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“A violência como estética agrada-me”

João Ricardo Pedro, fenómeno literário na sua estreia com “O Teu Rosto Será o Último”

Carlos Picassinos

De partida na Gare do Oriente, com a bagagem do viajante em mão, João Ricardo Pedro encontra um furo para esta conversa que, combinado, não começará por referir a condição laboral do vencedor no ano passado do Prémio Leya, um dos maiores galardões literários da lusofonia. Não falará dessa condição que, perversamente, o catapultou para o céu da literatura quase mais que o actual  sucesso de vendas, “O Teu Rosto Será o Último”. Seis edições, vinte mil exemplares vendidos e já com promessa de publicação, a partir de Setembro, no Brasil e em todos países de língua portuguesa. Livro de estreia e logo um estouro editorial, uma fulguração, uma cambalhota na vida de João Ricardo Pedro. Um homem sai de casa, armado, numa madrugada fria. Sai para um passado que não passa, para um país que não acabou com a guerra colonial nem, no fundo, com a repressão fascista. Sai já, sem o saber, para um país em esperança escrito, ao longo de centenas de páginas, em sonatas de Bethoven. São as memórias de um médico, as de um jovem pianista, com madrinhas de guerra e comissões em África e outras palavras que, entretanto, ficaram esquecidas sob o pó da democracia. Mas onde é que nós íamos? De partida na Gare do Oriente, com a bagagem do escritor na mão a falar da União Soviética, do Europeu de 88, da Festa do Avante, e da feira do livro. “Humm, isto não é malta para ler Lobo Antunes”. E Cardoso Pires que lhe parece? Uma referência, como Lispector ou Machado de Assis. De Saramago, só “O Ano da Morte…”, génio mas sem qualidades, espeta. E o 25 de Abril, como é que lhe apareceu assim? Um mistério da criação. Mas o menino é de esquerda? “Bem, todos os livros são políticos”. Proletariado à parte, foi bom ter trocado umas ideias sobre o assunto.

– Isto de ficar famoso do dia para a noite foi um abanão na sua vida, ou não?

J.R.P – Como foi acompanhado por uma alegria e uma satisfação, esta notoriedade acabou por ser uma coisa boa. Dá para ir gerindo. Apesar de tudo, não sou um jogador de futebol! Passo anónimo, não tenho esse problema de andar na rua. Tenho também a noção de que todo este sucesso não se deve exclusivamente à qualidade ou não do livro. Deve-se às circunstâncias em que o ganhei e à forma como os media trataram isso. Mas habituei-me. É fácil uma pessoa habituar-se a coisas boas. Ganhei um prémio, tenho um livro à venda, quase já nem me lembro da vida que tinha antes. Outra coisa boa é a motivação que dá para eu continuar a escrever. Eu quando escrevia, escrevia sozinho. Nunca mostrava nada a ninguém e, por isso, ficamos sempre com aquela dúvida sobre o valor do que escrevia. Nunca tive um blogue, nunca tive amigos dos meio a quem, sequer, pudesse pedir uma opinião.

– Mas lia muito.

J.R.P – Lia, era um leitor. E foi por ser um leitor que a partir de um determinado momento eu passar para o lado de lá. E andei assim anos até que comecei. E uma coisa determinante foi o prazer que a escrita me deu, a rotina da escrita. Durante anos a aturar patrões, accionistas, situações complicadíssimas e, de repente, passo a estar todos os dias, das oito e meia às quatro e meia, em casa a escrever.

– E é uma rotina?

J.R.P – É uma rotina que estabeleço. Senti-me obrigado a isso. Pensei que já que vou aproveitar um tempo da minha vida para fazer isto, vou fazê-lo de forma séria. Mas havia também aquele prazer dos cinco dias por semana, como o empregado de escritório. Sexta-feira tentar esquecer o que nunca se esquece quando se está a escrever. E domingo à noite, em vez de estar angustiado por ir trabalhar na segunda-feira estava desejoso.

– E como é que lhe apareceu o 25 de Abril?

J.R.P – Quando comecei não tinha ideia nenhuma sobre o que ia escrever. O livro começa com um episódio no 25 de Abril que até nem é dos primeiros a ser escrito mas quando aparece é um daquele mistérios da criação que já está dentro de nós. A ficção também acaba por ser isso, o rearranjo das memórias que estão dentro de nós e eu dava por mim a pensar como é que me aparecem estas coisas, estes nomes… e a do 25 de Abril foi assim. Pensei, uma decisão racional, vou pôr isto a abrir o livro. Foi também por uma questão de afectividade, o meu primeiro livro há-de começar no 25 de Abril de 1974. Acaba por ser um livro que trata muito a memória colectiva de uma determinada geração que é a minha e o 25 de Abril é uma data fundamental. Não porque trate das minhas memórias, directamente, que eu tinha um ano quando aconteceu mas, por intermédio dos meus pais e da minha família, sempre tive naquela data uma afectividade.

– Também porque, politicamente, tinha alguma coisa a dizer sobre o 25 de Abril.

J.R.P – Os livros acabam por ser sempre político. E quando, então, entram personagens reais, que existiram e existem, por mais que não queira acaba por ser político nesse sentido. E nota-se que quem escreveu o livro estabeleceu relações de afectividade com o 25 de Abril e determinado tipo de ideias, de sonhos… Em contrapartida, a acção do livro termina por volta de final dos anos oitenta, princípios dos noventa com as personagens a assistir a uma tomada de posse de [ex-primeiro-ministro português] Cavaco Silva e acaba por existir um certo desencanto. Todas aquelas ilusões de Abril acabam no fim do livro tomar uma forma de desencantado. É político nesse sentido. Se bem que acaba por ser sempre perigoso pensar em termos de mensagem. Não há uma mensagem. Mas é um livro político.

– Tem repetido que não é uma autobiografia mas é uma biografia da democracia?

J.R.P – Também pode ser visto assim… Eu, pelo menos, quando estou a escrever  nunca tenho muito bem a noção de como é que aquilo pode ser lido…

– Falo de democracia mas de como a democracia passa a ser vivida pelas pessoas…

J.R.P – … Pois, e acaba por haver personagens não só marcados pela ditadura mas depois marcados pela esperança de Abril. E, depois, há um contexto histórico internacional com a queda do Muro de Berlim e da União Soviética que teve um impacte muito forte, também. É qualquer coisa que não é muito falada mas isso, com o fantástico que esse acontecimento foi, não deixou de ser traumático para muita gente. Não se pensa muito nisso, encara-se só como uma festa, mas quando vem ao de cima o que era aquilo, conheci pessoas que choraram baba e ranho. E essa desilusão também está muito presente e é uma coisa que afectou muita gente. Quando o muro caiu e quando acaba a União Soviética… pessoas que acreditaram naquilo durante quarenta anos, a pensar que um dia chegaremos lá, e depois tudo aquilo se desfaz. Foi, extremamente, traumatizante.

– Isso simboliza-se, no livro, com a derrota da União Soviética no Europeu de 1988.

J.R.P – Sim, foi a última vez que a URSS participou num evento desportivo e foi assim como a última esperança! Já que vai acabar que acabe em grande mas, depois, acaba por perder com a Holanda. E eu vivi episódio. Por acaso estava a torcer pela Holanda mas convivi com pessoas que, desalmadamente, torciam pela União Soviética. Aquela era a oportunidade para mostrar o que era aquela país e que sofreram com a derrota.

 

– Ali cai também uma certa parte da esquerda.

J.R.P – Sim, uma certa esquerda que, curiosamente, ainda hoje resiste. É pouca gente, um dia há-de morrer e não há-de sobrar nada mas enquanto aquelas pessoas forem vivas resistirão. Basta ir à Festa do Avante e ver aquela gente a ouvir aqueles discursos. Pergunto-me como é que isto ainda existe hoje em Portugal! É um discurso que vinga, pessoas que vivem isso. Para mim é emocionante. Eu que estou distante desse mundo, ideologicamente, não consigo deixar de ter carinho por aquelas pessoas.

– Ideologicamente distante, afectivamente não.

J.R.P – Afectivamente, emociono-me.

– Isso é evidente no livro e já agora antecipo a pergunta que tinha de bolso. Este é um romance neo neo-realista?

J.R.P – (Risos…) Se calhar é. É uma boa definição do livro, inédito, pelo menos.

– Que autores assume como referência?

J.R.P – O primeiro que livro que li foi “A Metamorfose” do Kafka, aos 17 anos. Mas tive fases. Durante muitos anos li os americanos, John dos Passos, Hemingway, William Faulkner, essa gente toda. Depois li os russos, o Tolstoi, Dostoiewsku, o Gogol, depois os franceses, e muitos anos só estrangeiros até que, de repente, ao fim de vinte e tal anos, começo a ler autores portugueses. Há um momento em que descubro José Cardoso Pires e o Lobo Antunes que são determinantes na minha voz. Li o Eça e o Camilo. Não li na escola onde eram obrigatórios. Li depois. E há também o Machado de Assis e a Clarice Lispector, uma certa literatura brasileira que acaba por me interessar muito.

– O Nobel português não?

J.R.P – Gosto, leio e tenho de reconhecer valor ali. Gostei do “O Ano da Morte de Ricardo Reis” mas não me arrebata.

– Que lhe parece esta emergência de literatura sobre os retornados de África?

J.R.P – É normal que aconteça porque mais uma vez é a memória colectiva a funcionar juntamente com a ficção. É normal e vai acabar por ser saudável as pessoas se relacionarem com estes acontecimentos históricos através da ficção. Há muitos exemplos disso na literatura universal. Há sempre pontos de vista por explorar.

– Se enviasse uma carta a um jovem escritor, que lhe diria?

J.R.P – O problema é que cada vez que me sento à secretária, sinto-me um estreante. Nem sei que carta mandaria a mim próprio. Todos os dias sinto dificuldades. Para mim, a escrita é uma coisa terrível. Enquanto em muitas áreas, o saber adquirido e a experiência adquirida conta, para mim a experiência adquirida não me serve de nada. Todos os dias me sinto um principiante com as mesmas dificuldades e as mesmas dúvidas e, por isso, não saberia o que dizer a um jovem escritor. Como costumo dizer, isto começou muito bem agora é sempre a cair. Resta-me agora cair em grande estilo.

 

 

A violência como estrutura social

“O trauma da Guerra Colonial ainda está muito presente”

 

– Um dos eixos dessa memória que atravessa o livro refere-se à Guerra Colonial. Já lá vamos à violência, bruta e extrema nalguns casos que está presente nos capítulos, mas a guerra é um elemento que em Portugal ainda está por digerir, um fantasma que paira.

J.R.P. – Sim, há ainda muita gente viva que viveu isso e é impossível um distanciamento histórico-científico. Não são as guerras liberais. Estamos a falar de alguma coisa que está presente, e, inclusivamente, presente na minha família. É um daqueles episódios que emergem nas minhas memórias de infância quando ia àqueles almoços de combatentes ouvir histórias do meu pai e dos meus tios. Quando era puto ter um pai que tinha andado na guerra era alguma coisa que me enchia de orgulho, era maravilhoso. ‘Oh pai, quantos é que matastes?’ e na escola eu ia dizer o meu pai matou duzentos, e outro respondia que o dele tinha matado quinhentos, e coisas assim… Só na adolescência é que me apercebi que aquilo não tinha nada de heróico mas que era qualquer coisa de traumático. É uma coisa muito presente na sociedade portuguesa e que eu trouxe para o livro. Espontaneamente. E acho que esse é um dos momentos fortes do livro.

– Tal como o Portugal interior.

J.R.P. – Sim, é porque aquela coisa de pensarmos que Portugal é um país pequeno… Eu ainda vivi, na infância, esse distanciamento, a ruralidade que não era apenas ter de se viver da agricultura de subsistência. Era as pessoas viverem afastadas. Eu vivia nos subúrbios de Lisboa, ia passar férias à Beira Baixa, brincava com os miúdos de lá e aquilo fazia-me confusão porque tudo o que fazia parte do meu mundo aqui eles não conheciam. Hoje o mundo rural, esse mundo acabou mas ainda há isso de Lisboa ser uma coisa muito longe. Quando estão a ver as notícias, aquilo do governo é uma coisa muito longe. Bem, agora menos porque lhes cortaram as reformas, mas é qualquer coisa longínqua. Isso no Alentejo também se sente. Como é que aquelas pessoas vivem no mesmo país que eu?! É outro país.

– A televisão…

J.R.P. – A televisão foi fundamental. Só nos anos oitenta e noventa é que a televisão veio fazer com que as pessoas se sentissem mais integradas. A televisão era um fenómeno… as pessoas em Lisboa estavam a ver os mesmo que as pessoas de Trás-os-Montes. As mesmas novelas, os mesmos concursos. E foi também importante como fonte de memória colectiva.

– Este livro conta uma história de violência?

J.R.P. – No livro, há episódios violentos. A violência agrada-me como estética, como situação limite. Eu gostava muito de ter o talento de escrever um belo livro sobre pessoas a atravessar um passeio. Há escritores que têm capacidade de escrever coisas maravilhosas sobre coisas banais, mas outros escritores têm de ir à procura de situações limite para os livros ganharem força. E a violência facilita isso. De facto, as situações no livro relacionam-se com coisas violentas que são significativas. Violência sobre as crianças, sobre os animais… isso acabou por me dar muita satisfação porque têm esse limite, e cada capítulo narra essas situações na vida daquelas pessoas. Eu acabo por nunca contar os elementos normais. Não sabemos a profissão dos pais do protagonista, não sabemos muita coisa. O que me interessava eram os momentos fundamentais e isso, muitas vezes, está associado a episódios de extrema violência. Se pensarmos um bocadinho, pelo menos na minha vida, na minha infância, os momentos mais marcantes envolvem sempre violência, entre miúdos, histórias de violência dos pais dos meus pais sobre eles…

– Mas é um elemento estrutural.

J.R.P. – É porque faz parte da vida das pessoas. Há sempre uma violência latente. Acho que é estrutural mesmo das nossas vidas se bem que, hoje em dia, já não se manifeste exactamente nas mesmas formas. Quando, há cinquenta ou sessenta anos, um pai se zangava com um filho, o tipo de violência era muito diferente do tipo de violência que hoje um pai exercerá sobre um filho. Acaba por ser uma violência mais psicológica, já não de força e de sangue.

– Que retrato faria hoje de Portugal?

J.R.P. – Não é fácil mas temos de pensar friamente que nunca se viveu tão bem. Nunca houve nenhuma situação histórica em que temos esta paz, em que mal ou bem as pessoas vão comendo. O que acontece hoje é a falta de esperança que era aquela coisa que no 25 de Abril foi extraordinária. As pessoas encheram-se esperança. Neste momento, o que mais me entristece é ver que não existe esse potencial de esperança, que as pessoas estão com aquele sentimento de que cada vez vai ser pior. Não só em Portugal. Na Europa, nota-se muito. Há pouco tive com uns tipos de Madrid que me diziam que se notava muito essa angústia. E na Europa que é provavelmente o sítio do planeta onde mais confortavelmente se vive é estranha esta angústia.

C.P.

 

 

 

 

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