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“Para ser um bom escritor é preciso sujarmo-nos”

A escritora taiwanesa Lolita Hu volta a Macau este fim-de-semana. A autora volta com um conto que descobre a China e Portugal nas personagens de uma mulher desencantada e um jovem gigolô – respectivamente. E fala sobre as viagens que a levam ao encontro do outro. Está amanhã na Livraria Portuguesa, às 18h.

Maria Caetano

– Estará na Livraria Portuguesa este fim-de-semana para falar de um seu livro de contos, “She”,  uma colecção de histórias de mulheres asiáticas. Em que contexto surgem as histórias destas mulheres e qual a relação que têm entre si?

Lolita Hu – Escrevi este livro há dez anos, entre 1999 e 2000. Fi-lo porque na altura tive muitas oportunidades de viajar na Ásia. Sou de Taiwan, mas sou chinesa. O problema é que, quando falamos da Ásia, pensamos apenas em nós próprios. Sem nos apercebermos que, quando falamos desta ideia geográfica, falamos de um enorme continente com oceanos, montanhas e rios. É uma área muito fragmentária, temos imensas nações, falamos diferentes línguas e temos aparência diferente. Quando crescia apercebi-me que era dominada por uma ideia sobre como olhar o mundo. Falando sobre a Ásia, fazia-o da mesma forma que um europeu fala da Ásia, sem ter consciência de que me referia ao Japão, e também à Tailândia e até à Índia. Ao viajar também me dei conta de que a Ásia foi sempre escrita pelo Ocidente e que, quando os asiáticos escrevem sobre a Ásia, normalmente escrevem sobre si próprios. Não escrevemos uns sobre os outros. Quando se escreve sobre o outro é possível cometer erros culturais e subconscientemente usar os nossos preconceitos. Mas é um processo. Conhecer o outro implica cometer erros, descrevermo-nos, compreendermo-nos. Era bastante jovem, esse livro foi como descobrir a minha própria identidade, como restabelecer o meu próprio grupo na terra de onde vim. Escrevi sobre mulheres que viviam em Banguecoque, Mumbai, Nova Deli, Xangai, Pequim, Tóquio, Hong Kong, Taipé, Kuala Lumpur, Singapura. Escolhi mulheres que vivem em cidades modernas, que estão a moldar o seu próprio destino e a ajudar a construir a sua própria sociedade. Têm lutas humanas normais, universais.

– Fez todas essas viagens durante esse período? Investigava deliberadamente ou acabou por deparar-se com histórias que queria escrever durante o percurso?

L.H. – O meu trabalho nos media levou-me a várias cidades e também nas férias viajava sempre. Estamos sempre curiosos sobre o que nos está distante e, quando era mais jovem, sempre que tinha a oportunidade de viajar queria ir a Paris ou a Nova Iorque. Queria ver algo diferente de mim. Depois de terminar a minha educação e começar a trabalhar, pude viajar pela Ásia. Apercebi-me que dava por adquirida a ideia de Ásia. Pensava que por ser asiática conhecia a Ásia – algo talvez arrogante. Especialmente no caso da população chinesa acho que cometemos um erro enorme. A cultura chinesa é tão imensa e dominante, é uma civilização da Ásia, ao ponto de no Japão procurar traços chineses – os caracteres da escrita. As pessoas chinesas têm tendência para ignorar e negligenciar a diferença. É como as pessoas ricas que dão a volta ao mundo e que, porque toda a gente hoje fala em inglês, julgam que conhecem o mundo. É arrogante. Com o meu pequeno livro quis dar um pequeno passo.

– A literatura chinesa está muito envolvida consigo própria, e com a ideia da China?

L.H. – Acontece porque somos enormes. Somos uma civilização muito antiga e poderosa. É um pouco como o que acontece com a América, não a podemos censurar, é um país muito grande e poderoso. A China também foi assim e transporta essa confiança cultural para os tempos modernos. O nosso estatuto social pode ter retrocedido, mas a nossa confiança cultural não mudou. É esse problema.

– É o exemplo de uma autora chinesa à procura do outro na sua obra. Vê outros casos?

L.H. – Julgo que não e é por isso que o faço. Tenho duas vantagens que talvez outros escritores não tenham. Uma dela é que sou taiwanesa, como gosto de sublinhar. Sou de uma sociedade muito pequena cujo estatuto não é sequer reconhecido pelas Nações Unidas. Quando viajo ninguém sabe quem eu sou, que tipo de passaporte tenho. Em segundo lugar, sou mulher. Sou obrigada a ouvir pessoas e obrigada a observar pessoas. Porque as outras pessoas são mais fortes e poderosas do que eu. Tomemos como exemplo um autor excepcional de Pequim, as pessoas vão automaticamente interessar-se por ele ou por ela se têm interesse por literatura chinesa. Mas não vão necessariamente interessar-se por mim que não represento ninguém. A China está com um grande enfoque cultural, vão querer ouvir estes autores. Eu faço parte da cultura e da literatura chinesa, mas sou marginal. E ao lidar com estes tópicos estou a lidar comigo própria.

– Mas, do ponto de vista do objecto da literatura, é importante fazer esta opção pelo outro ou por si próprio?

L.H. – É um tema literário dos tempos modernos. Depois da II Guerra Mundial, o mundo inteiro assistiu a uma grande migração. As pessoas foram forçadas a abandonar os seus países para fugir à guerra. Na China, também depois da guerra civil, as pessoas foram obrigadas a partir e acabaram todas em Taiwan, em Hong Kong, nos Estados Unidos. Da Europa muitos mudaram-se para a América. No final do século XX, a literatura de migração e a globalização obrigaram-nos a examinar quem somos. Claro que a literatura faz sempre essa pergunta e é por isso que começamos a escrever. Mas actualmente é ainda mais complicado. As pessoas têm diferentes passaportes, vivem em sítios diferentes. E isto é algo com que, mais cedo ou mais tarde, a literatura chinesa vai ter de lidar. Nos séculos XIX e XX, por certo que a literatura chinesa tinha de lidar com os seus próprios problemas – o país estava devastado. Agora, a China está maior, mais forte, mais rica. É forçada a lidar com os outros, e não apenas com a América. Com os outros e consigo próprios: Como lidar com o Tibete? Como lidar com Xinjiang? Há tantas minorias na China. O país não pode limitar-se a dizer ‘somos chineses’ e ignorar as diferenças, as gradações culturais. O que escrevemos tem de lidar com isso.

– Com este tipo de preocupações em mente, que impacto teve Macau em si?

L.H. – Para minha vergonha, vivi 12 anos em Hong Kong e estive em Macau duas ou três vezes durante todo esse período. Quando este ano participei no festival literário, para meu encanto e surpresa – e também para minha vergonha novamente –, dei-me conta que há um comunidade cultural underground que desconhecia de todo. Senti uma ligação imediata com os meus amigos portugueses e de Macau. Ao estar sob a sombra de Hong, há muitas pessoas que não se apercebem que Macau tem uma identidade, uma cultura e uma forma de pensar próprias. Cometi o mesmo erro quando vivi em Hong Kong, uma cidade tão grande e próspera, que ensombra Macau. Escrevi sobre tantas cidades e não escrevi nada sobre Macau. É um exame que falo e é importante pensar nestas coisas.

– As pessoas de Macau carregam a etiqueta de viver num ‘encontro de culturas’. Sentiu isso na cidade?

L.H. – Sim, claro. Enquanto turista deparei-me com isso na arquitectura, no estilo de vida e na comida. É fácil perceber que as pessoas são uma mistura de tudo. Não conhecia na verdade ninguém. É por isso que quero falar sobre “She”: porque se queremos falar sobre uma cidade temos de falar das pessoas que vivem nela. A minha escrita tem uma perspectiva demasiado abrangente. Daí que escolha mulheres com quem posso falar facilmente e também comparar-me, sou uma referência mais fácil para entrar no mundo delas. Daí também que diga que já tinha estado em Macau mas que não conhecia Macau – porque não conhecia pessoas.

– Está a escrever um conto sobre Macau. Julgo que falará dele na Livraria Portuguesa. O que pode dizer sobre ele neste momento?

L.H. – Não sei se alguém gostará dele. Não queria escrever sobre histórias antigas, escolhi uma história moderna. Na minha história há uma mulher chinesa moderna que, obviamente, faz aquilo que a maioria dos chineses faz quando visita Macau – vão jogar, lavar dinheiro e comprar tudo. Esta mulher vai a um casino de hotel e encontra um jovem português. A história é curta, portanto o contraste entre eles sobressai muito rapidamente. Parecerá um encontro entre um homem português jovem e uma mulher chinesa mais velha, mas com o contraste imediato do contexto dos seus países visível na conversa entre eles. Portugal foi um império, tal como a Espanha, estava habituado a brilhar, mas a luz apagou-se. A China também brilhava e apagou-se, mas está a prosperar agora – embora de uma forma muito vulgar, obviamente. A vulgaridade dessa prosperidade, infelizmente, é muito forte e visível em Macau. Lamento por Macau – que claramente beneficia da ascensão da China mas tem de lidar com esta vulgaridade.

– A sensualidade e o amor também lhe interessam enquanto tema literário?

L.H. – Não sei bem como dizer. Mas na verdade o homem português deste conto é um gigolô e ela é uma mulher rica habituada a comprar tudo. Será um contraste interessante. Tentei pôr também um pouco de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, uma certa obsessão por um corpo jovem. Esta mulher é rica agora, mas passou pela Revolução Cultural e muitos períodos difíceis na China. É rica, mas já perdeu tudo, a juventude, a inocência, tornou-se muito cínica e agora tenta comprar o amor de um homem jovem. Tento abordar o assunto. Naturalmente, uso mais o português para falar da China.

– A modernidade, a globalização, a identidade são temas recorrentes do seu trabalho. Mas, pelo seu percurso profissional nos media, em que dirigiu revistas masculinas como a Playboy, e até pelo nome que escolheu para si, as pessoas esperam de si uma literatura do tipo sensual?

L.H. – Na verdade, não. Tinha apenas 27 anos quando aceitei o cargo na Playboy por curiosidade. Não sei porque me ofereceram o cargo. Sou uma jovem mulher, tive curiosidade e aceitei-o. Mas, no mundo em vivemos, eu poderia ter-me tornado numa celebridade instantânea se exibisse o meu rosto jovem e o combinasse com o nome Playboy. Causaria sensação. Mas nunca explorei essa situação. Quero apenas espreitar mundos diferentes, e aquele trabalho deu-me essa oportunidade. Para um escritor, é importante conhecer tudo sem preconceito. Podemos julgar depois de já sabermos alguma coisa, mas não antes. Aceitei o trabalho e continua a escrever comentários para jornais, mas nunca pus a minha fotografia. Apenas a divulguei recentemente. No início da minha carreira, muitas pessoas julgavam que eu teria 50 anos. Gosto disso. Acho que as mulheres não devem ser etiquetadas. Sabemos que há imensas mulheres a escrever sobre a sexualidade, sobre os seus próprios corpos. Faz parte da consciência feminina, encorajo isso. Mas, de certa forma, muitas publicações e leitores vêem essa escrita corporal como uma escrita de sensações. Sinto que se uma escritora optar por escrever sobre a sua sexualidade, isso está bem. Mas se não for cautelosa não será diferente de uma rapariga na capa da Playboy. E não tenho qualquer juízo moral sobre isso, sobre a nudez. Mas não vamos misturar as coisas. As pessoas procuram o choque e a sensação e são livres de fazer o que quiserem. Apenas não gosto de hipocrisia, que se diga ‘isto é pornografia, mas o que faço é arte’. Mas não tenho qualquer problema com a pornografia.

– Estudou teatro, viajou, trabalhou nos media e é escritora. É flexível naquilo que quer fazer ou vê-se essencialmente como escritora?

L.H. – Desde criança que queria ser escritora. Mas, como mulher oriunda de uma família de classe média, a infância foi muito segura. Não penso simplesmente que ler e escrever é suficiente. Para sermos escritores completos é preciso viver a vida, observar pessoas, interagir, para que a compreensão da vida e a empatia com os outros sejam mais genuínas. Estou grata pelas minhas escolhas. Fico muito orgulhosa por dizer que sei, aprendi muito rapidamente, a não fazer juízos imediatos. Se não aceitar um trabalho, conhecer muitas pessoas, se não me forçar a sair, serei uma mulher que está sentada no seu escritório a sentir-se muito bem consigo própria apenas. Não é suficiente adorar ler Shakespeare e citar Sartre. Para ser um bom escritor é preciso também sujarmo-nos, ir para a rua, conhecer a vida. É a minha forma de viver a vida para poder ser mais rigorosa nas observações que escrevo.

 

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