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“China é a campeã da globalização”

Pragmatismo, liderança forte e uma estratégia bem definida são os pontos fortes da afirmação internacional da China, primeiro alicerçada no poder económico, mas rapidamente a crescer para uma influência política global e para a difusão de uma cultura internacionalista. Luís Cunha, ex-residente em Macau e actualmente no Ministério português dos Negócios Estrangeiros, lançou ontem em Lisboa “A Hora do Dragão”, tese que antecipa uma nova ordem mundial, na qual o Império do Meio executa a velha ambição de voltar ao centro mundial das decisões.

Paulo Rego

– Depois de sair de Macau, há 13 anos, o que é que o leva a centrar outra vez atenções na China, neste caso com uma tese sobre o plano estratégico de internacionalização do Continente?

Luís Cunha – Nunca deixei de abordar a questão geoestratégica da China. Aliás, quando deixei Macau, em 1999, fiz questão de manter esse elo e esse vínculo, não tanto focado nas questões de Macau, mas no processo económico e ascensão geoestratégica da China. Nessa medida, tenho feito e publicado vários trabalhos e artigos e, em 2008, fruto do mestrado que iniciei em Relações Internacionais, publiquei um livro sobre Taiwan (conflitos e cooperação). Foi o trabalho de maior dimensão que publiquei durante estes anos todos. Tenho publicado trabalhos sobre a China e a Ásia, numa espécie de maratona – uma corrida de fundo – que me fez desembocar no meu maior interesse: tentar perceber a abertura da China, onde tudo mudou num curto espaço de tempo – – 30, 40 anos – que não passa de um suspiro na História multimilenária da China

O que é que aconteceu. O que é que baliza essa mudança?

L.C. – A China foi em tempos uma potência nuclear e demográfica. Depois voltou a ser um estado isolado e pobre. Mas durante o período da Guerra Fria pode dizer-se que foi uma potência política, embora nunca tenha sido uma potência económica. A grande diferença a partir de 1978 até à actualidade foi essa: a China transformou-se numa potência económica.

– Estes últimos dez anos são diferentes dos outros 30?

L.C. – Quando falamos na História da China não podemos generalizar. Temos a China imperialista, a nacionalista, a republicana e depois a comunista. Esta China comunista, que tem agora 60 anos, faz parte de um tempo que pode ser dividido em dois períodos: O primeiro, até à chegada do Deng Xiaoping ao poder; e o período subsequente, mais cintilante, de maior abertura ao mundo. São distintos, mas complementam-se. E aqui falamos da própria cultura chinesa e da sua tradicional unidade dos opostos – as coisas acabam sempre por integrar-se e encaixar umas nas outras. Realmente, estes últimos 30 anos foram totalmente diferentes. A China abraçou a globalização e é curioso que tenha sido uma geração de engenheiros formados em Moscovo – a maior ortodoxia comunista – a ter esse arrojo de embarcar nos primeiros passos da globalização. Passado 30 anos, a China é a campeã da globalização. Até é irónico pensar que foi um estado comunista aquele que melhor se adaptou a essa realidade.

– Quais são os traços gerais do sucesso desta geração?

L.C. – Pragmatismo, uma característica iminentemente oriental. E em primeiro lugar, isso significa pôr de lado a ideologia. Na abertura da China ao mundo, a ideologia foi colocada de lado, o que impressionou desde logo Henry Kissinger, em 1972, quando começou os contactos com as autoridades chinesas.

– O Partido Comunista assume-se hoje em dia como sendo também capitalista. Há pouco tempo, isso seria uma contradição teórica insanável…

L.C. – Costumo dizer que a China fez o maior truque da História. Colocou na mesma mesa Keynes, Adam Smith, Marx, Lenine, Mao… E todos convivem sem grande conflito aparente. Realmente, é preciso tirar-lhes o chapéu! Mas ainda respondendo à outra pergunta: além do pragmatismo, destaco também a liderança forte e uma estratégia bem definida.

– A última geração de líderes já não vem de Moscovo, mas sim da Europa, do Canadá, dos Estados Unidos. Que influência pode ter tido no plano estratégico chinês esse conbtacto dos seus líderes com as academias ocidentais?

L.G. – Temos de falar na maneira como as lideranças foram superando os obstáculos, sobretudo económicos e ideológicos. Estou a falar daquela célebre frase de Mao Zedong: “Não interessa se o gato é branco ou preto, desde que consiga caçar o rato. Isto quer dizer o quê? Que nos últimos anos a China tem-se adaptado muito bem aos desafios internos e externos.

– No plano geoestratégico, quais são os interesses dominantes da diplomacia chinesa?

L.C. – A China está a procurar restaurar o poder que antes teve ao longo muitos e muitos anos. Não nos podemos esquecer que é uma civilização com cinco mil anos e que durante dois mil anos foi a maior potência da região onde se insere – o Império do Meio. Depois atravessou um período negro que está na psique do povo chinês, chamado o “século de humilhações”. Estou a referir-me às guerra do ópio [1839-1842 e 1856-1860] e à rebelião dos boxers [1899-1900], com todas as consequências que são conhecidas. A China quer claramente recuperar agora o prestígio e o poder que teve durante muitos séculos. E se colocar os recursos que tem ao serviço de uma estratégia bem definida vai chegar a esse objectivo, que está bem patente em documentos chineses.

– Quais são os eixos estratégicos e as áreas privilegiadas dessa actuação? 

L.C. – Há várias maneiras de encarar a estratégia chinesa, do ponto de vista económico, político e até interno. O que posso dizer sobre isso é que a China está a colocar em campo uma diplomacia muito activa, bem como um empresariado muito dinâmico e eficiente, que está a adquirir activos em todo o mundo, fruto de um poder económico tremendo. É bom não esquecer que a China tem reservas no valor de 3,3 triliões de dólares. É muito dinheiro! Por isso está a conseguir investir, nomeadamente em África e na América Latina, e por detrás desse investimento económico há sempre o interesse político. A China conta sempre com o apoio político daqueles que ajuda. Estou a referir-me a votos nas Nações Unidas, à conjugação de vontades nas organizações multilaterais…. Penso que podemos até chamar-lhe lóbi. Ao nível político, a China está também a ter muita atenção aos Estados Unidos, porque sabe que precisa do poder norte-americano para singrar. Em certa medida, a China actual é uma criação dos Estados Unidos, desde a visita de Richard Nixon, em 1972.

– Podemos estar perante uma nova Guerra Fria, necessariamente em moldes diferentes; ou estaremos mais próximos de uma espécie de Tratado de Tordesilhas económico entre a China e os Estados Unidos? 

L.C. – Muitos observadores falam já da existência prática de um G2: um fórum de decisão informal, formado pela China e pelos Estados Unidos. No contexto daquela aceleração que mencionei, a China chegou muito depressa – talvez até demasiada, na visão de alguns dirigentes chineses – aos centros de decisão. Dito de outra maneira, a China está no centro do sistema internacional e isso faz com que os Estados Unidos queiram que Pequim assuma maiores responsabilidades. Mas a China acha que ainda não está pronta. E Isso é muito curioso. Apesar de ser a segunda maior economia mundial, de ser a maior país exportador e de ter 3,3 triliões de dólares em reservas, é – e continua a assumir-se como tal – um país de terceiro mundo. Há aqui um problema de identidade, que conjuga uma ambição de projecção internacional com as dores de crescimento interno. Costumo dizer que a China sofre de uma certa bipolaridade, no sentido clínico. Tanto é uma nação do terceiro mundo, como é também uma potência desenvolvida. Daqui a dois anos, a China vai ser a maior consumidora de produtos de luxo, a par do Japão; já é o terceiro maior contribuinte líquido do Fundo Monetário Internacional; e por aí fora…

– Há uma declaração recente de um vice-ministro chinês que diz mais ou menos o seguinte:  “Os Estados Unidos têm de perceber que nós temos de nos entender”. Será um aviso ou uma proposta negocial?

L.C. – Esta China não participou na actual ordem mundial. E esse é que é o problema. Aproveitou tudo o que achou por bem, mas reivindica maior democracia ao nível das relações internacionais. O que é muito curioso, pois assistimos a um sistema comunista e de partido único a exigir a partilha de poder no contexto global. Traduzido, isto quer dizer que quer mais poder.

– O crescimento chinês pode criar tensões na própria Ásia? Nomeadamente com a índia e com o Japão?

L.C. – Não necessariamente, porque as relações económicas falam mais alto – money talks. Também aqui há uma circunstância muito ímpar: todos os grandes aliados comerciais da China são simultaneamente aliados militares dos Estados Unidos. Isso cria um cenário único.

– Qual é o papel da Europa nesta bipolarização? Apesar da crise económica e politica continua a ser o maior mercado do mundo, mas não se vê que possa entrar em cunha como uma terceira força neste cenário…

L.C. – A China olha para a Europa numa perspectiva económica; não a toma como uma grande potência política. Sabe-se inclusivamente que alguns embaixadores chineses, nomeadamente os destacados na União Europeia, têm muita dificuldade em avistar-se com os seus superiores no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Pequim. Mas quando se trata de um representante diplomata destacado nos Estados Unidos, a coisa já é diferente. Ainda não tinha referido isto, mas é preciso ressalvar que os Estados Unidos dão enorme importância à China. Só a título de exemplo, na embaixada norte-americana de Pequim há 950 funcionários. Penso que esse número diz tudo.

– Voltando à Europa, o que pode acontecer ao Velho Continente com esta nova bipolarização?

L.C. – A Europa continua a ser o maior mercado do mundo e a China, mais do que nunca, é-lhe útil. Neste momento, vai assumir-se como o maior mercado para a União Europeia. Ou seja, na perspectiva económica, a importância é imensa. Já do ponto de vista político… a China tem outros interesses.

– Como o projecto lusófono chinês?

L.C. – Julgo que sim. Os mil milhões de dólares que a China disponibilizou para os países lusófonos, através do Fórum Macau, prova isso mesmo. Sei que ainda não estão definidas as estratégias de desenvolvimento, mas até ao fim do ano as coisas estarão decididas. O número e a expressividade desta linha de financiamento diz tudo sobre o empenho neste tipo de cooperação. Angola é um caso paradigmático. Números oficiais das autoridades angolanas dizem que há 290 mil chineses em Angola. Números não oficiais apontam para cerca de meio milhão. Portanto, há aqui um enorme investimento. De resto, tal como no Brasil.

– É legítimo pensar que atrás do poder económico e político chinês virá um poder cultural? Ou seja, a forma como olhamos para o mundo poderá mudar com o posicionamento da China nos centros de decisão?

L.C. – Pode. Aliás, esse processo já está em curso. Joseph Nye, criador do conceito “soft power” – por contraposição ao hard power, o poder militar –, diz que há uma competição entre narrativas: a dos Estados Unidos e a chinesa. Realmente, a China está a colocar em curso aquilo a que Joseph Nye chama de “poder inteligente”, que é mais precisamente uma combinação do poder suave e do poder militar. Neste momento, a China tem um programa de afirmação nos Média para o Ocidente, recorrendo a grandes jornais de referência, a canais de televisão, etc… Investiu nisso 6,6 biliões de dólares. É imenso dinheiro. Se abrirmos hoje em dia o New York Times ou o Herald Tribune, vemos um suplemento lá inserido que é do China Daily; se formos à Times Saquete há um painel a falar da China. Ou seja, ao nível dos Média estão a apostar fortíssimo. Ao nível linguístico, temos também os centros de Confúcio, que são mais de 300 a nível mundial. Em Portugal, existem dois (Lisboa e Porto).

– Esse interesse global produz também pensamento diversificado sobre a China. Pequim e o Partido Comunista aproveitam essa reflexão também para se actualizarem?

L.C. – Mais do que ninguém, os chineses estão conscientes dos pontos fracos que têm. Muitos documentos oficiais, como os livros brancos, dizem isso mesmo. E é preciso não esquecer que não há país mais estudado e dissecado do que a China. Por isso, têm consciência do que mudar.

– De que forma Macau pode beneficiar deste movimento de afirmação da China?

L.G. – Macau sempre beneficiou da China e a China sempre beneficiou de Macau. Neste momento, Macau, tal como Hong Kong, continua a desempenhar um papel muito importante para a China. Não só ao nível económico, mas sobretudo para mostrar ao mundo que a fórmula “um país, dois sistemas” resultou plenamente. A China tem essa visão de mostrar ao mundo que é uma nação séria e que a fórmula de Deng Xiaoping pode funcionar. Uma fórmula que também foi pensada para Taiwan.

– Nesta arquitectura pluri-constitucional, qualquer região da China que consiga estabelecer pontes encontrará as suas oportunidades neste voo do Dragão?

L.G. – Claro! Sempre houve uma cultura de descentralização administrativa, desde o Império do Meio. As regiões especiais ou não todas iguais e sempre tiveram uma autonomia relativa no que diz respeito ao contacto com o exterior.

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