A partilha é um dos conceitos fundamentais no jazz e Angelita Li nasceu numa família de músicos. Em casa, vibrava “aquela música de fusão dos anos de 1970” e “Herbie Hancok era grande”. “Sempre vi os meus pais a ensaiar, a improvisar. Estávamos sempre a ouvir estes discos em casa. Mas ninguém os toca ao vivo, em palco. Nos clubes, ouve-se os temas mais populares, os “Fly me to the moon” e tudo isso. Ninguém explora esta dimensão. É o que nós fazemos”, destaca.

Mas Angelita Li, que “sempre quis ter uma banda própria” (e teve a primeira na Tailândia, onde viveu durante cinco anos na década de 1990), lá foi encontrando artistas que, como ela, andavam virados para “música mais obscura”. “Felizmente, somos músicos e tendemos a conhecer pessoas de todo o mundo, ouvir a música que eles tocam. É apenas justo que nós o mostremos, sobretudo aqui”, vinca.

“O que fazemos é demasiado intenso para hotéis e coisas assim. É um showcase. Não é um momento de entretenimento para levar as pessoas a meter os braços no ar”, continua, entre risos, Angelita Li. “Só quero tocar estas músicas e apercebo-me que não há assim tanta gente, ou mesmo ninguém, que toque este repertório”, reforça.

Angelita Li, que anda a “fazer isto nos últimos 20 anos”, juntou-se aos quatro músicos que a acompanham até Macau há apenas uns meses e ganhou vontade de começar a escrever músicas originais. “Temos uma ligação muito, muito boa. Quero voltar aonde comecei, a estar com músicos que se juntam e criam algo de novo”, diz. Mas é em palco que a cantora mais sente “a energia da banda”. “Se estivermos mesmo lá, se projectarmos o que estamos a sentir quando estamos a tocar, o público sente. Não sou se dizer: ‘Ei, levantem-se, batam palmas. Deixo que ser a música falar. A música vem em primeiro lugar, é por ela que fazemos tudo isto. Para as pessoas a ouvirem, para que ela entre no ouvido”, remata.

 

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